Agro

    PANC: Guia Completo de Plantas Alimentícias Não Convencionais [2026]

    Guia completo de PANC com as 12 espécies mais buscadas, passo a passo de cultivo em casa, caso piloto do ora-pro-nóbis, segurança alimentar contra oxalatos, marco regulatório da ANVISA ao PNAE 45% e o mercado em formação no Brasil.

    PANC é a sigla para Plantas Alimentícias Não Convencionais, espécies vegetais nutritivas, rústicas e culturalmente legítimas que ficaram de fora do supermercado. O termo foi cunhado pelo biólogo Valdely Ferreira Kinupp em 2007, na sua tese de doutorado na UFRGS, e hoje organiza um universo enorme: o Brasil tem estimadas mais de 10 mil espécies com potencial alimentício, das quais 351 já foram catalogadas em detalhe na obra de referência de Kinupp e Lorenzi (2014). Mesmo com toda essa riqueza, apenas 1,34% da população brasileira consome PANC, cogumelos ou caça, segundo estudo de Hunter e colaboradores publicado na Scientific Reports em 2023. É um mercado em formação, com um enorme espaço para crescer.

    Este guia foi escrito para duas pessoas ao mesmo tempo: quem quer plantar capuchinha em um vaso na varanda e quem pensa em vender folha de ora-pro-nóbis na feira ou colocar taioba na merenda escolar. Você vai encontrar as 12 PANC mais relevantes com nome científico correto, o passo a passo de cultivo em casa, um mergulho no ora-pro-nóbis (a folha de até 32% de proteína), os cuidados de segurança que ninguém pode ignorar, o marco regulatório completo e o retrato do mercado brasileiro.

    Fato-chaveNúmero
    Espécies com potencial alimentício no Brasilmais de 10.000
    Espécies catalogadas em obra de referência351
    Proteína no ora-pro-nóbis (matéria seca)20% a 32%
    População brasileira que consome PANC1,34%
    Mínimo do PNAE para agricultura familiar a partir de 202645%

    O que são PANC e quem cunhou o termo

    A definição operacional consolidada por Kinupp e Lorenzi é direta: PANC são espécies vegetais com uma ou mais partes alimentícias que não fazem parte do consumo cotidiano da maior parte da população. Elas podem ser espontâneas ou cultivadas, nativas ou exóticas. E aqui está o ponto que quase todo iniciante ignora: a categoria também inclui partes não convencionais de espécies convencionais. O umbigo da bananeira, as folhas da batata-doce, as folhas e as flores da abóbora, tudo isso é PANC. Você provavelmente já jogou fora vários alimentos legítimos sem saber.

    Horta doméstica de PANC em vasos com ora-pro-nóbis, capuchinha florida e jambu, e mãos colhendo folhas verdes
    Poucos metros quadrados de quintal já reúnem ora-pro-nóbis, capuchinha e jambu para colheita contínua em casa.

    Vale entender a origem para não repetir informação errada. O termo nasceu na tese de doutorado de Valdely Ferreira Kinupp, defendida em novembro de 2007 no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia da UFRGS, sob orientação da professora Ingrid Bergman Inchausti de Barros. O trabalho mapeou as plantas alimentícias não convencionais da região metropolitana de Porto Alegre e virou a semente de um movimento nacional. Sete anos depois, Kinupp uniu forças com o botânico Harri Lorenzi e publicou, pelo Instituto Plantarum, o livro que hoje é a bíblia do tema: 768 páginas, 351 espécies detalhadas com identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas, resultado de cerca de dez anos de trabalho de campo.

    Fonte: Kinupp, V.F. (2007). Tese de doutorado, PPG Fitotecnia UFRGS

    O mais importante para fixar de vez: PANC não é uma família botânica. Uma cactácea como o ora-pro-nóbis e uma portulacácea como a beldroega estão na mesma categoria não porque são parentes, mas porque compartilham um destino cultural. PANC é uma categoria etnobotânica e cultural, ou seja, é tudo aquilo que o mercado formal ignorou, mas que a biodiversidade, o saber tradicional e a ciência apontam como alimento legítimo, nutritivo e resiliente. A Embrapa estima que existam mais de 10 mil espécies vegetais com potencial alimentício no país, e apenas cerca de 50 estão em programa ativo de recuperação genética na Embrapa Hortaliças. O tamanho da lacuna é, ao mesmo tempo, o tamanho da oportunidade.

    As 12 PANC mais relevantes para começar

    Não adianta querer plantar as 351 espécies de uma vez. O caminho inteligente é começar por um grupo pequeno de PANC rústicas, produtivas e de propagação fácil, que entregam colheita rápido e perdoam o erro de iniciante. A tabela abaixo reúne as 12 mais buscadas e mais bem documentadas, lado a lado, com o que você precisa saber antes de escolher.

    #Nome popularNome científicoParte comestívelDestaque nutricionalPropagaçãoCiclo até 1ª colheitaAtenção
    1Ora-pro-nóbisPereskia aculeataFolhas, flores, frutos20% a 32% de proteína em matéria secaEstaca de 15 a 20 cm60 a 90 diasOxalato (moderar em gestantes e renais)
    2TaiobaXanthosoma sagittifoliumFolhas e rizomaVitamina A, ferro, fibrasMuda de rizoma4 a 6 mesesCozinhar 10 minutos ou mais
    3CapuchinhaTropaeolum majusFolhas, flores, sementesVitamina C, cálcio, zincoSemente direta60 a 70 diasFlor perecível, conservar a 5 graus
    4JambuAcmella oleraceaFolhas, inflorescênciasEspilantol (efeito anestésico)Semente ou estaca60 a 90 diasProvoca dormência na boca
    5Bertalha asiáticaBasella albaFolhas, hastesVitaminas A e C, cálcio, ferroEstaca ou semente50 a 70 diasTrepadeira, exige tutor
    6Bertalha-coraçãoAnredera cordifoliaFolhasVitaminas A e C, cálcioTubérculos aéreos, estaca60 a 90 diasNativa Sul e Sudeste
    7VinagreiraHibiscus sabdariffaCálices, folhasAntocianinas, vitamina CSemente4 a 5 mesesBase do arroz de cuxá
    8BeldroegaPortulaca oleraceaFolhas, hastes300 a 400 mg de ômega-3 por 100 gEspontânea, semente30 a 45 diasOxalato (moderar)
    9CaruruAmaranthus viridisFolhas, sementesProteína vegetal, ferroSemente30 a 40 diasCocção rápida elimina oxalato
    10Peixinho-da-hortaStachys byzantinaFolhasAntioxidantesMuda, divisão45 a 60 diasSol pleno, solo drenado
    11Major-gomesTalinum paniculatumFolhas, raízesMucilagem, vitamina ASemente, estaca50 a 70 diasSuculenta ereta
    12MoringaMoringa oleiferaFolhas, vagensProteína, cálcio, ferro, vitamina AEstaca, semente4 a 6 mesesSemente potabiliza água

    A leitura correta dessa tabela é por objetivo, não por linha. Se você quer colheita rápida e quase sem esforço, comece pela beldroega e pelo caruru, que produzem folha em 30 a 45 dias e muitas vezes já nascem espontâneas no seu quintal. Se o objetivo é uma planta perene que produz o ano todo e enriquece o feijão com proteína, o ora-pro-nóbis é imbatível. Se a meta é impressionar visualmente, com flores comestíveis alaranjadas e um toque picante que lembra mostarda, a capuchinha resolve. E se você quer aquela experiência gastronômica que faz a boca formigar e vibrar, o jambu entrega o famoso efeito buzz por conta do espilantol.

    Um detalhe brasileiro que confunde muita gente é a diferença entre as duas bertalhas. A bertalha asiática (Basella alba) é uma trepadeira de origem asiática, com folhas suculentas grandes, que adora clima quente e precisa de tutor. Já a bertalha-coração, também chamada de espinafre-gaúcho (Anredera cordifolia), é nativa do Sul e do Sudeste do Brasil, tem folhas em forma de coração e produz tubérculos aéreos comestíveis. Essa segunda está no catálogo da Arca do Gosto do Slow Food Brasil justamente por ser uma cultivar tradicional em risco de desaparecer culturalmente. São plantas da mesma família, a Basellaceae, mas de gêneros diferentes, e trocar uma pela outra na hora de comprar muda é um erro comum.

    Vale registrar uma ponte prática: várias dessas espécies funcionam muito bem como microverdes. O caruru e o amaranto, por exemplo, germinam rápido e podem ser colhidos ainda bebês, com sabor concentrado e alto valor nutricional. Quem quer testar essa modalidade antes de partir para a planta adulta encontra o passo a passo completo no nosso guia de microverdes em casa, que se aplica diretamente às PANC de folha tenra.

    Como cultivar PANC em casa, o passo a passo geral

    A boa notícia é que a maioria das PANC foi selecionada pela natureza, e não pelo melhoramento comercial, para ser resistente. Elas dispensam agrotóxico, toleram solo pobre e perdoam esquecimentos de rega que matariam uma alface. Ainda assim, alguns princípios básicos separam a horta que produz da horta que definha.

    O primeiro ponto é o recipiente e a drenagem. O ora-pro-nóbis precisa de vaso de no mínimo 10 litros, porque vira um arbusto vigoroso. Capuchinha e jambu ficam bem em vasos de 5 litros. Caruru e beldroega, por serem de porte menor e ciclo curto, prosperam em jardineiras rasas. Seja qual for o recipiente, a drenagem é o ponto crítico: furos generosos no fundo e uma camada de brita ou argila expandida evitam o encharcamento, que é a principal causa de morte de PANC em vaso.

    O segundo ponto é o substrato. A receita que funciona para quase todas é terra vegetal misturada com húmus de minhoca na proporção de um para um, mais cerca de 10% de areia para melhorar a drenagem. Para as suculentas do grupo, como beldroega e major-gomes, aumente a fração de areia, porque elas odeiam pé molhado. A adubação pode ser toda orgânica, com composto, esterco bem curtido ou biofertilizante, já que essas espécies rústicas dispensam o NPK químico das culturas exigentes.

    O terceiro ponto é a luz. Capuchinha, jambu e vinagreira querem sol pleno e florescem melhor quanto mais luz recebem. Taioba, peixinho e ora-pro-nóbis aceitam meia-sombra, e o ora-pro-nóbis produz bem com apenas três a quatro horas de sol direto por dia, o que o torna ideal para varandas e quintais parcialmente sombreados. Se o seu espaço é um apartamento sem sol direto, o cultivo indoor com lâmpada LED de espectro completo é viável, embora reduza a produtividade. Nesse cenário urbano, vale combinar a horta de PANC com as técnicas do nosso guia de horta em apartamento, que trata de luz, vasos e substrato para espaços pequenos.

    A rega segue a lógica da rusticidade. As espécies mais resistentes pedem duas a três regas por semana; mudas jovens querem água diária até pegar. As suculentas exigem o contrário do instinto do iniciante: só regue quando o substrato estiver seco ao toque, porque excesso de água apodrece a raiz. Sobre propagação, memorize três caminhos. Estaca semilenhosa de 15 a 20 cm, com o terço inferior enterrado, resolve ora-pro-nóbis e peixinho. Semente direta serve capuchinha, beldroega e caruru. E muda de rizoma multiplica taioba e jambu.

    Uma estratégia que multiplica o resultado é o plantio consorciado. Ora-pro-nóbis, capuchinha, caruru e jambu juntos cobrem quatro estratos de altura e quatro perfis de sabor, com floração em épocas diferentes, o que garante colheita quase contínua e ainda atrai polinizadores. E se você quer levar o cultivo de PANC para o nível seguinte, saiba que espécies como ora-pro-nóbis, capuchinha e jambu já foram testadas em sistemas hidropônicos. Antes de montar um, vale entender os fundamentos no guia definitivo sobre o que é hidroponia e conferir o passo a passo de um sistema simples no nosso tutorial de hidroponia caseira.

    Caso piloto: ora-pro-nóbis, a folha de 32% de proteína

    Se existe uma PANC que merece o título de embaixadora do grupo, é o ora-pro-nóbis. A espécie de referência é a Pereskia aculeata, uma cactácea peculiar: diferente da maioria dos cactos, ela mantém folhas verdadeiras, macias e brilhantes, em vez de reduzi-las a espinhos. É originária da Mata Atlântica de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, e naturalizou-se em quase todo o Brasil tropical. O nome curioso vem da história religiosa mineira: as cercas vivas espinhosas da planta guardavam terrenos de igrejas, e os fiéis colhiam as folhas enquanto recitavam a ladainha em latim, o "ora pro nobis", que significa "rogai por nós".

    O que torna essa folha extraordinária é o teor de proteína. Dados da Embrapa Hortaliças apontam de 20% a 32% de proteína em matéria seca, um número altíssimo para uma hortaliça de folha. Além disso, ela carrega ferro na ordem de 13,89 mg por 100 g, cálcio em torno de 427 mg por 100 g e potássio próximo de 689 mg por 100 g. É por esses números que o ora-pro-nóbis ganhou o apelido de "carne dos pobres" no interior de Minas, onde é cozido junto com o frango ou refogado com o feijão para reforçar o valor nutricional do prato.

    Cultivar é simples e recompensador. Use vaso de no mínimo 10 litros, em sol pleno ou meia-sombra com três a quatro horas de sol direto, substrato de terra vegetal com húmus e rega de duas a três vezes por semana. A propagação por estaca semilenhosa de 15 a 20 cm, com um terço enterrado, é quase infalível, e a primeira colheita generosa vem por volta de 60 a 90 dias. Uma atenção na hora de comprar: muito "ora-pro-nóbis" vendido em viveiro comum é, na verdade, a Pereskia grandifolia, uma espécie irmã igualmente comestível, mas com folha maior, menos macia e produtividade diferente. Peça sempre a identificação botânica correta.

    No campo científico, a planta é uma das PANC mais estudadas do país. A Embrapa Hortaliças, com pesquisadoras como Neide Botrel liderando estudos de qualidade proteica, além da EPAMIG e da UFV em Viçosa, publicou dezenas de trabalhos sobre composição, propagação e pós-colheita nos últimos quinze anos. E há uma fronteira nova: o cultivo hidropônico. A Plataforma Hidroponia já documenta protocolos para produzir Pereskia aculeata em sistemas do tipo NFT, o que aumenta a produtividade e permite colheita urbana o ano todo. Quem se interessa por essa rota controlada pode estudar o funcionamento do sistema NFT de hidroponia, que é a base técnica para adaptar o ora-pro-nóbis ao cultivo sem solo.

    Fonte: Plataforma Hidroponia, cultivo de ora-pro-nóbis hidropônico

    Toxicidade, oxalatos e segurança alimentar

    Aqui está a parte que os concorrentes minimizam ou ignoram, e que este guia trata de frente: nem toda PANC é segura de qualquer jeito. A imensa maioria é perfeitamente comestível quando preparada corretamente, mas existem cuidados que não podem ser negligenciados, sob pena de intoxicação real.

    O caso mais importante é o da taioba. As folhas da Xanthosoma sagittifolium contêm ráfides de oxalato de cálcio, pequenos cristais em forma de agulha que causam ardência aguda na boca, na garganta e no estômago se consumidos crus. A regra é inegociável: cozinhe a taioba por no mínimo 10 minutos em água fervente antes de comer. O calor desmancha os cristais e a folha se torna macia e deliciosa, no estilo de um espinafre encorpado. Comer taioba crua não é uma questão de gosto, é uma lesão química evitável.

    O segundo cuidado envolve os oxalatos solúveis presentes em espécies como a beldroega e o próprio ora-pro-nóbis. Em quantidades normais e com cocção, não há problema para a população geral. Mas gestantes e pessoas com histórico de cálculos renais devem moderar o consumo, porque os oxalatos podem reduzir a absorção de cálcio e de ferro e favorecer a formação de pedras. A boa prática é sempre cozinhar as folhas, o que dissolve boa parte do oxalato solúvel, e variar as espécies no prato em vez de comer quilos da mesma folha todos os dias.

    O terceiro e talvez mais grave cuidado é a identificação botânica positiva. "Parece com" não basta, nunca. O exemplo clássico e perigoso é confundir a taioba comestível com o inhame-bravo ou a orelha-de-elefante, plantas dos gêneros Colocasia e Caladium, que são tóxicas. A folha da taioba verdadeira tem nervuras palmadas e formato de flecha, enquanto o Caladium costuma exibir manchas claras na lâmina. Na dúvida, não coma. Use guias sérios como o Kinupp e Lorenzi de 2014, as cartilhas da Embrapa e, se possível, consulte um herbário estadual. Dois erros adicionais fecham a lista de armadilhas: nunca colha PANC em lotes urbanos contaminados, beira de rodovia ou terrenos com resíduos de animais e agrotóxicos, por causa do risco de metais pesados; e não confie em flores comestíveis mal conservadas, já que a capuchinha, sem refrigeração a 5 graus, perde qualidade e segurança em menos de 48 horas.

    Fonte: Embrapa Hortaliças, cartilha PANC & Saúde

    Caso piloto do ora-pro-nóbis em detalhe: mercado, gastronomia e a cadeia em formação

    O retrato do mercado brasileiro de PANC é o de um gigante adormecido. O dado mais citável vem do estudo de Hunter e colaboradores, publicado na Scientific Reports em 2023, que mostrou que apenas 1,34% da população brasileira consome PANC, cogumelos ou caça de forma regular. O consumo se concentra nas regiões Norte e Nordeste, e cerca de 61% dos consumidores são mulheres. Um número tão baixo pode assustar, mas o leitor atento enxerga o oposto: se quase ninguém consome ainda, todo o crescimento está por vir.

    A ponta mais visível dessa cadeia é a alta gastronomia. O restaurante D.O.M., do chef Alex Atala, aberto em São Paulo em 1999, transformou ingredientes nativos e PANC como jambu, tucupi e priprioca em símbolos da cozinha brasileira moderna, conquistou duas estrelas Michelin e projetou o tema para o mundo. Quando um prato com folha de capuchinha e flor de jambu aparece em um restaurante premiado, ele abre caminho para que a mesma folha chegue à feira do bairro. Essa ponte entre a cozinha de autor e a agricultura familiar é um dos motores mais poderosos do mercado de PANC.

    No varejo real, a comercialização ainda é majoritariamente informal, sem cobertura de centrais de abastecimento como a CEAGESP. A folha fresca de ora-pro-nóbis, por exemplo, é vendida em feiras agroecológicas por algo entre R$ 8 e R$ 15 por 100 g, enquanto a farinha desidratada, voltada ao público fitness e vegano como suplemento proteico, alcança de R$ 50 a R$ 80 por quilo no comércio eletrônico. Some a isso o crescente mercado de mudas e sementes certificadas online e os kits de "horta de PANC em casa", e você tem um ecossistema comercial nascente, com espaço para produtores organizados. Eventos como o HortPANC, cuja edição de 2024 reuniu mais de 400 inscritos, 100 trabalhos e 26 expositores em São Lourenço do Sul, no Rio Grande do Sul, mostram que a organização setorial está amadurecendo, com a próxima edição prevista para julho de 2026 em Minas Gerais.

    Fonte: Hunter et al. (2023), Scientific Reports

    Marco regulatório: da ANVISA ao PNAE de 45%

    Para quem cultiva PANC em casa, a regulação passa despercebida. Para quem quer vender, processar ou fornecer para instituições, ela é o que separa o negócio formal do informal. Vale conhecer as quatro peças principais desse quebra-cabeça.

    Do lado sanitário, a RDC ANVISA nº 27/2010 trata da isenção de registro de alimentos. Na prática, PANC in natura geralmente não exigem registro sanitário, o que facilita a venda de folha fresca em feiras e para restaurantes. A situação muda quando a planta vira produto processado embalado, como farinha, conserva ou biscoito. Nesse caso, entra em cena a Resolução ANVISA nº 16/1999, que define o conceito de "novo alimento ou novo ingrediente" e exige que o fabricante comprove histórico de uso seguro quando demandado. A responsabilidade do enquadramento correto é sempre de quem produz o alimento embalado.

    Do lado da produção, a Instrução Normativa MAPA nº 46/2011, com seus complementos posteriores, estabelece o regulamento técnico para os sistemas orgânicos de produção vegetal. PANC podem ser certificadas como orgânicas se atenderem aos critérios gerais, por meio de OPACs, os organismos participativos de avaliação da conformidade, ou de certificadoras por auditoria. Atenção a um mal-entendido comum: PANC espontânea no quintal, sem agrotóxico, é agroecológica, mas não é automaticamente orgânica certificada. A certificação é um processo formal, não uma condição natural da planta.

    A peça mais estratégica para 2026, porém, é o PNAE, o Programa Nacional de Alimentação Escolar. A Lei 11.947/2009 já obrigava que no mínimo 30% dos recursos fossem aplicados em compras diretas da agricultura familiar. A Lei 14.660/2023 reforçou a prioridade para mulheres como titulares dos contratos. E a novidade decisiva é a Lei 15.226/2025, que elevou esse mínimo de 30% para 45% a partir de 1º de janeiro de 2026. Isso cria uma janela real para inserir PANC produzidas por cooperativas e agricultores familiares na merenda escolar, com prioridade legal para mulheres, assentamentos, comunidades indígenas e quilombolas. Já existem materiais didáticos, como o chamado PANCbook, orientando merendeiras e professores sobre como preparar essas espécies.

    Fonte: FNDE, Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)

    Pesquisa científica brasileira: quem está estudando PANC

    Uma das forças do tema PANC no Brasil é ter, por trás dele, uma rede sólida de pesquisa pública. Conhecer os nomes ajuda tanto o consumidor a confiar na informação quanto o estudante a saber onde buscar fonte primária.

    A Embrapa Hortaliças, em Brasília, coordenada por Nuno Rodrigo Madeira, mantém uma coleção viva com cerca de 50 espécies em programa ativo de recuperação genética e curadoria, incluindo ora-pro-nóbis, jambu, taioba, capuchinha, bertalha, vinagreira e peixinho. É também a instituição por trás do HortPANC. A Embrapa Meio-Norte, no Piauí, com a pesquisadora Karina Castro, se especializou nos bioativos do jambu, com destaque para o espilantol, que chegou a apresentar eficácia de 98,2% como repelente bovino em estudo de 2014. Em Minas Gerais, a parceria entre a EPAMIG Sudeste e a UFV, em Viçosa, é a maior produtora nacional de publicações sobre o ora-pro-nóbis.

    No Sul, a UFRGS, berço do conceito, mantém os Viveiros Comunitários coordenados pelo professor Paulo Brack, que fornecem mudas e sementes verificadas e catalogam dezenas de espécies. Na área de nutrição e educação alimentar, o programa Sustentarea da USP conecta PANC, saúde pública e o movimento Slow Food. Para quem está escrevendo um trabalho acadêmico sobre o assunto, essa rede de instituições é o ponto de partida ideal, e a literatura em periódicos como Rodriguésia e as revistas da SciELO oferece base científica sólida para citar.

    Fonte: Tuler, Peixoto e Silva (2019), Rodriguésia, SciELO

    Casos reais e ecossistema de apoio

    Banca de feira agroecológica com maços frescos de PANC e mãos de agricultor entregando folhas verdes
    Nas feiras agroecológicas, a folha fresca de PANC chega direto do produtor ao consumidor, ainda fora do circuito dos supermercados.

    Além dos centros de pesquisa, o movimento PANC no Brasil se sustenta em uma teia de iniciativas culturais, educativas e comerciais que vale a pena conhecer. O Slow Food Brasil, por meio do projeto Arca do Gosto, cataloga e protege PANC nativas em risco de desaparecimento cultural, como a bertalha-coração, funcionando como um selo de valor simbólico e de mercado. Os viveiros comunitários, especialmente os da UFRGS, são referência confiável para quem quer comprar muda com identificação botânica correta, evitando a confusão de comprar uma espécie achando que é outra.

    Na comunicação, o trabalho de divulgadoras como Neide Rigo, autora do blog Come-se desde 2006, foi fundamental para popularizar o tema fora da academia e mostrar, na prática da cozinha, como preparar cada folha. Some a isso os cursos livres, as feiras agroecológicas locais, os bancos comunitários de sementes e os festivais dedicados, e você tem um ambiente cada vez mais acolhedor para quem quer começar. O recado é que ninguém precisa começar sozinho: existe uma comunidade inteira, do pesquisador ao chef, disposta a compartilhar conhecimento.

    Fonte: Slow Food Brasil, Arca do Gosto, bertalha

    Tendências para 2026 a 2030

    O horizonte das PANC no Brasil aponta para vários movimentos convergentes. O primeiro e mais concreto é a já citada janela do PNAE com 45% para a agricultura familiar a partir de 2026, que funciona como demanda institucional garantida e pode puxar a produção organizada de espécies como taioba, ora-pro-nóbis e caruru para a merenda escolar. O segundo é a ascensão das farinhas proteicas, sobretudo de ora-pro-nóbis e moringa, voltadas à suplementação vegana e à fortificação de pães, bolos e massas, um nicho que cresce junto com a demanda por proteína vegetal.

    O terceiro movimento é o cultivo de PANC em sistemas hidropônicos e em ambiente controlado, com protocolos sendo publicados para espécies como ora-pro-nóbis, capuchinha e jambu, o que promete padronizar a oferta e reduzir perdas. O quarto é a valorização dos bioativos, com o espilantol do jambu na liderança, abrindo caminho para fitofármacos, repelentes naturais e produtos cosméticos. E, por baixo de tudo, corre a agenda da soberania alimentar e da adaptação às mudanças climáticas: PANC são, por natureza, cultivos resilientes, capazes de produzir alimento em cenários de seca e calor onde as culturas convencionais sofrem. É um argumento que conecta o quintal do consumidor às grandes agendas globais da FAO.

    Fonte: FAO, Future Smart Food, espécies negligenciadas e subutilizadas

    Perguntas frequentes

    O que são PANC?

    PANC é a sigla para Plantas Alimentícias Não Convencionais, espécies vegetais, ou partes não convencionais de espécies convencionais, com uma ou mais partes comestíveis que não fazem parte do consumo cotidiano da maioria da população. O termo foi cunhado pelo biólogo Valdely Ferreira Kinupp em sua tese de doutorado defendida em 2007 na UFRGS. Estima-se que existam mais de 10 mil espécies com potencial alimentício no Brasil, das quais 351 estão detalhadas no livro de referência de Kinupp e Lorenzi de 2014.

    PANC fazem mal ou são tóxicas?

    A maioria é segura quando preparada corretamente, mas há cuidados específicos. A taioba tem ráfides de oxalato de cálcio e deve ser cozida por no mínimo 10 minutos. Beldroega e ora-pro-nóbis contêm oxalato, então gestantes e pessoas com cálculos renais devem moderar o consumo. A identificação botânica positiva é obrigatória, porque parecer com a planta certa não basta. Use guias sérios como o Kinupp e Lorenzi de 2014 ou as cartilhas da Embrapa.

    Como cultivar ora-pro-nóbis em casa?

    Use um vaso de no mínimo 10 litros, em sol pleno ou meia-sombra com três a quatro horas de sol direto por dia, substrato de terra vegetal com húmus e rega de duas a três vezes por semana. A propagação é feita por estaca semilenhosa de 15 a 20 cm, enterrando o terço inferior. A primeira colheita generosa ocorre por volta de 60 a 90 dias. As folhas têm de 20% a 32% de proteína em matéria seca, segundo dados da Embrapa Hortaliças.

    PANC é orgânico automaticamente?

    Não. Para que uma PANC seja certificada como orgânica, ela precisa atender à Instrução Normativa 46/2011 do MAPA e seus complementos, com certificação por OPAC ou por auditoria. PANC espontânea em quintal sem agrotóxico é considerada agroecológica, mas não é automaticamente orgânica certificada. A certificação é um processo formal, e não uma característica natural da planta.

    Onde comprar mudas de PANC com identificação confiável?

    Boas fontes são os Viveiros Comunitários da UFRGS, feiras agroecológicas locais e bancos comunitários de sementes, além de viveiros especializados que informam a espécie corretamente. Evite quem vende "ora-pro-nóbis" sem indicar a espécie, porque a Pereskia aculeata é a referência mais macia e produtiva, enquanto a Pereskia grandifolia, também comestível, tem rendimento e textura diferentes.

    Posso vender pratos com PANC no meu restaurante?

    Sim. PANC in natura geralmente são isentas de registro sanitário pela RDC ANVISA 27/2010, o que facilita o uso da folha fresca. Para alimentos processados e embalados, como farinhas, conservas e biscoitos, aplica-se a Resolução ANVISA 16/1999, que exige comprovação de histórico de uso seguro quando demandada. A responsabilidade pelo enquadramento correto é sempre do fabricante do produto.

    PANC pode entrar na merenda escolar pelo PNAE?

    Sim. A Lei 11.947/2009 obriga compras diretas da agricultura familiar, e a Lei 15.226/2025 elevou esse mínimo de 30% para 45% a partir de 1º de janeiro de 2026. PANC compradas via cooperativas ou por meio da agricultura familiar, com prioridade legal para mulheres, assentamentos, comunidades indígenas e quilombolas, entram naturalmente nesse percentual. Já existem materiais didáticos, como o PANCbook, para orientar merendeiras.

    Qual a diferença entre bertalha verdadeira e bertalha-coração?

    Ambas são da família Basellaceae, mas de gêneros diferentes. A bertalha verdadeira, Basella alba, é uma trepadeira de origem asiática, com folhas suculentas grandes, que gosta de clima quente. A bertalha-coração, ou espinafre-gaúcho, Anredera cordifolia, é nativa do Sul e do Sudeste do Brasil, tem folhas em forma de coração e tubérculos aéreos comestíveis, e está no catálogo da Arca do Gosto do Slow Food por ser uma cultivar tradicional em risco cultural.

    Por que PANC quase não aparecem no supermercado?

    Por falta de uma cadeia produtiva estruturada, alta perecibilidade de algumas espécies, como a capuchinha, que exige refrigeração a 5 graus, volumes irregulares de oferta e demanda ainda concentrada em nichos como a gastronomia de autor e a agroecologia. A pesquisa de Hunter e colaboradores de 2023 mostra que apenas 1,34% da população brasileira consome PANC, cogumelos ou caça, o que confirma um mercado em formação, com grande potencial de crescimento.

    PANC podem ser cultivadas em sistemas hidropônicos?

    Sim. Espécies como ora-pro-nóbis, capuchinha, jambu e caruru já foram testadas em sistemas do tipo NFT e DFT. A Plataforma Hidroponia documenta protocolos para produzir Pereskia aculeata em hidroponia. A combinação aumenta a produtividade, reduz perdas pós-colheita e viabiliza o cultivo urbano controlado o ano todo, sendo uma das fronteiras mais promissoras do tema.

    PANC têm propriedades medicinais comprovadas?

    Há evidências preliminares na literatura científica. O caruru, do gênero Amaranthus, tem ações documentadas como hepatoprotetora e antimicrobiana. O jambu, Acmella oleracea, tem espilantol com efeito anestésico e anti-inflamatório. O ora-pro-nóbis é valorizado por suas fibras e por sua proteína de alta digestibilidade. É importante deixar claro, porém, que PANC são alimentos funcionais, e não medicamentos, e não substituem tratamento médico.

    Quanto custa começar uma horta de PANC em casa?

    Um investimento inicial de cerca de R$ 150 a R$ 300 cobre de quatro a seis espécies em vasos, incluindo substrato, cinco vasos de 10 litros, mudas ou sementes verificadas e adubo orgânico. Espécies rústicas como beldroega, caruru e ora-pro-nóbis começam a produzir em 30 a 90 dias, com manutenção mínima. Não existe ainda um levantamento oficial de custo nacional consolidado, então esses valores servem como referência prática de partida.

    Próximos passos no cultivee

    Comece pequeno e deixe as PANC provarem o próprio valor. Escolha duas ou três espécies rústicas, como ora-pro-nóbis por estaca, beldroega e caruru por semente, e monte um canteiro simples seguindo o passo a passo geral deste guia. Em poucas semanas você terá folha proteica e nutritiva colhida em casa, sem agrotóxico e a um custo baixíssimo. À medida que ganhar confiança, avance para as flores comestíveis da capuchinha, o efeito buzz do jambu e, quem sabe, um experimento de ora-pro-nóbis em hidroponia. Se o seu interesse for comercial, use a janela do PNAE de 2026 e o crescente mercado de mudas e farinhas como bússola. E continue explorando o ecossistema de cultivo do cultivee, do o que é hidroponia aos microverdes em casa, para transformar o seu quintal ou a sua varanda em uma fonte contínua de comida de verdade.

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