Não existe um calendário de plantio único para o Brasil. Existe uma matriz que cruza temperatura, fotoperíodo e regime de chuvas com o ciclo de cada planta, e essa matriz muda completamente entre Manaus, Curitiba e Petrolina. Plantar alface em janeiro em Goiânia e em Caxias do Sul são duas decisões agronômicas diferentes, ainda que o mês seja o mesmo. Este guia entrega o calendário mês a mês para as cinco macrorregiões, mas faz algo que a maioria dos guias não faz: explica por que cada janela existe, para você conseguir adaptar a recomendação ao seu quintal, à sua varanda e ao seu microclima.
A lógica é simples de enunciar e poderosa de aplicar. Toda hortaliça tem uma faixa de temperatura em que produz bem, e uma temperatura limite a partir da qual ela troca o crescimento vegetativo pela reprodução, ou seja, floresce antes da hora e perde valor. O calendário nada mais é do que o mapa de quando a sua região oferece a faixa que a planta quer. Quatro números ajudam a enquadrar o tema antes de começarmos.
| Fato-chave | Valor |
|---|---|
| PIB olerícola brasileiro | mais de R$ 26,3 bilhões |
| Participação da agricultura familiar na produção de hortaliças | 62% |
| Temperatura média que dispara o pendoamento da alface | acima de 25 °C |
| Território com risco climático alto para alface em campo aberto até 2100 | 79,6% |
Por que o calendário muda de Manaus a Curitiba
O Brasil não tem um clima, tem vários. Um país que vai do equador ao paralelo 33 sul abriga desde o clima equatorial úmido da Amazônia, quente e chuvoso o ano inteiro, até o subtropical do Sul, com quatro estações marcadas e geadas no inverno. No meio disso estão o cerrado do Centro-Oeste, com sua estação seca rigorosa entre maio e setembro, o semiárido nordestino, onde a chuva é o fator limitante, e o litoral nordestino, quente o ano todo e com o período chuvoso invertido em relação ao Sudeste.

Essa diversidade tem uma consequência prática direta. Quando um guia genérico diz "plante alface em janeiro", ele está, sem perceber, falando para uma fração pequena do país. Em Curitiba, janeiro é um verão ameno em que a alface ainda se defende. Em Cuiabá, janeiro é calor e chuva torrencial, e a mesma alface vai pendoar em poucas semanas. Em Petrolina, no semiárido, janeiro é calor seco, e sem irrigação nada acontece. A recomendação correta não é um mês, é uma combinação de mês e lugar.
A distribuição da produção reflete isso. O Sudeste responde por cerca de 40,87% da produção nacional de hortifruti, segundo levantamento da CNA com base em dados do IBGE, não porque o clima paulista ou mineiro seja mágico, mas porque combina altitude, estações definidas e proximidade dos grandes centros consumidores. Cada região resolve o calendário do seu jeito, e quem cultiva em casa se beneficia enormemente de entender qual é o seu.
Os três fatores que governam o calendário
Antes de decorar meses, vale entender as três variáveis que decidem tudo. A própria Embrapa resume a questão de forma direta.
"Três fatores climáticos são muito importantes para a produção de hortaliças: a temperatura, a umidade e a luminosidade, que influenciam no ciclo, qualidade e produtividade." Fonte: Embrapa, O cultivo de hortaliças
O primeiro fator é a temperatura, e é o mais decisivo. A maioria das hortaliças tem desempenho ótimo com média entre 18 °C e 22 °C. Acima ou abaixo dessa faixa, cada grupo reage de um jeito. O caso mais estudado é o da alface, que entra em pendoamento, o florescimento precoce, quando a média diária passa de 25 °C. O caule se alonga, o número de folhas cai, e a planta passa a produzir mais látex, o que deixa as folhas amargas. O nome técnico é bolting, e é a razão pela qual a sua alface de verão nunca fica tão boa quanto a de maio. Nas solanáceas, o efeito é o oposto: a pimenta praticamente não germina com o solo abaixo de 10 °C, e prefere entre 25 °C e 30 °C.
O segundo fator é o fotoperíodo, a duração do dia. Ele importa muito mais do que as pessoas imaginam, e é o fator que mais causa frustração silenciosa. A cebola é o exemplo clássico: ela só forma bulbo quando recebe o comprimento de dia adequado à sua cultivar. Existem cultivares de dia curto, de dia médio e de dia longo, e plantar a errada na sua latitude produz uma planta bonita, cheia de folhas, e nenhum bulbo. Nada errado com o solo, com a adubação ou com a rega. Errado foi o casamento entre a cultivar e a latitude.
O terceiro fator é o regime de chuvas. Ele não age tanto sobre o crescimento quanto sobre a sanidade. Chuva intensa em cima de folhagem molhada é convite para fungos. É por isso que plantar tomate no pico chuvoso do verão do Sudeste costuma terminar em requeima, causada pelo fungo Phytophthora infestans, que se espalha justamente em folha úmida e temperatura amena. O calendário, nesse ponto, não está protegendo a planta do frio nem do calor, está protegendo do patógeno.
Hortaliças por exigência climática
Com esses três fatores em mente, o calendário deixa de ser lista e vira classificação. A tabela abaixo é o esqueleto de tudo o que vem depois: ela explica por que uma hortaliça vai para janeiro e a outra vai para julho.
| Grupo | Temperatura ideal | Exemplos | No verão brasileiro | No inverno brasileiro |
|---|---|---|---|---|
| Folhosas de clima ameno | 12 a 22 °C | Alface, rúcula, agrião, espinafre, almeirão | Pendoam acima de 25 °C, folhas amargas | Auge de produção no Sul e Sudeste |
| Folhosas tolerantes ao calor | 18 a 28 °C | Couve, mostarda, taioba, ora-pro-nóbis | Vão bem em todo o país com irrigação | Ótimas, risco de geada no Sul |
| Brássicas de cabeça | 15 a 20 °C | Repolho, brócolis, couve-flor | Não formam cabeça, abrem cedo | Ideais no outono e inverno |
| Bulbosas | 13 a 24 °C | Cebola, alho, alho-poró | Dependem do fotoperíodo correto | Plantio de abril a julho no Sudeste |
| Raízes | 10 a 25 °C | Cenoura, beterraba, rabanete, nabo | Cenoura e beterraba sofrem, rabanete tolera | Janela ideal no outono e inverno |
| Frutos de clima quente (solanáceas) | 21 a 30 °C | Tomate, pimentão, berinjela, jiló, pimenta | Estação principal | A geada destrói, só protegido |
| Frutos de clima quente (cucurbitáceas) | 22 a 30 °C | Pepino, abóbora, abobrinha, melancia, maxixe | Estação principal, de setembro a fevereiro | Não toleram frio |
| Leguminosas | 18 a 24 °C | Ervilha (frio), feijão-vagem (calor) | Ervilha sofre, vagem vai bem | Ervilha ideal de abril a julho |
| Ervas aromáticas | varia | Manjericão, salsa, cebolinha, coentro, alecrim | Manjericão adora, coentro pendoa | Salsa e cebolinha o ano todo |
Repare no padrão. As folhosas delicadas e as brássicas querem frio, então pertencem ao outono e ao inverno do centro-sul. Os frutos, tomate, pimentão, pepino e abóbora, querem calor e dias longos, então pertencem à primavera e ao verão. As raízes ficam no meio, e as ervas se dividem: o manjericão é uma planta de calor, enquanto o coentro pendoa acima de 25 °C e prefere os meses amenos. Já a cebolinha e a couve atravessam o ano inteiro sem drama, o que faz delas as melhores escolhas para quem está começando e não quer errar a janela.
O calendário mês a mês: de janeiro a junho

Janeiro e fevereiro. É o coração do verão, com calor e chuva. No Sudeste, Centro-Oeste e Sul, esta é a estação dos frutos: tomate, pimentão, berinjela, jiló, quiabo, abóbora, abobrinha, melancia, pepino e milho-doce. Folhosas só com cultivar termotolerante ou sob tela de sombreamento de 30% a 50%. No Nordeste litorâneo e no Norte, a chuva intensa aumenta a pressão de fungos, então a prioridade é drenagem, espaçamento maior e evitar molhar a folhagem. Quem insiste em alface nesses meses tem duas saídas honestas: escolher cultivares desenvolvidas para calor, como a BRS Leila e a BRS Mediterrânea, que a Embrapa lançou justamente para suportar até dez dias a mais de calor antes de pendoar, ou mudar de ambiente e ir para o cultivo protegido.
Março, abril e maio. É a janela de ouro do horticultor brasileiro, e o melhor momento para quem está começando uma horta. As temperaturas caem, as chuvas diminuem no centro-sul e as folhosas voltam a produzir com qualidade. Plante alface, rúcula, espinafre, agrião, almeirão e chicória. É também a hora das brássicas, brócolis, couve-flor e repolho, que precisam de frio para formar cabeça, e das raízes, cenoura, beterraba, nabo e rabanete. A cebola e o alho entram no calendário conforme o estado, e a ervilha, que odeia calor, encontra aqui a sua estação. Se você nunca plantou nada, comece em março ou abril com folhosas de ciclo curto: em 30 a 45 dias você colhe, e a recompensa rápida é o que mantém a horta viva.
Junho. O inverno começa no centro-sul, com seca e risco de geada no Sul. As folhosas atingem o auge de qualidade, porque o frio deixa as folhas mais crocantes e adia o pendoamento. É plena estação de brócolis, couve-flor, repolho, cenoura, beterraba e ervilha. No Nordeste semiárido, este é o período mais seco, e a irrigação deixa de ser opcional. No Norte, as chuvas recuam e abre-se uma boa janela para várias culturas. Nas regiões de geada, proteja as plantas sensíveis com cobertura, e lembre que o manjericão simplesmente não sobrevive a uma noite de geada a céu aberto.
O calendário mês a mês: de julho a dezembro
Julho e agosto. O inverno seco continua no centro-sul e as folhosas seguem produzindo muito bem. É a melhor época do ano para a alface em campo aberto na maior parte do Brasil povoado. As brássicas fecham o ciclo, e a cebola e o alho seguem no calendário do Sudeste. Em agosto começa a virada: no Sudeste e no Centro-Oeste, é o momento de semear as mudas de tomate e pimentão que vão para o canteiro em setembro e produzir no verão. Quem planeja a horta com antecedência semeia em bandeja em agosto e ganha um mês inteiro de vantagem.
Setembro, outubro e novembro. A primavera é a janela de retomada. As chuvas voltam ao Centro-Oeste e ao Sudeste, as temperaturas sobem e os frutos de clima quente entram em cena. É a hora de transplantar tomate, pimentão, pepino, abóbora, abobrinha, melancia e quiabo. As folhosas começam a sofrer com o aquecimento progressivo, e é sensato migrar as últimas alfaces para os cantos mais sombreados do quintal. A batata das águas e a cebola entram no calendário de várias regiões. Para quem cultiva morango, a janela de setembro a novembro combina temperatura amena com dias mais longos e é excelente para as cultivares de dia neutro.
Dezembro. O verão recomeça e o ciclo se fecha. Os frutos plantados na primavera entram em produção, o calor volta a expulsar as folhosas do canteiro, e o horticultor atento já está pensando no outono seguinte. Este é um bom mês para plantar as culturas que atravessam o verão sem reclamar: couve, mostarda, quiabo, batata-doce, mandioca e as PANC, que costumam ser mais rústicas do que as hortaliças convencionais e que detalhamos no nosso guia completo de plantas alimentícias não convencionais.
O calendário oficial da Embrapa e o app ZARC
Existe calendário oficial, e ele é público e gratuito. A Embrapa Hortaliças publica a Tabela de Informações Gerais sobre Plantio de Hortaliças, que traz a época de plantio por região, o espaçamento, o tipo de plantio e os dias até a colheita. A tabela abaixo reproduz um recorte dela para as culturas mais comuns em horta doméstica.
| Cultura | Sul | Sudeste | Centro-Oeste | Nordeste | Norte |
|---|---|---|---|---|---|
| Alface | set a abr | fev a out | abr a ago | mai a ago | jun a ago |
| Couve | ano todo | ano todo | ano todo | ano todo | ano todo |
| Cenoura | ago a mar | fev a abr e set a nov | mar a jul | abr a jul | abr a jul |
| Tomate | ago a jan | jul a set e mar a abr | abr a jul | mar a jul | mar a jul |
| Pimentão | set a jan | ago a out | ago a set | mar a jul | ano todo |
| Cebola | mai a ago | abr a jul | mar a mai | mar a mai | não tradicional |
| Brócolis | jan a mai | jan a mai | fev a mai | mar a jun | mar a jun |
| Pepino | ago a dez | ago a dez | ago a dez | ano todo | ano todo |
| Abóbora | set a dez | set a dez | set a dez | ano todo | ano todo |
Há ainda uma ferramenta mais poderosa e pouco conhecida do público urbano. O ZARC, sigla de Zoneamento Agrícola de Risco Climático, é um programa do MAPA em parceria com a Embrapa que responde exatamente o que, onde e quando plantar, com base em probabilidade climática histórica. Ele é obrigatório para o crédito do Proagro desde 1998 e para o seguro rural desde 2006, e as hortaliças vêm sendo incorporadas ao zoneamento desde 2024. O aplicativo ZARC Plantio Certo, gratuito para Android e iOS, entrega a janela de menor risco climático para o seu município. É a forma mais rápida de sair do calendário genérico e chegar ao calendário do seu endereço.
Vale um alerta sobre o futuro. O calendário tradicional está sob pressão, e não é retórica.
"Em cenário de aquecimento moderado, 79,6% do território brasileiro passará a ter risco climático alto e 17,4% risco muito alto para o cultivo de alface em campo aberto até o fim do século." Fonte: Embrapa, via Agência Brasil (2025)
Isso não significa que a alface vai desaparecer. Significa que a resposta vai migrar para dois caminhos: cultivares mais tolerantes ao calor e ambiente protegido. Os dois já existem hoje.
Calendário lunar: tradição e evidência
Nenhum artigo honesto sobre calendário de plantio pode ignorar a lua, e nenhum artigo honesto pode fingir que a questão está resolvida. A tradição, transmitida por gerações de agricultores brasileiros, associa a lua crescente à semeadura de folhas, a lua cheia aos frutos e à colheita de aromáticas, a lua minguante às raízes, ao transplante e à poda, e a lua nova ao preparo do solo e ao descanso.
O que a ciência controlada encontrou é menos empolgante. Ensaios randomizados conduzidos no Brasil, incluindo o trabalho clássico do professor Salim Simão, na ESALQ-USP, e as revisões que se seguiram, não identificaram correlação significativa entre as fases lunares e a produtividade ou o desenvolvimento das hortaliças. Ao mesmo tempo, correntes como a agricultura biodinâmica sustentam a validade empírica do calendário lunar dentro de sistemas integrados de manejo.
A posição sensata é esta: se o calendário lunar faz parte da sua tradição familiar e organiza o seu trabalho, siga usando, ele não faz mal. Mas não deixe que ele ocupe o lugar do que realmente decide o resultado. Temperatura, fotoperíodo, água e nutrição têm um efeito sobre a planta que é ordens de grandeza maior do que qualquer influência lunar já medida. Uma alface plantada na lua "certa" em janeiro em Goiânia vai pendoar do mesmo jeito.
Como a hidroponia anula a sazonalidade
Existe uma maneira de sair do calendário: parar de depender dele. Quando você controla temperatura, luz e nutrição, a estação do ano deixa de mandar. É exatamente isso que fazem o cultivo protegido e a hidroponia em ambiente controlado.

Em um sistema NFT bem dimensionado dentro de uma estufa, a alface produz o ano inteiro, ciclo após ciclo, sem pendoar em janeiro. É o princípio por trás das fazendas verticais brasileiras, como a Pink Farms e a Be Green, que entregam folhosas em volume constante independentemente do mês. Se você quer entender a técnica antes de investir, comece pelo nosso guia sobre o que é hidroponia e depois avance para o sistema NFT e como dimensioná-lo.
É preciso, porém, calibrar a expectativa. Uma hidroponia amadora numa varanda sem controle de clima não anula o calendário. Em dias muito quentes, a temperatura da solução nutritiva sobe, o oxigênio dissolvido cai e a alface pendoa exatamente como pendoaria no canteiro. O que anula a sazonalidade não é o sistema sem solo, é o ambiente controlado. O sistema sem solo apenas facilita o controle.
Há ainda um atalho elegante para quem quer colher o ano todo sem estufa: encurtar tanto o ciclo que a estação não tem tempo de atrapalhar. É o caso dos microverdes, colhidos entre 7 e 21 dias, e da horta de temperos, em que couve, cebolinha e salsa produzem em qualquer mês. E para quem cultiva em varanda, todo o raciocínio de luz, vaso e substrato está reunido no nosso guia definitivo de horta em apartamento.
Como montar o seu calendário regional
Copiar calendário pronto resolve 80% dos casos. Montar o seu resolve os outros 20%, que são justamente os que dão errado. O procedimento tem quatro passos e não exige nada além de curiosidade.
- Levante a temperatura média mensal do seu município. As normais climatológicas do INMET dão isso de graça. Você quer saber quais meses ficam na faixa de 18 °C a 22 °C, quais passam de 25 °C e quais caem abaixo de 15 °C.
- Cruze com a exigência da cultura. Use a tabela de grupos climáticos deste artigo. Se a média do mês está acima do limite da planta, aquele mês está fora, por mais que um blog diga o contrário.
- Confira o regime de chuvas. Pico de chuva combinado com solanáceas é pedido de requeima. Prefira transplantar tomate quando o volume de chuva já estiver caindo.
- Valide no ZARC Plantio Certo. O app entrega a janela de menor risco para o seu município. Se a sua conclusão bater com a do ZARC, você acertou.
Quem quiser ir além pode trabalhar com graus-dia acumulados, a soma térmica que a planta precisa para completar o ciclo. Como referência prática, a alface fecha o ciclo em torno de 600 graus-dia e o tomate perto de 1.200. Conhecendo a soma térmica média dos seus meses, você estima a data de colheita antes mesmo de semear. E se a ideia é automatizar a leitura do microclima, com temperatura, umidade e umidade de solo alimentando as suas decisões, o caminho está no nosso guia de sensores para a horta.
Erros mais comuns com o calendário
O primeiro erro é generalizar o Brasil. Manaus e Curitiba não compartilham calendário, e tratar o país como um bloco único é a origem da maioria das frustrações.
O segundo é ignorar o fotoperíodo da cebola. Plantar uma cultivar de dia longo em baixa latitude produz folha e nenhum bulbo. O problema não é o solo, é a genética contra a latitude.
O terceiro é plantar tomate junto com folhosa no pico chuvoso do verão. A chuva intensa dissemina a requeima, e o canteiro encharcado prejudica as duas culturas ao mesmo tempo.
O quarto é achar que estufa anula o calendário automaticamente. Estufa sem controle térmico reduz o risco de chuva e de granizo, mas pode até piorar o calor. Anular a sazonalidade exige controle de ambiente, não apenas um teto.
O quinto é confiar apenas na lua, e já tratamos disso. O sexto, mais sutil, é não olhar o mercado. Vale lembrar que a horta doméstica também dialoga com a sazonalidade de preços: em 2025, segundo o CEPEA/Esalq, o volume de hortaliças cresceu 5,7% enquanto o preço médio caiu 19% em relação a 2024. Colher o que está caro no mercado é uma satisfação a mais, e é planejável.
Perguntas frequentes
O que plantar em janeiro no Brasil?
Em janeiro, que é verão com calor e chuva, prefira espécies que toleram calor: tomate, pimentão, berinjela, jiló, abóbora, abobrinha, melancia, melão, pepino, maxixe, quiabo e milho-doce. Para folhosas, use cultivares termotolerantes, como a BRS Leila ou a BRS Mediterrânea da Embrapa, ou cultive sob tela de sombreamento.
Posso plantar alface o ano todo?
Tecnicamente sim, mas com condicionantes. Em campo aberto, as alfaces tradicionais pendoam quando a temperatura média passa de 25 °C, o que ocorre em quase todo o Brasil entre dezembro e fevereiro. As saídas são usar cultivares termotolerantes da Embrapa, cultivar sob tela de 30% a 50% de sombreamento, ou adotar hidroponia em ambiente protegido.
Qual a melhor época para plantar tomate?
Depende da região. No Sudeste e no Centro-Oeste, a janela principal vai de agosto a outubro, com colheita no verão, e há uma segunda janela entre fevereiro e abril. No Sul, de agosto a janeiro. No Nordeste e no Norte, praticamente o ano todo, com atenção redobrada no pico chuvoso por causa da requeima.
Calendário lunar funciona?
A tradição associa a lua crescente às folhas, a cheia aos frutos, a minguante às raízes e a nova ao preparo do solo. A ciência controlada, incluindo o trabalho de Salim Simão na ESALQ-USP, não encontrou correlação significativa entre fases lunares e produtividade em ensaios randomizados. Use como guia auxiliar se faz parte da sua tradição, mas priorize temperatura, fotoperíodo, água e nutrientes.
O que muda no calendário entre o Sul e o Nordeste?
Muita coisa. O Sul tem quatro estações marcadas e geada no inverno, então folhosas e brássicas vão para o outono e o inverno, e os frutos de calor ficam restritos à primavera e ao verão. O Nordeste tem temperatura alta o ano todo, com chuvas concentradas em períodos distintos conforme a sub-região, então os frutos de calor produzem quase o ano inteiro e as folhosas exigem cultivar termotolerante ou irrigação.
Como o ZARC ajuda no meu calendário?
O ZARC Plantio Certo, aplicativo gratuito da Embrapa em parceria com o MAPA, indica a janela de menor risco climático para cada cultura no seu município, com base em probabilidades históricas. Ele é obrigatório para o crédito do Proagro e para o seguro rural, e as hortaliças vêm sendo incluídas progressivamente desde 2024.
A hidroponia elimina o calendário de plantio?
Em ambiente protegido com controle de temperatura, luz e nutrição, sim: você produz alface ou manjericão o ano todo, ciclo após ciclo. Mas em uma hidroponia amadora de varanda, sem controle climático, o calendário ainda importa, porque dias muito quentes elevam a temperatura da solução nutritiva e provocam pendoamento da mesma forma.
Quais hortaliças posso plantar o ano inteiro em qualquer região?
Couve, mostarda, taioba, salsa, cebolinha, manjericão e várias PANC, como ora-pro-nóbis e bertalha, toleram grande amplitude térmica e produzem o ano todo com irrigação adequada. A exceção fica por conta das geadas do Sul para as espécies mais sensíveis, entre elas o próprio manjericão.
Quando começar uma horta nova em casa?
Para iniciantes, a janela mais segura no Sudeste e no Centro-Oeste vai de fevereiro a abril, no outono, quando as temperaturas amenas favorecem as folhosas de ciclo curto, que dão colheita em 30 a 45 dias. No Sul, prefira março e abril. No Nordeste, de abril a julho, que é o período mais fresco.
Por que o tomate fica caro em certos meses?
Porque o consumo é constante o ano todo, mas a oferta se concentra na primavera e no verão do centro-sul. Entre maio e agosto, sobretudo em anos frios ou muito chuvosos, a oferta cai e os preços médios sobem nas centrais de abastecimento. Plantar nas janelas opostas ao pico de oferta, com cultivar adequada e proteção contra a requeima, costuma render melhores preços.
O que é pendoamento precoce, ou bolting?
É o florescimento prematuro de uma hortaliça antes do ponto de colheita, induzido por temperatura alta e por dias longos. Na alface, ocorre acima de 25 °C: o caule se alonga, o número de folhas diminui e a planta produz mais látex, o que amarga as folhas. As soluções são cultivar termotolerante, sombreamento e plantio na época correta.
Existe um calendário oficial da Embrapa?
Sim. A Embrapa Hortaliças publica a Tabela de Informações Gerais sobre Plantio de Hortaliças, com época por região, espaçamento, tipo de plantio e dias até a colheita. Complementarmente, o Catálogo Brasileiro de Hortaliças detalha as 50 espécies mais comercializadas no país, e o app ZARC Plantio Certo personaliza a janela por município.