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    Pragas e Doenças em Hidroponia: Manejo Integrado [2026]

    Pragas e doenças em hidroponia não somem sem solo: veja o inventário real, o monitoramento e a hierarquia de táticas do manejo integrado no cultivo protegido.

    Raiz de alface com podridão escura por Pythium ao lado de raiz branca sadia em hidroponia NFT
    A raiz escurecida pelo Pythium ao lado da raiz sadia: o dano que a solução recirculante espalha.
    Agro19 min de leitura

    Em uma estufa de 2.600 metros quadrados em Guaraciaba do Norte, no Ceará, um produtor colheu 22.293,8 kg de tomate com apenas 0,93% dos frutos apresentando dano de praga, um caso documentado pela revista Campo & Negócios. Esse número resume a tese deste guia: em ambiente protegido e hidropônico, o controle fitossanitário deixa de ser sorte e vira um sistema deliberado de decisões.

    A ideia de que uma estufa fechada e um cultivo sem solo estão livres de praga é o erro mais caro de quem começa. O ambiente fechado não elimina o patógeno, ele muda as regras: amplifica focos, encurta o ciclo das pragas e remove os inimigos naturais que existiriam a céu aberto. Este é o artigo-pilar de fitossanidade da Cultivee. Ele cobre por que a água substitui o solo como via de contaminação, o inventário real de pragas e doenças em hortaliças brasileiras, como montar o monitoramento, a hierarquia de táticas do manejo integrado, o controle biológico com agentes registrados no AGROFIT e a biossegurança do sistema. O que é clima, umidade, VPD e infraestrutura de estufa está aprofundado no nosso guia de agricultura em ambiente controlado; aqui o foco é a sanidade.

    Por que tirar o solo não elimina as pragas e doenças

    Pragas e doenças em hidroponia são os insetos, ácaros, fungos, oomicetos, bactérias e vírus que colonizam a planta e a solução nutritiva mesmo sem solo, porque o inóculo chega por outras portas: a muda contaminada, a água de reposição, o ar que entra pelas aberturas e as mãos e ferramentas do próprio manejo. Retirar o solo elimina um reservatório importante de doença, os nematoides e os fungos que sobrevivem por anos em restos de cultura, mas não fecha essas outras portas. Se você está chegando agora ao cultivo sem solo, vale primeiro o nosso guia definitivo de hidroponia.

    Raiz de alface com podridão escura por Pythium ao lado de raiz branca sadia em hidroponia NFT
    A raiz escurecida pelo Pythium ao lado da raiz sadia: o dano que a solução recirculante espalha.

    O caso emblemático dessa falsa segurança é o Pythium. Em um sistema NFT recirculante, a solução nutritiva que banha a raiz é também uma autoestrada líquida: quando o Pythium aparece em uma planta, o filme nutritivo o carrega para toda a bancada em poucas horas. O Pythium aphanidermatum é um oomiceto de raiz que, segundo a Embrapa Hortaliças no Comunicado Técnico 107, prospera quando a temperatura da solução ultrapassa 27°C e o oxigênio dissolvido despenca, condição comum em verões brasileiros mal climatizados. Controlar essa temperatura é, portanto, controle biológico passivo: manter a solução abaixo de 24°C reduz a agressividade do patógeno antes de qualquer produto. Como fazer isso sem desequilibrar a nutrição está no guia da solução nutritiva, e o desenho da bancada recirculante, no guia do sistema NFT.

    O ambiente fechado agrava o quadro por três motivos. Primeiro, a temperatura e a umidade estáveis favorecem ciclos ininterruptos de reprodução, sem o inverno que segura populações no campo. Segundo, não há chuva nem vento para lavar folhas ou dispersar colônias. Terceiro, os inimigos naturais que regulam as pragas a céu aberto não entram sozinhos por uma tela. É por isso que, no cultivo protegido, o manejo integrado deixa de ser uma escolha econômica e vira necessidade técnica. A física do ambiente, ventilação, VPD e climatização, está detalhada no nosso guia de ambiente controlado; aqui a pergunta prática é o que fazer com o bicho e o fungo que, apesar de tudo, conseguem entrar.

    O inventário de doenças de raiz: Pythium, Fusarium e companhia

    As doenças de raiz são as mais perigosas do cultivo sem solo porque agem escondidas: quando a parte aérea murcha, a contaminação já tomou o sistema. Além do Pythium, três patógenos radiculares merecem vigilância na hidroponia brasileira, cada um com sua janela de temperatura e sua porta de entrada.

    PatógenoCultura mais afetadaCondição que favoreceControle preventivo no Brasil
    Pythium aphanidermatum (oomiceto)Alface NFT, espinafre, pepinoSolução acima de 27°C, baixo oxigênio, recirculaçãoTemperatura abaixo de 24°C, UV-C ou ozônio, Trichoderma e Clonostachys rosea
    Fusarium oxysporum f.sp. lactucae raça 1Alface (SP e ES desde 2007)Substrato contaminado, 24 a 28°CCultivares resistentes, mudas sadias, Trichoderma
    Fusarium oxysporum f.sp. lycopersici raça 3Tomate (GO, MG, BA e Nordeste)Substrato, 24 a 28°CCultivares resistentes, enxertia
    Rhizoctonia solaniFolhosas e solanáceasUmidade alta, 20 a 30°CHigiene, substrato limpo, Trichoderma
    Thielaviopsis basicolaAlface NFTSolução de 16 a 24°CHigienização e UV-C da solução

    Fonte: Embrapa Hortaliças, Comunicado Técnico 107

    A fusariose vascular da alface é o exemplo mais preocupante de patógeno que chegou para ficar. O Fusarium oxysporum f.sp. lactucae está no Brasil desde 2007, avançou por São Paulo e Espírito Santo e provoca murcha vascular com perdas que chegam a 70%, segundo a Embrapa Hortaliças; um estudo de Carvalho et al. (2018) mapeou o parentesco entre os isolados brasileiros e os mundiais, mostrando que o problema é global. Contra ele, químico não resolve: a defesa real é cultivar resistente somada a mudas sadias. Para o produtor de folhosas, isso reforça a importância de dominar o ciclo da cultura, tema do nosso guia completo de alface hidropônica.

    A boa notícia é que o controle biológico de raiz tem números brasileiros sólidos. Três aplicações de Clonostachys rosea reduziram a podridão radicular por P. aphanidermatum em 42,8% em alface NFT, segundo Corrêa, Bettiol e Morandi (2010), na revista Tropical Plant Pathology. O prejuízo que se evita é grande: em trabalho do mesmo grupo, publicado na Summa Phytopathologica, o Pythium chega a custar até 20% da massa fresca da alface. A lição operacional é simples: Trichoderma e Clonostachys são preventivos, aplicados na solução desde o transplante, e não remédio para depois que a raiz apodreceu.

    Fonte: Corrêa, Bettiol e Morandi (2010), Tropical Plant Pathology

    As pragas aéreas: mosca-branca, tripes, pulgão e ácaro

    Se as doenças de raiz vêm pela água, as pragas aéreas vêm pelo ar, e são elas que a maioria dos produtores encontra primeiro. Em ambiente fechado, quatro grupos concentram o prejuízo, e a boa notícia é que todos têm inimigo natural disponível no mercado brasileiro.

    Colônia de mosca-branca no verso de uma folha de tomate, uma das principais pragas em hidroponia
    A mosca-branca se instala na face inferior das folhas, longe do olhar rápido do produtor.
    PragaCulturaDanoAgente biológico disponível no Brasil
    Mosca-branca (Bemisia tabaci MEAM1 e MED)Tomate, pimentão, pepino, folhosasSucção e transmissão de begomovírusEncarsia formosa, Eretmocerus mundus, Lecanicillium muscarium
    Tripes (Frankliniella occidentalis)Folhosas, tomate, pimentãoRaspagem e transmissão de tospovírusOrius insidiosus
    Pulgão (Myzus persicae, Aphis gossypii)Folhosas, solanáceas, cucurbitáceasSucção, fumagina e virosesAphidius colemani
    Ácaro-rajado (Tetranychus urticae)Morango, tomate, alfaceBronzeamento foliar, perda de até 80%Phytoseiulus persimilis, Neoseiulus californicus
    Lagartas (Spodoptera, Trichoplusia ni)Folhosas e crucíferasDesfolhaBacillus thuringiensis, baculovírus
    Minador (Liriomyza spp.)Tomate, folhosas, melãoGalerias nas folhasDiglyphus spp.

    A mosca-branca é a praga que mais assusta em estufa, e por bom motivo: além de sugar a seiva, ela transmite os begomovírus que arruínam o tomate. Aqui entra um detalhe que muda o protocolo. A espécie Bemisia tabaci tem dois biótipos relevantes no país, e saber qual você tem importa: segundo Fernandes et al. (2022), na Brazilian Journal of Biology, o biótipo MEAM1 ainda domina o campo aberto, enquanto o MED, mais resistente a piretroides e neonicotinoides, apareceu em estufas do Rio Grande do Sul em 2014 e está justamente restrito ao ambiente protegido. Ou seja, o leitor hidropônico é o mais exposto ao biótipo difícil, o que torna o programa biológico obrigatório desde o dia um. O controle da mosca-branca no tomate é tão central que vale ler também o nosso guia do tomate hidropônico.

    O tripes ocupa o segundo lugar em periculosidade porque transmite os tospovírus do vira-cabeça, e seu principal predador comercial é excelente. Em um estudo de 2025 publicado no Journal of Pest Science, o percevejo Orius insidiosus reduziu populações de tripes em até 96% em pepino cultivado em ambiente controlado. O ácaro-rajado, por sua vez, é o pesadelo do morango e das folhosas, com perdas que chegam a 80% segundo a Embrapa, e responde bem aos ácaros predadores Phytoseiulus persimilis e Neoseiulus californicus, este último preferido em climas quentes; quem cultiva a fruta encontra o contexto no guia de como plantar morango. Pulgões, lagartas e minadores completam o quadro, todos com solução biológica registrada, do parasitoide Aphidius colemani ao Bacillus thuringiensis e aos baculovírus.

    As doenças foliares e as viroses: míldio, mofo cinzento e vira-cabeça

    A parte aérea da planta também adoece, e em estufa o vilão quase sempre tem nome de umidade. O míldio da alface, causado por Bremia lactucae, é a doença foliar número um das folhosas: aparece como manchas amarelas na face superior e um mofo branco na face inferior, e sua defesa depende de cultivares que carregam genes de resistência, dos clássicos Dm-14 e Dm-17 aos mais recentes Dm-37 e Dm-38, combinados com boa ventilação. O oídio faz o caminho oposto, prosperando em umidade mais moderada e deixando um pó branco sobre a folha. Já o mofo cinzento, causado por Botrytis cinerea, produz lesões aquosas e um mofo cinza característico, e responde a ventilação e a biofungicidas como Bacillus subtilis, segundo a Embrapa. A gestão fina de umidade e ventilação que segura esses três fungos pertence ao terreno do clima, aprofundado no nosso guia de ambiente controlado.

    As viroses são um capítulo à parte porque não têm cura: uma vez infectada, a planta não se recupera, e todo o esforço é impedir que ela seja infectada. Os tospovírus do vira-cabeça (TSWV, TCSV, GRSV e CSNV no Brasil) chegam pelo tripes, e a linha de defesa combina cultivares com o gene de resistência Sw-5 e o controle rigoroso do vetor. Os begomovírus do tomate são ainda mais dramáticos: segundo a Embrapa Hortaliças, a infecção que ocorre nas três primeiras semanas após o transplante pode zerar a produção, com perdas de até 100%. Contra vírus, portanto, o manejo é sempre indireto: elimine o inseto que transmite e plante material geneticamente resistente. Não existe pulverização que devolva a saúde a uma planta já infectada.

    Monitoramento: armadilhas, amostragem e nível de dano

    Monitoramento é a espinha dorsal do manejo integrado: sem contar quantos indivíduos há e onde eles estão, qualquer decisão de controle é chute. A ferramenta mais barata e mais subestimada é a armadilha adesiva colorida. As amarelas atraem mosca-branca, pulgões alados e minadores; as azuis são específicas para tripes. Distribuídas pela área e trocadas com regularidade, elas viram um termômetro semanal da população, revelando o foco antes que ele exploda.

    Armadilha adesiva amarela coberta de insetos no monitoramento de pragas em estufa hidropônica
    A armadilha amarela é o termômetro semanal da população de pragas na estufa.

    As armadilhas contam quem voa, mas não substituem o olho no pé da planta. A amostragem visual, o chamado scouting, percorre a estufa toda semana inspecionando um número fixo de plantas por bancada, sempre virando a folha para olhar a face inferior, onde a mosca-branca e o ácaro se escondem. É desse cruzamento entre armadilha e inspeção que nasce a decisão. E a decisão obedece a um conceito central do manejo integrado: o nível de dano econômico, o ponto em que a população de praga cresceu o suficiente para que o prejuízo supere o custo de controlá-la. Agir antes desse ponto é desperdício; agir muito depois é surto. Foi essa disciplina de contagem que permitiu à estufa de Guaraciaba do Norte fechar a safra com apenas 0,93% de dano. Hoje esse trabalho pode ser amplificado por armadilhas digitais e visão computacional, um caminho que se conecta ao nosso guia de sensores na agricultura e às primeiras montagens de automação com Arduino.

    A hierarquia de táticas: do cultural ao químico seletivo

    Manejo integrado de pragas (MIP) é, na definição da FAO desde 1967, o uso combinado de todas as táticas compatíveis, culturais, físicas, biológicas e químicas seletivas, para manter as populações abaixo do nível de dano econômico, com prioridade para o que não é químico. A palavra-chave é hierarquia: as táticas não são intercambiáveis, elas se organizam em degraus, e o produtor só sobe para o próximo quando o anterior não deu conta.

    NívelTáticaComo aplicar em hidroponia e estufa
    1. CulturalSanidade da muda, descarte de plantas doentes, manejo de pH e temperatura da soluçãoComprar mudas certificadas e retirar plantas sintomáticas em saco fechado
    2. FísicaTela anti-insetos 50 mesh, dióxido de cloro nas bancadas, higiene entre ciclosBarreira na entrada de ar e limpeza rigorosa antes de cada novo plantio
    3. BiológicaParasitoides, predadores e biofungicidasLiberar Encarsia, Orius e Trichoderma conforme orientação do responsável técnico
    4. Química seletivaProdutos do AGROFIT compatíveis com inimigos naturaisAlternar modos de ação (códigos FRAC e IRAC) e respeitar a carência

    O degrau cultural é o mais barato e o mais ignorado: nada substitui uma muda sadia e a retirada imediata da planta doente. O degrau físico é a barreira, com destaque para a tela e a higiene das bancadas. O degrau biológico é o coração do sistema em ambiente fechado, porque ali os inimigos naturais liberados não dispersam e trabalham a favor do produtor. O químico seletivo é o último recurso, reservado para quando a população furou todos os degraus anteriores, e mesmo assim escolhido para não matar os inimigos naturais que já estão trabalhando. A referência técnica dessa lógica no Brasil é a própria Embrapa Hortaliças, e a definição internacional que fundamenta tudo está na FAO.

    Controle biológico: agentes registrados no AGROFIT e onde comprar

    Controle biológico é o uso de organismos vivos, predadores, parasitoides e microrganismos antagonistas, para regular pragas e patógenos no lugar do defensivo químico. Ele funciona ainda melhor em ambiente fechado do que no campo, por uma razão elegante: como o parasitoide liberado não vai embora com o vento, ele permanece na cultura, e o custo por planta cai à medida que a densidade do cultivo sobe. A combinação ideal soma o macrobiológico, que são os insetos e ácaros, ao microbiológico, que são os fungos e bactérias, atuando ao mesmo tempo sobre a praga e sobre a doença.

    AlvoAgente biológicoProduto e empresa no Brasil
    Pythium, Rhizoctonia, FusariumTrichoderma asperellumTrichodermil (Koppert)
    Pythium, Rhizoctonia, FusariumTrichoderma harzianum (cepa T-22)Trianum
    Botrytis, Sclerotinia, FusariumBacillus subtilisMais de 40 produtos no AGROFIT
    Mosca-branca, tripes, pulgãoLecanicillium muscariumMycotal (Koppert)
    Mosca-brancaEncarsia formosaEn-Strip (Koppert)
    Ácaro-rajadoPhytoseiulus persimilis, Neoseiulus californicusSpidex e Spical-C (Koppert)
    TripesOrius insidiosusPromip e Koppert
    PulgãoAphidius colemaniKoppert
    LagartasBacillus thuringiensis, baculovírusPromip

    O ponto inegociável ao montar esse programa é o registro. Todo agente comprado precisa estar registrado no AGROFIT, o cadastro público do MAPA, para a cultura em questão, e o mercado nunca esteve tão favorável: em 2025 o MAPA liberou 162 bioinsumos, o maior balanço anual da história do país. O setor acompanha o número. Segundo a CropLife Brasil, o mercado nacional de bioinsumos atingiu R$ 6,2 bilhões em 2025, alta de 15,2% sobre o ano anterior, e o segmento de bioinseticidas saltou 33,4%, chegando a R$ 2,1 bilhões. Não é ambientalismo de nicho, é uma indústria em plena expansão.

    Fonte: CropLife Brasil

    Na hora de comprar, o Brasil tem biofábricas maduras. A Koppert do Brasil, em Piracicaba (SP), reúne o catálogo mais completo de macro e microbiológicos, dos parasitoides Encarsia e Aphidius aos fungos Trichoderma e Lecanicillium. A Promip, em Engenheiro Coelho (SP), foi a primeira biofábrica brasileira de ácaros predadores, aberta em 2010, e é forte em baculovírus. A Bug Agentes Biológicos, em Charqueada (SP), completa a lista dos fornecedores com localização consolidada, ao lado de nomes como Biotrop, Vittia e Lallemand que também atuam no país. A regra de ouro na compra é sempre a mesma: exija o registro no AGROFIT e a nota fiscal.

    Defensivo químico em hidroponia: o que a lei realmente permite

    Sim, é possível usar defensivo químico em hidroponia, mas o espaço legal é estreito e a regra é inegociável: só vale o produto que estiver registrado no AGROFIT (MAPA) para aquela cultura específica, e a bula prevalece sobre qualquer recomendação de terceiros. O detalhe que muita gente ignora é que o registro é por cultura: um produto autorizado para tomate não autoriza aplicação em alface, ainda que a praga seja a mesma. E a hidroponia sofre de um problema estrutural, tem pouquíssimos produtos registrados, porque a maior parte dos registros foi feita para o cultivo convencional no solo. Por isso, na prática, o químico é a última linha de defesa, não a primeira.

    Este guia não prescreve dose, produto nem receita de calda, e nenhum guia deveria: essa é exatamente a função da receita agronômica assinada pelo responsável técnico, tornada obrigatória pela Lei nº 14.785/2023, a Nova Lei dos Agrotóxicos, que também criou um trâmite diferenciado para os produtos biológicos. Quem manuseia o produto precisa ser aplicador certificado e respeitar o período de carência entre a aplicação e a colheita. Quando o químico for realmente inevitável, a escolha correta em estufa é o produto seletivo, que poupa os inimigos naturais já liberados, com alternância de modos de ação pelos códigos FRAC e IRAC para não criar resistência. Do outro lado do balcão regulatório, a Lei nº 15.070/2024, a Lei dos Bioinsumos, abriu espaço para o produtor multiplicar bioinsumos para uso próprio dentro da fazenda, sob registro simplificado e responsável técnico, embora proíba a comercialização desse material. O recado das duas leis é convergente: menos calendário de pulverização, mais biologia com rastreabilidade.

    Biossegurança do sistema: desinfecção, filtragem e quarentena

    Biossegurança é o conjunto de barreiras que impede o patógeno de entrar e de circular, e é a diferença entre uma estufa que trata surtos e uma que quase não os tem. Tudo começa na muda. A porta de entrada número um de doença é a muda contaminada, por isso mudas certificadas e a quarentena de material novo, mantido separado antes de ir para a bancada de produção, valem mais do que qualquer produto aplicado depois.

    A segunda barreira é a própria água. Como o sistema recircula, a solução precisa ser desinfectada de forma contínua e preventiva, e não só quando o problema aparece, quando já é tarde. As três tecnologias consolidadas são a luz ultravioleta UV-C, o ozônio e a filtração lenta, todas capazes de reduzir a carga de Pythium e outros patógenos que viajam pela solução. A terceira barreira é física: a tela anti-insetos 50 mesh, com abertura de cerca de 0,30 por 0,30 milímetro, barra mosca-branca, tripes, pulgão e psilídeo, enquanto telas mais abertas apenas dão falsa sensação de segurança. Essa malha fina cobra um preço, reduz a ventilação e eleva a umidade, o que favorece justamente Botrytis e Pythium, e por isso recomenda-se pé-direito de pelo menos 3,5 metros e boa exaustão, um assunto de projeto de estufa que detalhamos no guia de ambiente controlado. Fecham o conjunto a desinfecção das bancadas com dióxido de cloro entre ciclos e o descarte das plantas doentes em saco fechado, para que o foco não volte a semear o próximo plantio.

    Os erros que quebram o produtor iniciante

    O primeiro e mais caro erro é achar que estufa é sinônimo de ausência de praga. É o contrário: o ambiente fechado seleciona pragas pioneiras, como mosca-branca, tripes e ácaros, que se multiplicam de forma exponencial na falta de inimigos naturais. Cultivo protegido não dispensa o manejo integrado, ele o exige desde o primeiro ciclo.

    O segundo erro é tratar a solução nutritiva só quando o problema aparece. Quando o Pythium se manifesta na raiz, a contaminação já está distribuída por todo o sistema NFT, e a higienização deixou de ser prevenção para virar remédio caro. O terceiro erro é aplicar Trichoderma uma única vez, como se fosse antibiótico: a literatura brasileira mostra ganho crescente com a repetição, com duas aplicações reduzindo a podridão em cerca de 28% e três aplicações chegando a cerca de 43%, segundo Corrêa, Bettiol e Morandi (2010). O quarto erro é confundir o biótipo da mosca-branca e subestimar o MED, mais resistente aos inseticidas e já presente em estufas brasileiras, o que exige começar o programa biológico logo de saída. O quinto erro é comprar a tela pela espessura em vez do mesh: só a malha 50 mesh barra os pequenos sugadores, e a conta que parecia economia vira porta aberta para a praga.

    Perguntas frequentes

    Em hidroponia também aparece praga? Achei que estufa fechada não tinha esse problema.

    Sim, aparece, e às vezes com mais intensidade que no campo. Em estufa, o ambiente fechado seleciona pragas pioneiras como mosca-branca, tripes, ácaros e pulgões, além de patógenos de raiz como Pythium e Fusarium, que se multiplicam sem os inimigos naturais que existiriam a céu aberto. Por isso o cultivo protegido exige um programa de manejo integrado estruturado desde o primeiro ciclo.

    Qual é a principal doença da alface hidropônica no Brasil?

    Em sistemas NFT recirculantes, a podridão de raiz causada por Pythium aphanidermatum é a mais relatada e pode reduzir em até 20% a massa fresca da alface, segundo Corrêa et al. (2010). Em estados como São Paulo e Espírito Santo também ocorre a fusariose vascular (Fusarium oxysporum f.sp. lactucae), com perdas que chegam a 70% quando o substrato está contaminado, segundo a Embrapa Hortaliças.

    Como controlar Pythium em hidroponia sem usar agrotóxico?

    O melhor protocolo brasileiro combina quatro frentes: manter a solução abaixo de 24°C, já que acima de 27°C o patógeno se torna agressivo; usar UV-C ou ozônio na recirculação; fazer aplicações sucessivas de Trichoderma asperellum ou Clonostachys rosea, que em três aplicações reduziram a podridão em 42,8% segundo Corrêa, Bettiol e Morandi (2010); e garantir sanidade absoluta das mudas e das bancadas. Tudo é preventivo, não curativo.

    Pode usar agrotóxico em hidroponia?

    Pode, mas o espaço é estreito. Só é permitido um produto registrado no AGROFIT (MAPA) para aquela cultura específica, e um registro para tomate não vale para alface. A aplicação exige receita agronômica assinada por responsável técnico, aplicador certificado, respeito ao período de carência e obediência à bula, que prevalece sobre qualquer recomendação. Como a hidroponia tem pouquíssimos produtos registrados, o químico é a última linha, não a primeira.

    Como controlar mosca-branca em estufa de tomate ou pimentão?

    Sem agente biológico, dificilmente se acaba com ela, apenas se controla. O programa brasileiro combina tela 50 mesh nas aberturas, armadilhas amarelas adesivas para monitorar, liberação de Encarsia formosa ou Eretmocerus mundus desde o início do ciclo e aplicações de Lecanicillium muscarium nos focos. Saber se a estufa tem o biótipo MEAM1 ou o MED, mais resistente e presente no país desde 2014, muda o protocolo, segundo Fernandes et al. (2022).

    O que é MIP e como aplicar em uma estufa pequena?

    MIP é o manejo integrado de pragas, sistema definido pela FAO desde 1967 que combina táticas culturais, físicas, biológicas e químicas seletivas para manter as pragas abaixo do nível de dano econômico. Em estufa pequena, ele começa com quatro passos: monitoramento semanal com armadilhas amarelas e azuis, tela 50 mesh nas aberturas, aplicação preventiva de Trichoderma na solução e liberação de inimigos naturais sob orientação de um agrônomo.

    Onde comprar agentes de controle biológico no Brasil?

    As principais biofábricas são a Koppert do Brasil, em Piracicaba (SP), com En-Strip, Spical, Trichodermil e Mycotal; a Promip, em Engenheiro Coelho (SP), primeira biofábrica brasileira de ácaros predadores e especializada em baculovírus; e a Bug Agentes Biológicos, em Charqueada (SP), entre outras como Biotrop e Vittia. Ao comprar, exija sempre o registro no AGROFIT e a nota fiscal.

    Trichoderma funciona mesmo? Em quanto reduz a doença?

    Funciona, e há dados brasileiros revisados por pares. Em alface NFT, três aplicações de Clonostachys rosea reduziram a podridão por P. aphanidermatum em 42,8%, segundo Corrêa, Bettiol e Morandi (2010). Aplicações de Trichoderma asperellum ou T. harzianum também reduzem a podridão radicular, desde que feitas de forma preventiva, desde o transplante, e não como remédio depois que a doença já se instalou.

    O que é tela 50 mesh e ela serve para qualquer praga?

    Tela 50 mesh tem 50 furos por polegada linear e abertura de cerca de 0,30 por 0,30 milímetro, o que barra pulgões, mosca-branca, tripes e psilídeos. Telas mais abertas, de 25 ou 32 mesh, só barram insetos maiores e dão falsa segurança. O cuidado é que a malha fina reduz a ventilação e eleva a umidade, favorecendo Botrytis e Pythium, e por isso a estufa precisa de pé-direito de pelo menos 3,5 metros e boa exaustão.

    Como manejar tripes que transmite vira-cabeça no tomate?

    O vira-cabeça é causado por tospovírus como TSWV, TCSV, GRSV e CSNV, transmitidos principalmente pelo tripes Frankliniella occidentalis. O manejo é triplo: cultivares com o gene de resistência Sw-5, tela anti-insetos 50 mesh somada a armadilhas azuis adesivas, e liberação de Orius insidiosus, que em estudo de 2025 no Journal of Pest Science reduziu populações de tripes em até 96% em cultivo protegido.

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