A pior doença do palmito pupunha finalmente tem um caminho nacional de biocontrole testado em laboratório. Pesquisadores da Apta Regional de Pariquera-Açu, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Embrapa Meio Ambiente publicaram, em 2026, o primeiro estudo brasileiro mostrando que isolados de Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum reduzem drasticamente o crescimento de Phytophthora palmivora, o oomiceto responsável pela podridão da base do estipe. O melhor isolado, batizado TH2, chegou a 94% de redução do patógeno e bloqueou totalmente a colonização em parte dos testes, mas só quando aplicado antes da infecção se instalar. Este artigo explica o que é a doença, o que a pesquisa descobriu, como ela se compara ao controle químico já existente e por que isso importa para os produtores do Vale do Ribeira, região que responde por boa parte do palmito pupunha cultivado no país.
O que é a podridão da base do estipe e por que ela é a pior ameaça da pupunheira
A podridão da base do estipe (PBE) é a doença mais destrutiva da pupunheira (Bactris gasipaes Kunth) cultivada para palmito no Brasil, causada pelo oomiceto Phytophthora palmivora. O patógeno foi identificado e caracterizado morfológica e molecularmente em 31 isolados coletados em plantios de três estados brasileiros, com temperatura ótima de crescimento de 23,7 °C, segundo Lopes et al. (2019), publicado na Summa Phytopathologica. A confirmação molecular usou sequenciamento das regiões ITS1/ITS2 e Cox1/Cox2, com 92% a 100% de similaridade com referências internacionais de P. palmivora.
Na prática, a PBE provoca amarelecimento e morte da folha mais nova, chamada folha-bandeira, e progride para as demais folhas até comprometer o estipe inteiro. Diferente da antracnose, causada por Colletotrichum gloeosporioides e historicamente a doença mais estudada da cultura, que afeta principalmente os frutos, a PBE ataca a base do caule e pode levar à morte da planta-mãe, dos perfilhos e da touceira inteira. É essa capacidade de eliminar a touceira completa, e não apenas comprometer uma parte da colheita, que torna a PBE a ameaça mais temida por quem produz palmito pupunha no Brasil.
A pesquisa nacional: Apta, UFPR e Embrapa testam o Trichoderma
A pesquisa que embasa este artigo é 100% brasileira. A Apta Regional de Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, conduz o programa de melhoramento genético e manejo fitossanitário da pupunheira com os pesquisadores Eduardo Jun Fuzitani, Erval Rafael Damatto Junior e Edson Shigueaki Nomura. A UFPR contribui com Álvaro Figueredo dos Santos, referência histórica em doenças de pupunheira no Brasil, e Luziane Franciscon. Já a Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), participa por meio de Wagner Bettiol, um dos principais nomes do país em controle biológico de fitopatógenos.

O estudo, publicado em 2026 na Summa Phytopathologica, testou quatro isolados de Trichoderma contra P. palmivora em duas condições: crescimento in vitro (em placa de laboratório) e em estipes destacados de pupunheira, ou seja, pedaços de caule coletados em campo e inoculados em ambiente controlado. Segundo a Embrapa, o fungo benéfico colonizou rapidamente os tecidos internos do estipe, dificultando o estabelecimento do patógeno. Essa ocupação prévia do espaço e dos nutrientes disponíveis parece ser o fator decisivo para o sucesso do biocontrole, um padrão que já havia sido observado por Fuzitani em sua tese de doutorado de 2018 na UFPR, agora confirmado com metodologia mais robusta e isolados adicionais.
Os números: 94% de redução e o papel decisivo da prevenção
O estudo comparou quatro isolados de Trichoderma, sendo dois de cada espécie testada, e os resultados variaram bastante entre eles.
| Isolado | Espécie | Redução do crescimento de P. palmivora | Melhor desempenho |
|---|---|---|---|
| TH2 | Trichoderma harzianum | 94% | Aplicação preventiva 48h antes, com bloqueio total da colonização em parte dos testes |
| TH1 | Trichoderma harzianum | 91% | Aplicação preventiva |
| TA2 | Trichoderma asperellum | 80% | Aplicação preventiva, desempenho intermediário |
| TA1 | Trichoderma asperellum | 61% | Menor eficácia entre os quatro isolados testados |
Fonte: Fuzitani et al. (2026), Summa Phytopathologica. Testes conduzidos em laboratório, ainda sem validação em lavoura comercial.
O dado mais importante para quem pensa em usar essa tecnologia no futuro não é apenas o percentual de redução, mas o momento da aplicação. Segundo os próprios autores, a eficiência cai bastante quando o Trichoderma é aplicado depois que a infecção já está instalada, em comparação com a aplicação preventiva. Ou seja, o biocontrole funciona melhor como prevenção do que como tratamento de uma planta já doente, o que muda completamente a lógica de manejo: não adianta esperar os primeiros sintomas de amarelecimento para agir.
Como o Trichoderma protege a planta por dentro
O Trichoderma não age por um único mecanismo. Segundo Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente, a proteção acontece por múltiplas vias simultâneas: competição por nutrientes e espaço com o patógeno, produção de substâncias antifúngicas, degradação enzimática da parede celular do invasor e indução de mecanismos naturais de defesa da própria planta.

"Espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum estão entre os biofungicidas mais utilizados no mundo." Wagner Bettiol, Embrapa Meio Ambiente, citado pela Embrapa (2026)
Esse padrão de antagonismo já havia sido documentado em outros patossistemas de Phytophthora pelo mundo. Em dendezeiro (Elaeis guineensis), na Colômbia, isolados de Trichoderma mostraram interações antagonísticas diretas contra P. palmivora por micoparasitismo e competição, segundo estudo publicado na European Journal of Plant Pathology. Em cacaueiro, em Camarões, formulações de T. asperellum reduziram a incidência da podridão parda causada por P. megakarya em condições de campo. Isso reforça que o mecanismo testado na pupunheira brasileira não é um achado isolado, mas segue um princípio de biocontrole já validado internacionalmente em outras palmáceas e culturas tropicais.
Biológico vs. químico: o que já existe para o produtor
Nenhum resultado da busca sobre o tema compara, lado a lado, os números do controle biológico com as alternativas já usadas em campo. Aqui está essa comparação.
| Estratégia | Eficácia reportada | Estágio de disponibilidade |
|---|---|---|
| Trichoderma harzianum (TH2), aplicação preventiva | 94% de redução do patógeno | Pesquisa em laboratório; produtos comerciais de Trichoderma já são vendidos no Brasil, mas sem recomendação específica para pupunheira |
| Fosfito de potássio (fertilizante foliar) | Cerca de 30% de redução na ocorrência da doença | Já em uso por produtores do Vale do Ribeira, técnica desenvolvida pela Apta Regional |
| Fungicida químico (mancozebe, picoxistrobina e tebuconazol) | Cerca de 81% de controle, índice de severidade de 12,6% | Testado em ensaio cooperativo; a pupunha é classificada como cultura de pequena expressão, o que limita produtos com registro específico |
| Aplicação curativa (pós-infecção, qualquer método) | Eficiência bem menor que a aplicação preventiva | Não recomendada como estratégia principal de manejo |
Vale reforçar um ponto regulatório importante: a pupunha é enquadrada como cultura de agrupamento para fins de extrapolação de Limite Máximo de Resíduo (LMR), dentro do grupo de frutas de casca não comestível. Isso permite usar dados de culturas representativas do grupo para registrar produtos, mas ainda não existe uma bula específica com recomendação validada de Trichoderma para pupunheira. É exatamente essa lacuna que a pesquisa de 2026 começa a preencher.
Por que proteger a pupunheira importa: o mercado do Vale do Ribeira
Entender a dimensão econômica da pupunheira ajuda a explicar por que uma doença capaz de eliminar touceiras inteiras é tratada com tanta urgência pela pesquisa pública brasileira. O Brasil é apontado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) como o maior produtor, consumidor e exportador de palmito do mundo, com cerca de 20 mil hectares cultivados, tendo São Paulo e Bahia como principais estados produtores.

O Vale do Ribeira, em São Paulo, concentra a maior parte dessa produção e recebeu, em 18 de novembro de 2025, a Indicação Geográfica (IG) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) para o palmito pupunha, um selo de origem que facilita o acesso a mercados da Europa e dos Estados Unidos com exigências de rastreabilidade.
Segundo dados do MAPA e do INPI (novembro de 2025), o Vale do Ribeira reúne cerca de 1.200 produtores e 35,5 milhões de plantas de pupunha cultivadas em 7,1 mil hectares, distribuídos por 17 municípios paulistas.
Esses 17 municípios, entre eles Barra do Turvo, Cananéia, Iguape, Registro e Sete Barras, processam anualmente cerca de 24 milhões de hastes por 40 agroindústrias licenciadas. Reportagens anteriores à concessão da IG trazem números um pouco diferentes para a mesma região, com mais de 10 mil hectares e 40 milhões de plantas, o que provavelmente reflete um recorte temporal ou territorial distinto do dossiê oficial usado na concessão da IG. De qualquer forma, o Vale do Ribeira já é considerado a segunda maior força econômica da região, atrás apenas da banana. Para quem avalia se vale a pena investir em manejo preventivo mais caro, entender a relação entre custo de proteção e retorno da lavoura é essencial, tema que aprofundamos no guia de viabilidade econômica e ROI da produção comercial.
Bioinsumos no Brasil: regulação e onde encontrar produtos com Trichoderma
O cenário regulatório brasileiro para bioinsumos mudou rapidamente nos últimos dois anos. A Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024, conhecida como Lei dos Bioinsumos, criou um novo marco regulatório para produção, registro, comercialização e fiscalização de agentes de controle biológico, bioestimulantes, inoculantes e biofertilizantes, além de isentar de registro a produção para uso próprio na propriedade rural.
O resultado já aparece nos números: segundo balanço do MAPA, 2025 fechou com 162 produtos classificados como bioinsumos liberados no país, o maior número já registrado, dentro de um total de 912 registros concedidos somando agrotóxicos e bioinsumos. Especificamente para Trichoderma, o Brasil já tinha, em 2025, 83 produtos registrados para controle biológico com a espécie na composição, sendo 9 nematicidas microbiológicos e 74 fungicidas microbiológicos, segundo levantamento da Agrolink. Marcas nacionais consolidadas incluem a linha da SoluBio, com os produtos TrikoFit, Biogreen e TrikoSoil, e o Tricho-Turbo® da Vittia.
Segundo estudo da CropLife Brasil e S&P Global (2026), o mercado brasileiro de bioinsumos somou R$ 6,2 bilhões em vendas em 2025, alta de 15% sobre 2024, com área tratada de 194 milhões de hectares.
Nenhum desses produtos comerciais, porém, tem hoje registro específico validado em campo para pupunheira. A tecnologia de biocontrole já existe e já é vendida no mercado brasileiro; o que falta é a validação e a recomendação técnica específica para a cultura, que é justamente o próximo passo da pesquisa conduzida pela Apta, UFPR e Embrapa.
Limites da pesquisa e o que vem a seguir
É importante ser transparente sobre o estágio atual da descoberta. O estudo de 2026 foi conduzido in vitro e em estipes destacados, ou seja, em condições de laboratório, e ainda não existe validação publicada em lavoura comercial nessa fase mais recente. A tese de doutorado de Fuzitani (2018), na UFPR, já havia testado o biocontrole diretamente em touceiras comerciais e relatado redução de incidência e severidade da doença, mas como etapa preliminar e distinta do artigo de 2026, que aprofundou a caracterização dos isolados.
Os próprios pesquisadores apontam a validação de campo como próximo passo explícito do trabalho, e outras frentes seguem em aberto: ainda não existem cultivares de pupunha comercialmente resistentes à podridão da base do estipe, e o programa de melhoramento genético da Apta Regional segue em andamento. No médio prazo, a tendência é que o biocontrole com Trichoderma seja usado em conjunto com outras ferramentas já disponíveis, como o fosfito de potássio, e cada vez mais apoiado por monitoramento fitossanitário digital, área em que o guia de sensores para automação agrícola já mostra o caminho para outras culturas.
Perguntas frequentes
O que é a podridão da base do estipe da pupunheira?
É a doença mais grave da pupunheira cultivada para palmito no Brasil, causada pelo oomiceto Phytophthora palmivora. Ela provoca amarelecimento da folha mais nova e pode progredir até a morte da planta e da touceira inteira, segundo Lopes et al. (2019).
O Trichoderma já pode ser usado por produtores de palmito pupunha hoje?
Produtos comerciais à base de Trichoderma já são vendidos e registrados no Brasil, com 83 produtos no mercado em 2025, mas nenhum tem recomendação específica validada em campo para pupunheira. A pesquisa de 2026 é a primeira etapa laboratorial desse caminho.
Qual isolado de Trichoderma teve o melhor desempenho no estudo?
O isolado TH2, de Trichoderma harzianum, teve o melhor resultado, reduzindo em 94% o crescimento de Phytophthora palmivora e bloqueando totalmente a colonização em parte dos testes quando aplicado de forma preventiva.
O controle biológico funciona depois que a planta já está doente?
A eficiência cai bastante na aplicação curativa, feita após a infecção, em comparação com a aplicação preventiva. O próprio estudo reforça que a estratégia funciona melhor como prevenção do que como tratamento de plantas já infectadas.
Existe alternativa química para controlar essa doença?
Sim, um fungicida com mancozebe, picoxistrobina e tebuconazol atingiu cerca de 81% de controle em um ensaio cooperativo. No entanto, a pupunha é classificada como cultura de pequena expressão, o que limita a disponibilidade de produtos com registro específico para a cultura.
A pesquisa já foi testada em plantios comerciais?
O estudo de 2026 foi conduzido em laboratório, com testes in vitro e em estipes destacados, e ainda não há validação publicada em lavoura comercial nessa fase. Uma tese de doutorado anterior, de 2018, já havia reportado redução de incidência em touceiras tratadas, como etapa preliminar e distinta.
Por que o Vale do Ribeira é tão importante para o palmito pupunha no Brasil?
A região concentra cerca de 1.200 produtores cultivando 35,5 milhões de plantas em 7,1 mil hectares, processados por 40 agroindústrias licenciadas, e recebeu Indicação Geográfica do INPI em novembro de 2025, o que facilita o acesso a mercados da Europa e dos Estados Unidos.
Como o Trichoderma protege a planta contra o fungo causador da doença?
Por múltiplas vias combinadas: competição por espaço e nutrientes, produção de substâncias antifúngicas, degradação enzimática da parede celular do patógeno e indução das defesas naturais da própria planta, segundo Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente.
Existe outra técnica de manejo já usada pelos produtores da região?
Sim, a Apta Regional desenvolveu uma técnica com fertilizante à base de fosfito de potássio que reduz em cerca de 30% a ocorrência da podridão do estipe, já usada como ferramenta complementar por produtores do Vale do Ribeira.
O mercado de bioinsumos no Brasil está crescendo o suficiente para sustentar esse tipo de solução?
Sim, o mercado brasileiro de bioinsumos somou R$ 6,2 bilhões em vendas em 2025, alta de 15% sobre 2024, com área tratada de 194 milhões de hectares, e projeção de chegar a R$ 17 bilhões até 2030, segundo estudo da CropLife Brasil e S&P Global.