Em 6 de julho de 2026, na cidade de Guangzhou (China), a fabricante chinesa XAG apresentou um ecossistema de automação total de pomar que promete zerar a intervenção humana no ciclo de pulverização e manutenção. O pacote combina três peças que sempre trabalharam separadas: o robô terrestre de roçada RM80, o drone de pulverização X Series e a estação de recarga e reabastecimento XA1. É uma notícia de tecnologia agrícola de fora, mas com implicações diretas para quem cultiva laranja, uva, café ou maçã no Brasil. Três números resumem o que está em jogo:
| Fato | Número |
|---|---|
| Cobertura de roçada autônoma do RM80 | 0,33 a 0,53 hectare por hora |
| Mercado global de robótica agrícola (2026 → 2031) | USD 18 bi → USD 41,3 bi (Mordor Intelligence) |
| Ecossistema RM80 + X Series confirmado no Brasil? | Não, apenas os drones P-series já são vendidos aqui |
Este artigo é sobre o lançamento comercial de um sistema autônomo de manutenção e pulverização de pomar, não sobre mapeamento de árvores em 3D por inteligência artificial, um tema vizinho, mas diferente. A pergunta que guia o texto é prática: o que esse anúncio realmente muda para a fruticultura brasileira em 2026, e o que continua sendo promessa de vitrine chinesa.
O que a XAG lançou em Guangzhou em julho de 2026
Um sistema agrícola autônomo integrado é a combinação de um drone de aplicação aérea, uma infraestrutura automatizada de apoio (recarga e reabastecimento) e, quando necessário, um robô terrestre, de modo que o ciclo completo de trabalho ocorra sem um operador humano manuseando o equipamento em campo. Foi exatamente esse conjunto que a XAG mostrou na sua XAG 2026 Agricultural Robot Conference, segundo a cobertura do China Daily (07/07/2026) e do Pandaily.

A estrela terrestre é o RM80, um robô cortador (roçadeira autônoma) elétrico de 143 kg com chassi de alumínio. Ele tem 270 mm de vão livre, tração por quatro motores de roda (8 kW contínuos), velocidade de trabalho de 1,5 m/s, sobe rampas de até 30% de inclinação e roda cerca de 40 minutos por carga com bateria dupla. Sua função é roçar o mato sob e entre as árvores, recuperar áreas e remover restolho, cobrindo de 0,33 a 0,53 hectare por hora conforme o layout do pomar, segundo a Futurefarming (10/07/2026).
A estrela aérea é o X Series, um drone de pulverização e semeadura equipado com o controlador SuperX 5 Apex, radar de imageamento 4D, radar vertical e visão de longo alcance para navegar sozinho. Ele não vem só: a estação XA1 recebe o drone para recarga automática, e a unidade LM1 prepara e reabastece a calda (a mistura de água e defensivo) sem que ninguém encha o tanque à mão. Juntas, essas peças formam o que a empresa chama de fluxo de trabalho totalmente autônomo.
O ponto que costuma passar batido na cobertura é este: pulverizar pomar com drone não é novidade. No campo brasileiro, a aplicação aérea por aeronave remotamente pilotada virou rotina desde 2021. O salto de 2026 é outro, a eliminação do operador humano no ciclo de suporte (recarga, mistura de calda e manutenção), que é justamente o gargalo de custo e de escala do prestador de serviço. Quem já opera drone sabe que o tanque acaba a cada 8 a 10 minutos de voo, e é aí que alguém precisa estar em campo. Tirar essa pessoa da equação é o que muda a conta.
Como funciona o ciclo "zero-touch" de ponta a ponta
O diferencial técnico do lançamento está em fechar duas etapas que resistiam à automação mesmo em operações que já usavam drone. A primeira é o reabastecimento físico da calda entre voos. A segunda é a recarga ou troca de bateria. Com a estação XA1 e a unidade LM1, a XAG descreve um ciclo fechado e contínuo: o drone cumpre a rota de pulverização, retorna sozinho, é recarregado, tem a calda reabastecida, passa por uma autolimpeza e reinicia a missão, tudo sem um piloto acompanhando cada pouso, segundo o Pandaily (2026).
Na prática, isso transforma o drone de uma ferramenta operada em uma máquina supervisionada. Em vez de um piloto por equipamento em campo, o modelo aponta para um operador acompanhando vários equipamentos de longe, com intervenção só em exceções. É o mesmo princípio de automação em camadas que move projetos de horta conectada, em que sensores e atuadores tocam o sistema sozinhos e o humano só recebe alertas.
Os mesmos princípios de sensoriamento, lógica de controle e atuação automática que movem um sistema hidropônico caseiro escalam, em outra ordem de grandeza, para robôs agrícolas industriais. Se você quer entender essa fundação, veja o guia de automação e IoT com ESP32.
Vale um alerta de leitura. A palavra "autônomo" costuma esconder graus. Um drone que decola, aplica e pousa sozinho, mas com um operador olhando a tela e a poucos metros, é bem diferente de um sistema que opera durante a noite inteira sem ninguém por perto. O ciclo descrito pela XAG mira o segundo cenário, e é aí que a regulação brasileira entra como fator decisivo, como veremos adiante.
Por que o pomar é mais difícil de automatizar que a lavoura
Pomares (fruticultura, viticultura, olivicultura) são historicamente mais difíceis de automatizar do que lavouras de grão, e há razões concretas para isso. O relevo entre as fileiras é irregular, com sulcos e taludes. Há obstáculos permanentes: troncos, mangueiras e gotejadores de irrigação, mourões. E existe uma camada de trabalho que o drone simplesmente não resolve bem, a cobertura rasteira. O mato sob a linha de plantio compete por água e nutrientes com as árvores e ainda serve de abrigo para pragas e hospedeiros de doença.
O RM80 foi desenhado para essa lacuna específica. O vão livre alto (270 mm) e a tração de quatro rodas independentes existem para vencer sulcos e taludes de pomar sem encalhar. A velocidade baixa (1,5 m/s) casa com corte de precisão rente às árvores, evitando ferir troncos e mangueiras. E a tração elétrica dispensa o motor a combustão, o que reduz custo de manutenção e ruído em áreas de acesso difícil, segundo a Futurefarming (2026).
Por trás desse desenho está um conceito que a literatura técnica chama de cooperação UAV-UGV, a divisão de tarefas entre o veículo aéreo não tripulado (o drone, que cobre a copa e a aplicação aérea) e o veículo terrestre não tripulado (o robô, que cobre o solo). Um estudo de 2024 ainda em pré-print, sem revisão por pares, descreve exatamente esse arranjo para um pomar de pomelo-mel na China, com foco em reduzir a deriva de pulverização e aumentar a cobertura foliar (Chen et al. 2024, SSRN, DOI 10.2139/ssrn.4725158). É o mesmo racional que a XAG está empacotando comercialmente com o X Series somado ao RM80.
A navegação autônoma dentre fileiras, com desvio de obstáculos e corte de precisão, depende de uma camada de sensores e lógica de controle que também está no coração de qualquer projeto de agricultura conectada. Quem quiser entender a base desses sensores encontra o mapa completo no guia de automação e IoT com ESP32.
A XAG no Brasil: o que já existe e o que ainda não chegou
Aqui está a informação que nenhuma fonte comercial deixa clara, e é o principal motivo deste artigo. O RM80, o X Series, a estação XA1 e a unidade LM1 não têm, até o fechamento deste texto (agosto de 2026), qualquer confirmação pública de importação, homologação ou venda no Brasil. Toda a cobertura do lançamento (China Daily, Pandaily, Futurefarming) trata do evento em Guangzhou, sem mencionar mercados de exportação para esses produtos específicos. Tratar o RM80 como algo que o citricultor paulista compra amanhã seria desinformar.
O que existe de fato no Brasil é a linha de drones P-series da XAG. Veja o que já é comercializado por aqui:
| Modelo XAG | Tipo | Especificação-chave | Situação no Brasil |
|---|---|---|---|
| P60 | Drone de pulverização compacto | Tanque 30 L, payload 30 kg, dobrável | Comercial desde a Agrishow 2025 (rede Case IH) |
| P100 Pro | Drone de pulverização e espalhamento | Tanque 50 L, vazão até 22 L/min | Comercial (Megadrone), R$ 189 a 209 mil |
| P150 | Drone de pulverização e espalhamento | Tanque 70 L, vazão 30 L/min, payload 70 kg, RTK | Comercial desde a Agrishow 2025 (rede Case IH) |
| R150 | Robô terrestre | Veículo terrestre não tripulado | Consta no catálogo da Megadrone |
| RM80 + X Series + XA1 + LM1 | Ecossistema autônomo | Ciclo "zero-touch" | Lançado na China, sem confirmação no Brasil |
A Megadrone Brasil, de Ponta Grossa (PR), é a distribuidora oficial da XAG no país e vende os modelos P30, P40, P60, P100, P100 Pro, V40 e o robô R150. Já a Case IH, marca da CNH Industrial, anunciou na Agrishow 2025 uma parceria com a XAG para distribuir os modelos P150 e P60 pela sua rede de concessionárias Case IH e New Holland na América Latina, segundo comunicado da própria XAG (2025). Sobre preço, o único valor público confiável é o do P100 Pro, anunciado por distribuidores como a Brava Drones (2026) na faixa de R$ 189 mil a R$ 209 mil conforme a versão. Para P150, P60, RM80 ou X Series, não há preço público no mercado brasileiro.
A leitura correta, portanto, é de tendência, não de disponibilidade. O RM80 sinaliza para onde o portfólio da XAG caminha, e a existência de uma rede de distribuição já montada (Megadrone e Case IH) torna plausível que peças desse ecossistema cheguem ao Brasil no futuro. Mas plausível não é confirmado, e a decisão de compra de qualquer produtor deve se basear no que está homologado e à venda hoje.
Comparando com o que o produtor brasileiro já usa
O RM80 não chega a um vazio. O campo brasileiro já tem robótica terrestre autônoma em pomar, e ignorar isso distorce a leitura do lançamento. O concorrente mais direto em conceito é o LJ Tech S1000, um robô pulverizador autônomo movido a energia solar que, segundo cobertura de 2026 do portal GeoAgri, já opera em pomares no Brasil. Há uma diferença de função importante: o S1000 pulveriza, enquanto o RM80 roça. São tarefas complementares dentro do mesmo pomar, não substitutas uma da outra.

Do lado dos grandes, a DJI Agriculture é a líder de mercado no Brasil e o verdadeiro elefante na sala. A empresa tem cerca de 30 mil equipamentos no país, aproximadamente 400 centros de serviço autorizados (com meta de 600) e mais de 20 mil pilotos treinados, segundo levantamento do AgFeed (2026). Em share global, estimativas de mercado colocam a DJI com 60% a 70% e a XAG com 10% a 12% (SkyMarket Insights, 2026), embora esses percentuais variem conforme o escopo de cada consultoria e devam ser lidos com cautela. Já a brasileira Solinftec, com seu robô Solix, atua em robótica terrestre autônoma solar, mas voltada a lavouras de grão, não a pomar. A empresa captou R$ 1,3 bilhão e mira 700 robôs em campo entre as safras 2025 e 2026.
O quadro abaixo resume as tecnologias de automação de solo em pomar disponíveis ou anunciadas:
| Tecnologia | Função | Energia | Situação no Brasil |
|---|---|---|---|
| RM80 (XAG) | Roçada autônoma | Elétrica (bateria) | Lançado na China, não confirmado |
| LJ Tech S1000 | Pulverização autônoma | Solar | Em operação em pomares |
| Solinftec Solix | Monitoramento e aplicação | Solar | Em operação, foco em grãos |
| Drones XAG P-series | Pulverização aérea | Bateria | Em operação (Megadrone, Case IH) |
| Drones DJI Agras | Pulverização aérea | Bateria | Líder de mercado |
A conclusão prática para o produtor é que a fronteira da automação de pomar no Brasil não depende do RM80 chegar. Ela já se move com equipamentos que estão no campo hoje. O lançamento da XAG importa como sinal de para onde o setor vai, e como referência de custo e maturidade quando o assunto for decidir um investimento. Antes de qualquer compra, a análise de retorno é obrigatória, e o raciocínio de CAPEX, OPEX e payback vale tanto para robótica de campo quanto para cultivo protegido, como mostra o guia de viabilidade econômica e ROI.
Por que agora: o cenário que empurra a automação do pomar
Nenhuma tecnologia se populariza sem uma dor econômica por trás. No caso da automação de pomar no Brasil, essa dor tem nome e número, e ela explica por que o assunto virou prioridade em 2026. O pomar mais relevante do país é o de laranja, com cerca de 800 mil hectares e produção anual historicamente citada em 18,5 milhões de toneladas (dado de laranja e limão combinados, referente à safra de 2013), o que faz o Brasil responder por mais da metade do suco de laranja do mundo, segundo a CNA Brasil. É um setor grande, exportador e, hoje, sob pressão.

A pressão vem de três frentes que se somam. A primeira é sanitária. O greening (ou HLB, huanglongbing) já atinge 47,6% das laranjeiras do cinturão citrícola paulista, segundo o Fundecitrus (mai/2026). Essa é a doença mais grave da citricultura mundial e não tem cura, o que torna o monitoramento constante e a aplicação precisa de defensivos uma questão de sobrevivência do pomar. A segunda frente é de produção. O Fundecitrus fechou a safra 2025/26 em 292,94 milhões de caixas de 40,8 kg e projetou, na primeira estimativa para 2026/27, uma queda para 255,2 milhões de caixas, recuo de 12,9% puxado por bienalidade negativa, clima adverso na florada e pelo próprio avanço do greening.
A terceira frente, e a mais decisiva para a adoção de tecnologia, é o custo. O CEPEA/ESALQ estimou o custo total de produção da laranja em pomar irrigado e adensado do norte de São Paulo em R$ 58.493,20 por hectare na safra 2026/27, segundo dados divulgados pelo Broto Notícias (2026). Com a caixa negociada com a indústria numa faixa de R$ 40 a R$ 55, a margem do citricultor fica apertada. É nesse aperto que qualquer tecnologia capaz de reduzir custo de mão de obra em roçada e pulverização ganha apelo real, e não como novidade, mas como necessidade.
Some-se a isso a escassez crônica de mão de obra rural, e o quadro fica completo. Robôs como o RM80 e o LJ Tech S1000 respondem a uma equação em que trabalho humano fica mais caro e mais raro ao mesmo tempo em que a doença exige mais operações no pomar. Não é entusiasmo por tecnologia, é aritmética.
Regulação: o que trava e o que libera essa tecnologia no Brasil
De nada adianta um sistema "zero-touch" tecnicamente perfeito se a lei não permite operá-lo. E é aqui que o Brasil impõe seus próprios limites, que a maioria das fontes comerciais ignora. Três normas definem o que pode e o que não pode.
A primeira é o RBAC-E nº 94, regulamento da ANAC em vigor desde maio de 2017, com última atualização em abril de 2023. Ele classifica os drones pelo peso máximo de decolagem: a Classe 2 abrange equipamentos de 25 a 150 kg, faixa em que caem a maioria dos drones agrícolas atuais. O problema é que um regulamento de 2017 começa a ficar apertado para drones que hoje chegam a 70 ou 80 kg de peso máximo, como o P150, e ainda mais para um ciclo totalmente autônomo. Todo equipamento acima de 250 g precisa ser cadastrado no SISANT da ANAC, além de homologação de rádio na ANATEL. As informações oficiais estão na página de drones da ANAC.
A segunda é o RBAC 100, a nova norma que deve substituir o RBAC-E 94, com expectativa de publicação no primeiro semestre de 2026 (ainda não publicada nas fontes consultadas até agosto de 2026). O objetivo declarado é simplificar a autorização para operações de maior risco, com destaque para o BVLOS (voo além da linha de visada, na sigla em inglês). Esse ponto é o coração da questão: um ciclo "zero-touch" só faz sentido de verdade se o drone puder operar sem um piloto acompanhando visualmente cada voo, e isso é exatamente uma operação BVLOS. Ou seja, sem o RBAC 100, o sistema autônomo da XAG opera no Brasil de forma limitada, sempre sob linha de visada.
A terceira é a Portaria MAPA nº 298, de 22 de setembro de 2021, que regula a aplicação de agrotóxicos, fertilizantes, corretivos e sementes por aeronaves remotamente pilotadas. Ela estabelece equivalência entre a aplicação por drone e por aeronave tripulada e proíbe aplicação a menos de 20 metros de povoações, moradias isoladas e mananciais. O texto completo está no site do MAPA. Uma dissertação de mestrado da UFPR (Pinho, 2025) mapeou a percepção do setor sobre a norma e concluiu que ela atende apenas parcialmente às necessidades atuais, recomendando diretrizes mais específicas para drones.
Há ainda um ponto que a lei não dispensa: o receituário agronômico. Aplicar defensivo, por drone ou por robô, continua exigindo prescrição de engenheiro agrônomo ou técnico agrícola habilitado. A máquina automatiza a operação, não a responsabilidade técnica. E, pelo lado do robô terrestre, uma lacuna a registrar é a ausência de norma ABNT específica ou de certificação de segurança funcional (padrão internacional tipo ISO 18497) claramente aplicável a robôs agrícolas autônomos no contexto brasileiro, o que é relevante quando se pensa em uma máquina de 143 kg circulando sozinha.
Limitações, riscos e o que ainda não se sabe
Um artigo honesto sobre esse lançamento precisa dizer o que não se sabe, e não é pouco. O primeiro alerta é sobre os números. Todos os dados de desempenho do RM80 e do X Series disponíveis até agosto de 2026 (cobertura de 0,33 a 0,53 ha/h, autonomia de 40 minutos, capacidades do drone) vêm de material oficial da XAG, replicado pela imprensa sem teste de campo independente publicado. O mesmo vale para a cifra de "186 milhões de hectares" tratados pelos drones da empresa em "mais de 70 países", citada pelo cofundador Gong Jiaqin na coletiva, um número acumulado e autorrelatado, sem metodologia detalhada. Isso não significa que os dados sejam falsos, mas que ainda não foram validados por terceiros.
O segundo alerta é histórico. A robótica agrícola promete há anos mais do que entrega em adoção real. Uma revisão acadêmica de 2022 apontou que os principais obstáculos à disseminação de robôs comerciais na fazenda são o custo elevado e a complexidade de integração aos sistemas produtivos existentes, e não a falta de tecnologia (DOI 10.1016/j.atech.2022.100069). Um robô que funciona na vitrine de Guangzhou pode esbarrar em suporte técnico, peças de reposição e treinamento quando aterrissa num pomar do interior paulista.
O terceiro alerta já foi dito, mas merece repetição: não há confirmação de que o RM80 e o X Series chegarão ao Brasil, e muito menos data ou preço. Para quem cultiva, a recomendação prática é acompanhar o tema como tendência, testar o que já está homologado e à venda (os drones P-series), e resistir à tentação de tomar decisão de investimento com base em vídeo de lançamento. A automação de pomar é real e está avançando, mas o marketing corre sempre à frente da nota fiscal.
Para onde vai essa tecnologia até 2030
A direção do setor é razoavelmente clara, mesmo que o cronograma seja incerto. As tendências abaixo condensam o que as fontes técnicas e de mercado apontam para os próximos anos.
| Tendência | O que significa | Horizonte |
|---|---|---|
| Ciclo "zero-touch" (drone + estação + robô) | Fim da intervenção humana em recarga e reabastecimento | Lançado na China; chegada ao Brasil incerta |
| RBAC 100 e liberação de BVLOS | Nova norma da ANAC viabiliza voo além da linha de visada | Esperado 2026, ainda pendente |
| Montadoras distribuindo drones | CNH (Case IH e New Holland) já distribui XAG; padrão deve se repetir | Em curso desde a Agrishow 2025 |
| Cooperação UAV-UGV como padrão | Drone e robô se somam, um não substitui o outro | Pré-comercial, 2027 a 2030 |
| Pressão por roçada e aplicação automatizadas | Escassez de mão de obra e custo de R$ 58 mil/ha na laranja | Adoção crescente 2025 a 2028 |
| Drones crescendo mais rápido no mix | Segmento de drones agrícolas cresce ~22% ao ano, acima da robótica geral (~18%) | 2026 a 2031, Mordor Intelligence |
O consenso de mercado, apesar da divergência entre consultorias, é de crescimento forte. O mercado global de robótica agrícola está estimado entre USD 18 bilhões (Mordor Intelligence, 2026) e USD 24 bilhões (P&S Intelligence, 2026), com projeções de mais que dobrar até o início da próxima década e CAGR consistente na faixa de 18% a 20% ao ano. O subsegmento de drones agrícolas, isolado, é da ordem de USD 6 a 7 bilhões, segundo a Fortune Business Insights (2026). A diferença entre esses números não é contradição, e sim escopo: cada consultoria define de forma distinta o que conta como "robótica agrícola", incluindo ou não trator autônomo, ordenha robótica e outros equipamentos.
No Brasil, o vetor de crescimento é claro. O país já é o segundo maior mercado mundial de aviação agrícola, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo o Sindag, e a frota de drones agrícolas em operação é estimada por fontes setoriais na casa de 30 a 35 mil equipamentos, com projeção de forte expansão. Nesse ambiente, sistemas integrados de solo e ar, como o que a XAG apresentou, deixam de ser exceção e caminham para virar a arquitetura padrão do pomar tecnificado, provavelmente ao longo do fim desta década. Esse movimento conversa diretamente com o avanço da agricultura em ambiente controlado, tema que exploramos no guia de CEA no Brasil.
Perguntas frequentes
O que é o RM80 da XAG?
É um robô terrestre elétrico autônomo de 143 kg, lançado pela XAG em 6 de julho de 2026 em Guangzhou, na China, voltado para roçada de pomar, recuperação de área e remoção de restolho. Roda até 40 minutos por carga, atinge 1,5 m/s e cobre de 0,33 a 0,53 hectare por hora conforme o layout do pomar, segundo a Futurefarming (2026).
Como funciona o sistema X Series de drone autônomo da XAG?
O X Series combina o drone agrícola com a estação de pouso e recarga XA1 e a unidade de mistura e reabastecimento LM1. O drone cumpre a rota de pulverização, retorna sozinho, recarrega, reabastece a calda, se autolimpa e reinicia a missão, sem intervenção humana entre os voos, segundo o Pandaily (2026).
A XAG já vende esse ecossistema (RM80 mais X Series) no Brasil?
Não há confirmação. Até agosto de 2026, a cobertura do lançamento trata apenas do evento na China. A presença comercial da XAG no Brasil hoje é com modelos anteriores (P30 a P150 e o robô R150), vendidos pela Megadrone Brasil e, desde a Agrishow 2025, também pela rede Case IH e New Holland (CNH Industrial).
Quanto custa um drone agrícola XAG no Brasil?
O único preço público confiável é o do XAG P100 Pro, anunciado por distribuidores brasileiros na faixa de R$ 189 mil a R$ 209 mil conforme a versão, segundo a Brava Drones (2026). Não há preço público divulgado para o P150, o P60, o RM80 ou o X Series no mercado brasileiro.
É legal pulverizar pomar com drone autônomo no Brasil?
Sim, desde que a operação siga a Portaria MAPA nº 298/2021, que rege a aplicação de agrotóxicos por drone com receituário agronômico, e o cadastro e autorização da ANAC via RBAC-E 94 e SISANT. Operações totalmente sem supervisão e além da linha de visada (BVLOS) dependem da nova norma RBAC 100, ainda em finalização em 2026.
Qual a diferença entre o RM80 e robôs já usados em pomares brasileiros, como o LJ Tech S1000?
O RM80 é um robô de roçada, ou seja, corta o mato e a vegetação rasteira, enquanto o LJ Tech S1000, já em operação em pomares no Brasil, é um pulverizador autônomo movido a energia solar. São funções complementares dentro do mesmo pomar, e não concorrentes diretas.
O ecossistema autônomo da XAG é mais eficiente que a pulverização convencional por trator ou avião?
Em campo aberto, o drone P150 registrou média de 37 hectares por hora em um desafio de 24 horas promovido pela Case IH no Brasil. Estudos acadêmicos, como o de Gil et al. (2019), mostram que a aplicação por drone em olival e citros pode ser economicamente competitiva frente a métodos convencionais, mas os números de cobertura do RM80 e do X Series ainda não têm validação de terceiros publicada.
Quais os principais riscos e limitações dessa tecnologia?
Os números de desempenho disponíveis vêm do próprio fabricante, sem teste de campo independente publicado. A robótica agrícola em geral ainda enfrenta baixa adoção por causa do custo elevado e da complexidade de integração, segundo revisão acadêmica de 2022. E não há confirmação de chegada do RM80 e do X Series ao Brasil.
O que muda com o RBAC 100 para drones agrícolas pesados?
O RBAC 100 deve simplificar a autorização para operações de maior risco, como os voos BVLOS (além da linha de visada), essenciais para um ciclo "zero-touch" funcionar sem supervisão constante. O regulamento atual, o RBAC-E 94 de 2017, é considerado defasado pelo setor, já que drones pulverizadores atuais chegam a 70 ou 80 kg de peso máximo de decolagem.
Quem são os concorrentes da XAG no Brasil?
A DJI Agriculture lidera o mercado brasileiro com cerca de 30 mil equipamentos e aproximadamente 400 centros de serviço. A Solinftec, com o robô Solix, atua com robôs terrestres autônomos voltados a lavouras de grão. E a LJ Tech tem um robô pulverizador solar já operando em pomares nacionais.