Agro

    O Que Move o Preço do Café no Brasil [2026]

    Entenda como o preço do café se forma no Brasil: da bolsa de Nova York ao câmbio, ao indicador CEPEA e ao diferencial que chega ao produtor.

    Lavoura de café arábica em colheita em Minas Gerais com grãos maduros e trabalhador
    A colheita brasileira de arábica em Minas Gerais alimenta a base do funil de formação do preço
    Agro16 min de leitura

    Quando o telejornal anuncia que "o café subiu" ou que "a saca bateu recorde", o número que aparece na tela parece simples, mas esconde um sistema de três camadas. O preço do café no Brasil não nasce em uma única praça: ele começa na bolsa internacional, em dólar (Nova York para o arábica, Londres para o robusta/conilon), é convertido para reais e ajustado por um diferencial regional de qualidade e frete, e só então se transforma no Indicador CEPEA/ESALQ, a referência que cooperativas, corretores e a imprensa usam para negociar. Cada camada tem sua própria regra de formação, e é por isso que a cotação varia de uma cidade para outra no mesmo dia.

    Três fatos ancoram este guia. Primeiro, em 13/08/2026 o Indicador CEPEA/ESALQ do café arábica fechou em R$ 1.779,40 por saca de 60 kg (alta de 0,47% no dia) e o do conilon em R$ 1.064,62 (queda de 1,16%). Segundo, o Brasil entra no contrato futuro de Nova York com um deságio fixo de 600 pontos em relação à referência, ou seja, o preço em Nova York nunca é 1 para 1 com o preço brasileiro. Terceiro, apesar de o país ter contratos de proteção disponíveis desde os anos 1970, o uso de hedge por produtores individuais ainda é baixo, segundo a literatura acadêmica brasileira. Este artigo destrincha cada camada.

    O funil de três camadas: da bolsa ao produtor

    A formação do preço do café é um funil que parte do global para o local. No topo estão os contratos futuros internacionais, que precificam a expectativa de oferta e demanda mundial em dólar. No meio, o câmbio converte essa cotação para reais e um diferencial regional (a "base") ajusta o valor à realidade brasileira. Na base do funil está o Indicador CEPEA/ESALQ, que resume o preço médio efetivamente praticado no mercado físico nacional, e, abaixo dele, o diferencial de praça que define o que cada produtor recebe pelo seu lote específico.

    Lavoura de café arábica em colheita em Minas Gerais com grãos maduros e trabalhador
    A colheita brasileira de arábica em Minas Gerais alimenta a base do funil de formação do preço

    A lógica que conecta as camadas é a de base (basis, em inglês): o preço físico brasileiro não é a cotação de Nova York multiplicada pelo dólar, mas a cotação internacional ajustada por um diferencial que reflete a oferta e a demanda pelo café brasileiro especificamente.

    "No Brasil, a cotação internacional é convertida para reais e ajustada por um diferencial regional (ou basis), que varia de acordo com a oferta local e a demanda por exportação." Hedgepoint Global Markets, 2026

    A tabela abaixo resume as camadas que compõem o preço, do instrumento mais global ao mais local:

    CamadaInstrumentoMoeda/unidadeReferênciaO que capta
    1. Bolsa internacional (arábica)Contrato futuro "Coffee C"centavos de US$/libra-pesoICE Futures U.S. (Nova York)Expectativa global de oferta e demanda de arábica
    1. Bolsa internacional (robusta)Contrato futuro RobustaUS$/toneladaICE Futures Europe (Londres)Expectativa global de robusta/conilon
    1b. Bolsa domésticaCafé Arábica 4/5 (código ICF)US$/saca 60 kgB3 (São Paulo)Versão brasileira do futuro, entrega em SP
    2. CâmbioTaxa USD/BRLR$ por US$Mercado de câmbioConverte a cotação em dólar para reais
    3. Indicador físicoIndicador CEPEA/ESALQR$/saca 60 kgPosto em SP (arábica), a retirar no ES (conilon)Preço médio praticado no mercado físico
    4. Diferencial localÁgio ou deságio por qualidade e freteR$/sacaPraça específica (Guaxupé, Varginha, Manhuaçu)Ajusta o indicador ao lote real
    5. Política de pisoPreço Mínimo (PGPM)R$/sacaNacional, por variedadeRede de segurança quando o mercado cai abaixo do piso

    Cada uma dessas linhas responde a forças diferentes: a bolsa reage a clima e estoques globais, o câmbio ao cenário macroeconômico brasileiro, e o diferencial à qualidade e à logística. Para acompanhar o valor atualizado dia a dia, o Cultivee mantém a página cotação do café em tempo real como hub de dado ao vivo. Quem quer entender a lógica geral de como ler dados de mercado agrícola pode conferir também o guia sobre como ler os dados de mercado de hortaliças no Brasil, cuja metodologia de leitura de indicadores se aplica a qualquer commodity.

    O que é (e o que não é) o Indicador CEPEA/ESALQ

    O Indicador do Café Arábica CEPEA/ESALQ é o preço médio de referência do café físico no Brasil, definido pela fonte como o valor "em reais por saca de 60 kg líquido, bica corrida, tipo 6, bebida dura para melhor, valor descontado o Prazo de Pagamento pela taxa CDI, posto na cidade de São Paulo". Ele é calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da ESALQ-USP e citado pela quase totalidade da imprensa, das cooperativas e dos contratos de comercialização.

    A palavra-chave dessa definição é referência. O indicador não é "o preço de todo café", e sim a média de negócios com características específicas: bica corrida (o café tal como sai do beneficiamento, sem separação por peneira), tipo 6 (uma posição intermediária na escala de defeitos) e bebida dura (uma classificação sensorial mediana). Um produtor que vende café de tipo melhor ou bebida superior recebe mais que o indicador; quem vende café de qualidade inferior recebe menos. Confundir o indicador com o preço do próprio lote é o erro de interpretação mais comum.

    Segundo a CEPEA/ESALQ-USP, a apuração do indicador segue um processo diário: contato com "agentes colaboradores" (produtores, cooperativas, indústrias, cerealistas, trading companies e corretores) na praça de referência, coleta e tratamento estatístico dos preços informados ao longo da tarde, desconto dos preços a prazo pela taxa CDI e fechamento pelo gestor operacional. Esse desenho metodológico está documentado em detalhe para outros indicadores do centro, como milho e boi, e se aplica ao mesmo formato usado no café.

    O detalhe do desconto pela taxa CDI merece explicação porque quase nenhum concorrente o traduz. Quando um negócio é fechado a prazo, com pagamento em 30, 60 ou 90 dias, o valor combinado é trazido a valor presente pela taxa CDI do período. Isso garante que o indicador reflita um preço comparável ao de uma venda à vista, sem inflar a cotação com o custo financeiro embutido no parcelamento. Na prática, é por isso que o indicador pode ficar ligeiramente abaixo do preço "de tabela" que uma cooperativa anuncia para pagamento futuro.

    Vale registrar que os dados do CEPEA são publicados sob licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial (CC BY-NC 4.0): podem ser reproduzidos com atribuição, mas o uso comercial exige autorização, o que é relevante para qualquer portal que republique o dado diário.

    Arábica e conilon: duas formações de preço diferentes

    Tratar "café" como um mercado único é outro erro frequente. Arábica e conilon (a variedade brasileira do robusta) têm bolsas de referência diferentes, praças físicas diferentes e uma relação de concorrência parcial entre si. O arábica se referencia à bolsa de Nova York e é cotado "posto em São Paulo", enquanto o conilon se referencia à bolsa de Londres e é cotado "a retirar na origem, no Espírito Santo". São mecânicas de praça e frete opostas.

    O Indicador do Café Robusta (conilon) CEPEA/ESALQ é definido como o valor "em reais por saca de 60 kg líquido, à vista, tipo 6, peneira 13 acima, com 86 defeitos, valor descontado o Prazo de Pagamento pela taxa CDI, a retirar na origem (ES)". A diferença de praça (São Paulo para o arábica, Espírito Santo para o conilon) já embute lógicas logísticas distintas: o arábica de Minas Gerais precisa de frete até São Paulo, enquanto o conilon é precificado na porteira capixaba.

    A dinâmica de substituição parcial fecha o quadro. Quando o preço do arábica sobe muito, a indústria de torrefação e de solúvel aumenta o uso de robusta em suas misturas (blends), pressionando a demanda pelo conilon, e vice-versa. Por isso as duas cotações se movem em parte juntas e em parte de forma independente. O contraste abaixo resume as duas formações:

    AtributoCafé arábicaCafé conilon (robusta)
    Bolsa de referênciaICE Futures U.S. (Nova York)ICE Futures Europe (Londres)
    Praça física do indicadorPosto em São PauloA retirar no Espírito Santo
    Principais estados produtoresMinas Gerais, São Paulo, BahiaEspírito Santo, Rondônia, Bahia
    Uso industrial predominanteCafés torrados e moídos de maior valorBlends, café solúvel, base de misturas
    Cotação em 13/08/2026 (CEPEA)R$ 1.779,40/sacaR$ 1.064,62/saca

    Um guia dedicado às diferenças de cultivo, sabor e mercado entre as duas variedades ainda está por vir no Cultivee [a publicar], mas para o objetivo deste artigo basta reter a regra: existem duas cotações porque existem dois mercados, cada um com sua bolsa e sua praça.

    O papel do câmbio e do mercado futuro

    O câmbio é o item isolado mais citado por cooperativas como determinante do preço final, e a razão é aritmética. Como a referência global do café é negociada em dólar, cada centavo de variação do real altera diretamente o valor em reais que o exportador consegue. A Cooxupé, maior cooperativa de café do mundo, resume a formação do preço como uma equação simples:

    "Taxa de câmbio do dólar multiplicada pelo preço de venda, menos os custos de produção (incluindo frete), é igual ao valor final que o produtor recebe." Hub do Café Cooxupé, 2026

    Acima do câmbio está o mercado futuro, o instrumento que conecta a expectativa de oferta e demanda global ao preço negociado hoje. Um contrato futuro é um acordo padronizado para comprar ou vender uma quantidade específica de café em uma data futura, a um preço combinado no presente. Ele serve tanto para especulação quanto para gestão de risco, o chamado hedge, feito por quem produz ou compra café físico e quer travar um preço.

    O ponto técnico que quase ninguém explica é o deságio de origem. O contrato "Coffee C" da ICE (Intercontinental Exchange) permite entregar café de várias origens, cada uma com um prêmio ou desconto fixo sobre a referência: a Colômbia entra com prêmio de 1.000 pontos, a Guatemala com 500, e o Brasil com deságio de 600 pontos. Isso reconhece, na própria arquitetura da bolsa, que o café brasileiro (predominantemente natural, de bica corrida) é cotado abaixo dos lavados centro-americanos e colombianos de referência. É por isso que comparar diretamente a cotação de Nova York com o preço em reais por saca, sem ajustar câmbio e deságio, leva a conclusões erradas.

    No mercado doméstico, a B3 opera o contrato futuro Café Arábica 4/5 (código ICF), com entrega física em São Paulo, para café tipo 4-25 ou melhor e bebida dura ou melhor. A tabela a seguir organiza os três contratos de referência:

    ContratoBolsaUnidadeObservação
    Coffee C FuturesICE Futures U.S. (Nova York)centavos de US$/libra-pesoReferência global do arábica; Brasil com deságio de 600 pontos
    Robusta Coffee FuturesICE Futures Europe (Londres)US$/toneladaReferência do conilon/robusta; fechou a US$ 3.754,00/tonelada em 12/08/2026
    Café Arábica 4/5 (ICF)B3 (São Paulo)US$/saca de 60 kgEntrega física em SP, lote de 100 sacas

    A B3 detalha as especificações do contrato ICF, incluindo vencimento e variação mínima de preço. Um ponto importante: apesar de o instrumento existir, o uso do hedge por produtores individuais ainda é minoria no Brasil, tema que a seção sobre a cadeia de comercialização aprofunda.

    Diferencial, tipo, bebida e peneira: como a qualidade vira dinheiro

    Depois de o indicador de referência ser formado, entra o diferencial de praça, o ajuste que traduz a qualidade real do lote e sua localização em valor. É essa camada que explica por que dois produtores da mesma região podem receber preços diferentes no mesmo dia. Quatro atributos concentram o ajuste, e o padrão oficial que os define está ancorado na Lei 9.972/2000 e no Decreto 6.268/2007.

    Classificador avaliando grãos de café verde por tipo e peneira sobre bancada
    A classificação por tipo, bebida e peneira define o ágio ou deságio sobre o indicador

    O tipo é a classificação por defeitos, numa escala de 2 a 8: quanto menor o número, menos grãos pretos, verdes, ardidos ou brocados, e maior o valor. A bebida é a classificação sensorial, que vai de estritamente mole (a melhor) até rio zona (a pior), passando por dura, riada e rio. A peneira mede o tamanho do grão, de 12 a 19, com os grãos maiores em geral mais valorizados. E a certificação (Rainforest Alliance, orgânico, cafés de origem) agrega ágio ao lote.

    O impacto desses atributos no bolso é concreto. Nas tabelas do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV) de 13/08/2026, o café de bebida dura fechou a R$ 1.637 por saca, enquanto o de bebida rio, de qualidade inferior, saiu a R$ 1.308, uma diferença de mais de R$ 300 na mesma praça, no mesmo dia, só por causa da classificação sensorial. A tabela abaixo organiza os principais componentes de qualidade:

    AtributoO que éEfeito no preço
    TipoEscala de 2 a 8 por número de defeitosTipo melhor que o de referência (tipo 6) gera ágio; pior gera deságio
    BebidaClassificação sensorial (de estritamente mole a rio zona)Bebida dura é a referência do indicador; bebida rio tem deságio expressivo
    PeneiraTamanho do grão (12 a 19)Peneira 17 acima costuma compor a qualidade superior
    CertificaçãoRainforest Alliance, orgânico, origemÁgio sobre o indicador
    Frete até a praçaCusto logístico até o ponto de referênciaDeságio quanto mais distante da praça

    Segundo o Cecafé, os cafés diferenciados e certificados responderam por 16,7% das exportações brasileiras entre janeiro e julho de 2026, mesmo com queda no volume total dessa categoria, sinal de que a qualidade capta ágio crescente na formação do preço. Esse mecanismo de precificação por atributo não é exclusivo do café: a lógica de valorizar qualidade e apresentação aparece também na comercialização de hortaliças, como mostra o guia sobre como precificar e vender folhosas.

    Quem está entre o produtor e a bolsa

    O produtor de café raramente vende direto na bolsa. Entre a lavoura e o comprador final há uma cadeia de intermediários que agrega escala, faz a ponte com o mercado futuro e reduz o risco individual. Entender quem são esses agentes ajuda a ler por que o preço da bolsa não chega inteiro à porteira.

    Armazém de cooperativa de café com sacas de 60 kg empilhadas e movimentação de lotes
    Cooperativas como a Cooxupé agregam volume e negociam o café em escala pelo produtor

    A cadeia típica começa no produtor individual ou na cooperativa. As grandes cooperativas mineiras concentram boa parte do volume: a Cooxupé, de Guaxupé (MG), é a maior cooperativa de café do mundo, com mais de 22 mil famílias cooperadas; a Cocatrel, de Três Pontas (MG), é a segunda maior do Brasil, com mais de 8.600 cooperados desde 1961; e completam o grupo Minasul, Expocaccer e Coopercam. Em seguida entram corretores e trading companies, que ligam a praça física à bolsa, e as exportadoras associadas ao Cecafé, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, responsável pelo relatório mensal oficial de embarques. No fim da linha estão os compradores finais: torrefadoras domésticas, que abastecem o mercado interno, e importadores estrangeiros.

    O argumento central da venda via cooperativa é o poder de barganha coletivo. Segundo a Cooxupé, negociar em bloco "gera poder de negociação e aproveitamento de boas oportunidades, ao contrário de se os produtores vendessem individualmente o café de forma desorganizada", e a cooperativa afirma que o cafeicultor brasileiro recebe cerca de 92% do valor de exportação obtido, proporção que descreve como mais alta que a de outros países produtores. Vale tratar esse número como afirmação institucional da cooperativa, útil como ordem de grandeza.

    A cadeia também explica a lacuna do hedge. A pesquisa acadêmica brasileira mostra que os instrumentos de proteção de preço são subutilizados por quem produz.

    "Os mercados futuros possuem uso restrito entre os cafeicultores brasileiros, o que, de certa maneira, não condiz com as altas razões ótimas de hedge obtidas." Silveira, Revista de Economia e Sociologia Rural, 2012

    Ou seja, mesmo quando a matemática indicaria que travar preço via contrato futuro seria vantajoso, a adoção prática é baixa entre produtores individuais, e maior entre cooperativas e grandes exportadores. Isso deixa o produtor médio mais exposto à volatilidade do preço à vista do que a existência dos instrumentos sugeriria. Outro estudo da mesma revista, de 2014, mostrou que os derivativos de commodities têm relação mensurável com a volatilidade dos preços à vista de boi gordo e café arábica no Brasil (Silveira, Maciel e Ballini, 2014).

    Fatores estruturais: clima, safra e a divergência CONAB e USDA

    Acima de toda a mecânica de bolsa, câmbio e diferencial estão os fatores estruturais que movem a expectativa de oferta, e nenhum pesa mais que o clima. Como o Brasil é o maior produtor e exportador mundial, uma quebra de safra por geada, seca ou chuva fora de época durante a colheita afeta ao mesmo tempo a expectativa de oferta na bolsa internacional e o preço físico interno.

    O exemplo histórico mais citado é a geada de julho de 1975, que destruiu cerca de 75% da cafeicultura do Paraná, então o maior estado produtor, e provocou um dos maiores choques de preço da história do mercado. Esse episódio ajuda a entender por que, até hoje, qualquer previsão de frio no cinturão cafeeiro faz a cotação de Nova York reagir em horas. O clima não é um fator do dia, é um padrão estrutural de décadas.

    O tamanho da safra é o segundo grande fator, e aqui entra um dado editorial relevante: nem os órgãos oficiais concordam sobre quanto o Brasil vai colher. A CONAB, referência oficial brasileira, projetou no segundo levantamento da safra 2026, divulgado em 22/05/2026, uma produção de 66,7 milhões de sacas de 60 kg, alta de 18,0% sobre o ciclo anterior, com o arábica em 45,8 milhões (mais 28,0%) e o conilon em 20,9 milhões (mais 0,8%). Já o USDA/FAS, no relatório "Coffee Annual" de junho de 2026, estimou a safra brasileira em 71,9 milhões de sacas, mais de 5 milhões acima da CONAB, uma divergência de cerca de 8% que, por si só, é um fator de incerteza sobre a oferta que move os preços futuros.

    O salto de valor da cafeicultura brasileira nos últimos anos ilustra o peso do preço na conta. Segundo o IBGE (PAM), o valor da produção de café no Brasil evoluiu assim:

    AnoValor da produção (IBGE/PAM)
    2020R$ 27,28 bilhões
    2021R$ 34,83 bilhões
    2022R$ 51,93 bilhões
    2023R$ 43,78 bilhões
    2024R$ 69,21 bilhões

    O valor mais que dobrou em quatro anos, e o salto reflete majoritariamente alta de preço, não só de volume. Em 2024, Minas Gerais respondeu por R$ 35,14 bilhões desse total, seguido pelo Espírito Santo com R$ 16,74 bilhões e São Paulo com R$ 8,56 bilhões. Esse mesmo movimento de valorização convive com estruturas produtivas que buscam eficiência energética e de custo, tema explorado no artigo sobre agrivoltaica com painel solar transparente em estufas, uma tecnologia emergente do mesmo pilar de lavoura e bioenergia.

    Política pública: preço mínimo, Funcafé e o tarifaço dos EUA

    O Estado brasileiro participa da formação do preço do café de duas formas: por baixo, com uma rede de segurança que impede o preço de despencar, e por fora, com decisões de política comercial que afetam o acesso ao mercado externo.

    A rede de segurança é a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM). Para a safra 2026/27, o governo federal fixou o preço mínimo em R$ 792,53 por saca de 60 kg para o arábica (alta de 19,71%) e R$ 556,97 para o conilon. É importante entender que esse piso só atua quando o preço de mercado cai abaixo dele. Em condições normais, como as de 2026, com o arábica acima de R$ 1.700 e o conilon acima de R$ 1.000, o mercado (bolsa mais indicador CEPEA) segue determinando o preço, e o mínimo funciona apenas como garantia para cenários de queda. O financiamento dessa política e da comercialização vem do Funcafé (Fundo de Defesa da Economia Cafeeira), que teve R$ 7,36 bilhões liberados pelo MAPA para a safra 2026/2027, distribuídos em cinco linhas de crédito: custeio, comercialização, industrialização, estocagem e investimento.

    Do lado externo, o café brasileiro passou por uma sequência de decisões tarifárias dos Estados Unidos, o maior importador mundial, que ilustra como a política comercial vira fator de risco de demanda. A linha do tempo, com datas e fontes, ajuda a separar o ruído do fato:

    DataDecisãoEfeito sobre o café
    Agosto/2025Tarifa "recíproca" ampla dos EUA (base 10% mais adicional 40%)Café incluído por um período
    20/11/2025Revogação da tarifa adicional de 40% sobre o caféCafé volta a ficar de fora
    22/07/2026Nova tarifa de 25% (Seção 301) sobre produtos brasileirosCafé em grão, cascas e substitutos ficaram isentos
    24/07/2026Segunda investigação da Seção 301 (até 12,5% adicional)Café também escapou, segundo Abic, Abics e Cecafé

    Segundo nota conjunta da Abic, Abics e Cecafé divulgada em 24/07/2026 e reportada pelo CafePoint, o café brasileiro escapou tanto da tarifa de 25% quanto da sobretaxa adicional avaliada em uma segunda investigação, uma decisão que as associações estimaram proteger exportações da ordem de US$ 2,0 a 2,5 bilhões por ano. Ainda assim, o histórico mostra pelo menos três decisões tarifárias distintas em menos de doze meses, e essa instabilidade regulatória externa segue sendo um fator de risco sobre a demanda de exportação, mesmo com a isenção vigente.

    Os números de exportação de 2026 mostram a dinâmica em ação. De acordo com o Cecafé, o Brasil embarcou 3,03 milhões de sacas em julho de 2026, alta de 9,9% sobre julho de 2025, mas a receita cambial caiu 13,2%, para US$ 903,9 milhões. Volume sobe e receita cai ao mesmo tempo, o que evidencia queda do preço médio de exportação no período, um lembrete de que preço e quantidade nem sempre andam juntos.

    Tendências que estão mudando a formação do preço

    Sem entrar em previsão de cotação, é possível apontar mudanças estruturais já em curso na forma como o preço do café se forma. A primeira é o peso crescente dos fundos de investimento. Quando gestores financeiros entram ou saem de posições nos contratos futuros, movem a cotação independentemente das condições da lavoura. Como sintetizam analistas de mercado, o café "deixa de ser só produto agrícola e vira ativo financeiro" nesses momentos, um fenômeno documentado academicamente na Revista de Economia e Sociologia Rural em 2022.

    A segunda tendência é o diferencial (basis) ganhando peso relativo em relação à cotação de bolsa. Em um mercado de estoques globais apertados, o ágio ou deságio de origem e qualidade responde por parcela maior da variação final do preço, segundo a Hedgepoint. A terceira é a consolidação da rastreabilidade e da certificação como componente de preço, com cafés diferenciados capturando ágio mesmo quando seu volume total exportado cai. E a quarta, específica do conilon, é a ampliação da capacidade portuária capixaba, com investimentos em terminais no Espírito Santo que podem reduzir o diferencial logístico do robusta ao longo do tempo.

    Por fim, a bienalidade do café, o ciclo natural em que um ano de alta produção é seguido por um de baixa, combinada com a recuperação climática, coloca a safra 2026/27 em um patamar de oferta estrutural mais alto para o arábica brasileiro. Todas essas forças reforçam a mensagem central deste guia: o preço do café é a soma de camadas, e entender cada uma é o que separa quem apenas assiste à cotação subir de quem sabe por que ela se move.

    Perguntas frequentes

    Como é formado o preço do café no Brasil?

    O preço nasce em três camadas. Primeiro, a cotação do contrato futuro de referência (Nova York para o arábica, Londres para o robusta/conilon), em dólar. Depois, essa cotação é convertida para reais e ajustada por um diferencial regional (a "base") que reflete oferta, demanda e qualidade do café brasileiro. Por fim, o indicador nacional CEPEA/ESALQ resume o preço médio praticado no mercado físico, que ainda é ajustado por tipo, bebida, peneira e frete até chegar ao valor pago ao produtor.

    Qual é a cotação do café hoje?

    Em 13/08/2026, o Indicador CEPEA/ESALQ do café arábica fechou em R$ 1.779,40 por saca de 60 kg (alta de 0,47% no dia) e o do robusta (conilon) fechou em R$ 1.064,62 por saca (queda de 1,16%). Como o valor muda todo dia útil, o Cultivee publica a cotação atualizada na página de cotação do café, com conversor de saca e série histórica.

    Por que o preço da saca de café de 60 kg varia de uma cidade para outra?

    Porque o indicador CEPEA é uma referência nacional posto em São Paulo (arábica) ou a retirar no Espírito Santo (conilon), e o preço em cada praça (Guaxupé, Varginha, Manhuaçu) soma ou subtrai um diferencial de frete, tipo, bebida e peneira sobre essa referência. Por isso cooperativas diferentes podem anunciar valores distintos no mesmo dia para o mesmo tipo de café.

    Qual a diferença entre a formação de preço do arábica e do conilon?

    São mercados com referências distintas. O arábica se referencia à bolsa de Nova York e ao indicador CEPEA posto em São Paulo; o conilon se referencia à bolsa de Londres e ao indicador CEPEA a retirar no Espírito Santo. Quando o preço de um sobe muito, a indústria tende a substituir parcialmente pelo outro, o que cria uma relação de concorrência parcial entre as duas cotações.

    O que é o "diferencial" ou "base" no mercado de café?

    É o ajuste, para mais ou para menos, que se soma à cotação de bolsa ou ao indicador de referência para refletir a qualidade real do lote (tipo, bebida, peneira, certificação) e a sua localização (frete até a praça de referência). É esse diferencial que traduz a qualidade em valor na hora da negociação.

    O que é a taxa CDI que aparece na metodologia do indicador CEPEA?

    É o mecanismo pelo qual negócios fechados a prazo são trazidos a valor presente para compor o indicador do dia. O preço combinado para pagamento em 30, 60 ou 90 dias é descontado pela taxa CDI do período, para que o indicador reflita um valor comparável ao de uma venda à vista, sem inflar a cotação com o custo do parcelamento.

    O tarifaço dos EUA afetou o preço do café brasileiro?

    O café em grão, torrado ou solúvel ficou fora da tarifa de 25% que os EUA aplicaram a produtos brasileiros a partir de 22/07/2026 (Seção 301), e também escapou de uma tarifa adicional de até 12,5% avaliada numa segunda investigação, conforme nota conjunta da Abic, Abics e Cecafé de 24/07/2026. Antes disso, em 2025, o café havia sido incluído por um período em uma tarifa mais ampla, revogada em novembro de 2025. O risco tarifário segue sendo um fator de instabilidade sobre a demanda de exportação.

    Produtores de café no Brasil usam contratos futuros para se proteger da variação de preço?

    Ainda de forma limitada. Um estudo da Revista de Economia e Sociologia Rural de 2012 mostrou que o uso de mercados futuros é restrito entre cafeicultores brasileiros, mesmo quando os modelos estatísticos indicam vantagem clara na proteção via hedge. A adoção é maior entre cooperativas e grandes exportadores do que entre produtores individuais.

    Existe um preço mínimo garantido para o café no Brasil?

    Sim. A Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) fixou, para a safra 2026/27, o piso de R$ 792,53 por saca de 60 kg para o arábica e R$ 556,97 para o conilon. Esse mínimo só entra em ação como rede de segurança quando o preço de mercado cai abaixo dele; em condições normais, o mercado segue determinando o preço praticado.

    Por que o clima tem tanto peso na formação do preço do café?

    Porque o Brasil concentra parcela relevante da oferta global, e uma quebra de safra por geada, seca ou chuva fora de época afeta ao mesmo tempo a expectativa de oferta na bolsa internacional e o preço físico interno. O exemplo histórico mais citado é a geada de julho de 1975, que destruiu cerca de 75% da cafeicultura do Paraná e provocou um dos maiores choques de preço da história do mercado.

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