Um spray aplicado nas folhas do tomateiro conseguiu dobrar a biomassa da parte aérea da planta mesmo quando ela estava sob estresse salino severo. O tratamento combina nanopartículas de óxido de manganês com quitosana, um biopolímero natural extraído da casca de crustáceos, e o resultado foi publicado em maio de 2026 na revista científica International Journal of Phytoremediation. É uma notícia empolgante, mas precisa de contexto que quase nenhuma cobertura trouxe: o ensaio foi feito em casa de vegetação, ainda não há teste em campo nem em hidroponia, e o problema que ele ataca, a salinização, já compromete cerca de 25% da área irrigada do Brasil, concentrada no semiárido nordestino. Neste artigo, você encontra o que a ciência de fato provou, o que ainda é hipótese e por que isso interessa a quem cultiva tomate no Brasil.
| Fato-chave | Número | Situação |
|---|---|---|
| Biomassa da parte aérea | Dobrou (~+100%) | Casa de vegetação apenas |
| Massa fresca de raízes | +55,5% | Casa de vegetação apenas |
| Salinização no Brasil | ~25% da área irrigada | Problema real e crescente |
O que a pesquisa descobriu, exatamente
O estresse salino é a condição fisiológica em que o excesso de sais solúveis, principalmente cloreto de sódio (NaCl), na água ou no substrato reduz a água disponível para a planta e ainda intoxica seus tecidos pelo acúmulo de sódio e cloro, o que fecha estômatos, derruba a fotossíntese e dispara dano oxidativo nas células. É contra esses dois efeitos combinados que o spray da pesquisa atua, e vale entender o desenho do experimento antes de comemorar os números.

O estudo foi conduzido por Ordooni e colaboradores, com pesquisadores do Irã (Universidade de Zabol e Universidade de Urmia) e dos Estados Unidos (University of Texas at El Paso e University of Georgia), e publicado online em 18 de maio de 2026 sob o DOI 10.1080/15226514.2026.2669640. Os tomateiros foram cultivados em casa de vegetação e expostos a três níveis de NaCl: 0, 40 e 80 milimoles por litro (mmol/L), sendo o último uma condição de estresse severo. Sobre esse cenário, os autores compararam quatro tratamentos foliares: um controle sem aplicação, apenas nanopartículas de óxido de manganês (10 mg/L), apenas quitosana (150 mg/L) e a combinação dos dois.
O detalhamento das dosagens veio da cobertura da Revista Cultivar (jul/2026), que citou o DOI diretamente, cruzada com o comunicado da University of Texas at El Paso via EurekAlert (jul/2026). Os resultados sob estresse severo, comparando a combinação MnO mais quitosana contra plantas não tratadas, foram estes:
| Parâmetro medido | Variação (80 mM NaCl, combinado vs. controle) |
|---|---|
| Biomassa fresca da parte aérea | Dobrou (~+100%) |
| Massa fresca de raízes | +55,5% |
| Clorofila a | +25,8% |
| Clorofila b | +29,4% |
| Clorofila total | +35,8% |
| Carotenoides | +91,1% |
| Guaiacol peroxidase (enzima antioxidante) | até +300% |
| Polifenoloxidase (PPO) | +104% |
| Malondialdeído (marcador de dano oxidativo) | Redução significativa |
| Fenólicos, flavonoides e proteínas solúveis | Aumento |
Um cuidado de leitura vale aqui, porque a imprensa embaralhou dois números. A Anthropocene Magazine (jul/2026) escreveu que "as raízes dobraram, aumentando 55%", frase internamente contraditória, já que dobrar equivale a mais 100%, não mais 55%. A leitura consistente com o comunicado da universidade e com a Revista Cultivar é que a parte aérea dobrou (cerca de +100%) e a raiz cresceu +55,5%, ou seja, dois eventos distintos. Note também o que o estudo mediu: biomassa vegetativa e marcadores bioquímicos, e não rendimento de frutos maduros. Nenhuma fonte reporta quantos quilos de tomate por planta o tratamento entregaria, então "dobrou a biomassa" não significa "dobrou a colheita".
Por que manganês e quitosana funcionam melhor juntos
A parte mais interessante da pesquisa não é cada componente isolado, mas a sinergia entre os dois. Segundo o autor correspondente do estudo, o químico Hamidreza Sharifan, em entrevista à Anthropocene Magazine, as nanopartículas de manganês ativam enzimas antioxidantes da própria planta, que neutralizam o dano oxidativo causado pelo sal, enquanto a quitosana funciona como uma camada protetora que ajuda o tomateiro a reter água e a estabilizar suas membranas celulares. Os dois mecanismos atacam os dois lados do estresse salino ao mesmo tempo: a quitosana ameniza o componente osmótico (falta de água) e o manganês reforça a defesa contra o componente oxidativo.
A escolha da aplicação foliar, em vez de via raiz, também tem lógica. Quando o sal já está acumulado no substrato, entregar o composto pela raiz obrigaria a molécula a atravessar justamente a barreira salina que se quer contornar. Aplicando na folha, a planta absorve o tratamento rapidamente e sem depender da zona radicular comprometida.
Há ainda um segundo motivo, mais técnico, que explica por que a forma nanoparticulada faz diferença e que praticamente nenhuma cobertura trouxe. O manganês é um micronutriente essencial e um ativador enzimático central da fotossíntese e das reações de oxirredução na planta, como registra a Embrapa Algodão no documento técnico "Micronutrientes na agricultura" (Documentos 297, 2024). Só que, na forma de óxido (MnO), é a fonte de manganês menos solúvel do mercado, motivo pelo qual normalmente não é recomendada como fertilizante via solo.
Segundo a Embrapa Algodão, na forma de óxido o manganês é a fonte de manganês menos solúvel disponível no mercado, o que normalmente limita seu uso como fertilizante aplicado ao solo. Embrapa Algodão, Documentos 297 (2024)
É aqui que a nanotecnologia entra como o pulo do gato. Ao reduzir o material à escala nanométrica (partículas de 1 a 100 nanômetros) e aplicá-lo diretamente na folha, a pesquisa contorna a baixa solubilidade do óxido e entrega o micronutriente numa forma bioativa. Isso ajuda a explicar por que o efeito aparece mesmo em doses baixíssimas, de apenas 10 miligramas por litro. Em outras palavras, não é magia nova de mecanismo, é engenharia de entrega: pegar um nutriente conhecido e difícil de aproveitar e colocá-lo onde e como a planta consegue usar.
Salinização: um problema concreto e crescente
Toda essa pesquisa só importa porque o problema que ela ataca é grande e está piorando. Em escala global, a FAO lançou em 2024 a primeira avaliação mundial de solos afetados por sal em 50 anos, e o número impressiona: 1.381 milhões de hectares afetados, o equivalente a 10,7% da superfície terrestre do planeta. A projeção da FAO é ainda mais preocupante, porque, sob a tendência atual de aumento de temperatura, a parcela de terra afetada por sal pode subir dos atuais 10,7% para algo entre 24% e 32% no longo prazo.

No Brasil, o problema tem endereço definido: o semiárido nordestino. Segundo levantamento da Embrapa sobre os impactos ambientais da irrigação no Semiárido, cerca de 25% da área irrigada brasileira está salinizada ou em processo de salinização, e o Nordeste concentra aproximadamente 9 milhões de hectares afetados por problemas de salinidade ou alcalinidade. A situação varia muito por perímetro irrigado: enquanto o perímetro de Custódia, em Pernambuco, chega a 97% de área com problemas, o de Ceraíma, na Bahia, fica em torno de 32%, e o de São Gonçalo, na Paraíba, em cerca de 40%.
Segundo levantamento da Embrapa, cerca de 25% da área irrigada do Brasil apresenta problemas de salinização, concentrados sobretudo nos perímetros irrigados do Nordeste, que somam aproximadamente 9 milhões de hectares afetados. Embrapa, Impactos ambientais da irrigação no Semiárido brasileiro
O que causa esse acúmulo? Em regiões de clima quente e seco, a água de irrigação, especialmente quando vem de poços com água salobra comum no semiárido, carrega sais dissolvidos. A alta evaporação faz a água sair do solo e deixar o sal para trás, num processo que se repete a cada ciclo de irrigação até que a concentração se torne tóxica para as raízes. E a tendência é de expansão: estudos citados na literatura regional projetam que a área irrigada no semiárido pode crescer cerca de 55% até 2030, saindo de aproximadamente 730 mil hectares para 1,13 milhão de hectares, o que amplia proporcionalmente o risco de novas áreas salinizadas. Qualquer tecnologia que ajude a planta a produzir apesar do sal, portanto, mira um problema que só tende a crescer.
Por que o tomate importa tanto para essa pesquisa
Não é coincidência que o tomate seja a cultura escolhida para testar essa estratégia. O tomate é uma das hortaliças de maior valor econômico do mundo e figura entre os cultivos mais estudados como modelo em fisiologia vegetal. O mercado global gira em torno de US$ 202 a 217 bilhões em 2025, segundo diferentes relatórios da Mordor Intelligence, com projeção de chegar a algo entre US$ 262 e 274 bilhões até 2030 ou 2031, num crescimento anual (CAGR) da ordem de 4,7% a 5,0%. A variação entre os números vem de edições diferentes do mesmo provedor, e não de discordância metodológica de fundo, mas vale registrar o intervalo em vez de fixar um valor único. A produção mundial de tomate ficou em torno de 192 milhões de toneladas em 2023.
No Brasil, o tomate vive um momento de recordes e preços altos. Reportagens que citam dados do IBGE apontam produção nacional recorde em 2025, com números na casa de 4,4 a 4,7 milhões de toneladas colhidas, área cultivada acima de 60 mil hectares e produtividade média em torno de 74 toneladas por hectare, o que coloca o país entre os maiores produtores mundiais. Vale a ressalva editorial: esses números aparecem em reportagens secundárias e não foram verificados diretamente no SIDRA/IBGE neste levantamento, além de haver divergência de escopo entre fontes, portanto trate-os como ordem de grandeza, não como número oficial fechado.
O que está fora de dúvida é a pressão de preços. Em fevereiro de 2026, o tomate no mercado disponível da CEAGESP acumulava alta de 45,4% no ano, com o tomate longa-vida no Rio de Janeiro subindo 34% no início do mês, e a FGV Ibre projetava alta adicional em torno de 7% ao longo de 2026, atribuída a oferta restrita e custos de produção elevados. Nesse cenário, qualquer tecnologia capaz de proteger a produtividade sob estresse ambiental, incluindo a salinidade, vira um ativo econômico relevante, não só uma curiosidade de laboratório. Se você cultiva a fruta, vale conhecer também o nosso guia de tomate hidropônico do iniciante ao produtor, que trata do manejo prático da cultura.
O que já existe no Brasil para lidar com esse problema
O spray de manganês e quitosana não é a primeira nem a única estratégia contra o sal no tomate. Colocá-lo em perspectiva é justamente o que separa uma cobertura séria de uma manchete solta. Veja o panorama das abordagens já estudadas ou usadas, com atenção especial à coluna de estágio de evidência, que muda tudo na hora de decidir o que confiar:
| Estratégia | Princípio | Estágio de evidência |
|---|---|---|
| MnO + quitosana (foliar) | Ativação enzimática antioxidante + retenção hídrica | Casa de vegetação (2026) |
| Nanopartículas de cobre (Cu-NP, foliar) | Antioxidante, exclusão de Na⁺ | Casa de vegetação (301 citações) |
| Nanopartículas de sílica (SiO₂-NP) | Estabilização de membranas, homeostase iônica | Casa de vegetação (2025) |
| Quitosana isolada | Elicitor de defesa, retenção hídrica | Campo/estufa (evidência anterior) |
| Silício convencional (foliar) | Reforço estrutural, mitigação de deficiência de Ca | Campo, Brasil |
| Ácido salicílico | Indutor hormonal de tolerância | Revisão/campo |
| Bactérias promotoras de crescimento (Bacillus) | Bioestímulo + biocontrole | Casa de vegetação, Embrapa |
| Manejo de CE em hidroponia NFT | Controle da condutividade da solução | Campo, múltiplos estudos BR |
| Biofertilizante/esterco líquido bovino | Atenuação indireta do efeito da água salina | Campo |
Duas coisas saltam da tabela. Primeiro, o manganês com quitosana chega a uma festa que já estava rolando: as nanopartículas de cobre em tomate, por exemplo, já têm literatura bem mais madura, com o estudo de Pérez-Labrada e colaboradores (2019) acumulando mais de 300 citações. O real diferencial da pesquisa de 2026 não é inventar um mecanismo novo, e sim combinar dois insumos de baixo custo e origem natural ou renovável (manganês é micronutriente comum, quitosana vem de resíduo pesqueiro) em doses muito pequenas. É um argumento de custo-benefício, não de ineditismo absoluto.
Segundo, o Brasil já tem prateleira própria de soluções em estágios variados. A Campo & Negócios (2023), com autoria ligada à UNESP, documenta o uso de silício foliar, ácido salicílico e biofertilizantes contra o estresse salino no tomateiro, além de citar a linha de pesquisa do pesquisador Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente, com bactérias promotoras de crescimento que reduziram em mais de 50% a incidência de murcha por Fusarium em condições de estresse.
Na hidroponia, o caminho brasileiro contra o sal é outro: em vez de tratar a folha, controla-se a condutividade elétrica da solução nutritiva. A CE mede a concentração de sais dissolvidos, e quando a água de abastecimento é salobra, produtores diluem a solução e monitoram a leitura para manter a planta dentro da faixa tolerável. Estudos como o de Alves e colaboradores (2011), publicado na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, mostram estratégias de uso de água salobra na produção de alface em hidroponia. Se você quer entender como esse controle funciona na prática, o guia flagship de sistema NFT e o guia de solução nutritiva com manejo de pH e CE cobrem o dimensionamento e o ajuste da condutividade em detalhe.
Hidroponia e cultivo protegido: aplicação plausível, ainda não testada
Aqui está o ângulo que mais interessa a quem cultiva em ambiente controlado, e também o que exige a maior honestidade editorial. Como o mecanismo do spray é foliar, ou seja, não depende de corrigir o solo, não existe barreira técnica óbvia para imaginar o mesmo princípio aplicado em cultivo protegido ou hidropônico. Nesses sistemas, a salinidade não aparece como sal acumulado no perfil do solo, e sim como elevação da condutividade elétrica da solução nutritiva ou da água de abastecimento, exatamente o problema que a hidroponia do semiárido já enfrenta ao usar água de poço salobra.

A lógica é sedutora: um tratamento foliar que ajuda a planta a tolerar mais sal poderia, em tese, permitir operar com uma solução de CE um pouco mais alta sem perda proporcional de produtividade, ou proteger a lavoura em picos de salinidade da água. Some-se a isso a facilidade de aplicação foliar em estufa, onde o produtor já circula entre as plantas para outros manejos, e o monitoramento contínuo de pH e CE que a hidroponia moderna faz com sensores, tema do nosso guia de automação e IoT em hidroponia com ESP32.
Agora a ressalva, que é grande e inegociável: nada disso foi testado. O estudo-âncora avaliou tomateiro em substrato de casa de vegetação, com NaCl adicionado ao meio de cultivo, e não em sistema hidropônico NFT ou DFT com solução nutritiva salinizada. Nenhuma das fontes consultadas menciona ensaio em hidroponia. A extrapolação para o cultivo sem solo é uma hipótese razoável, não um resultado científico, e deve ser lida assim. Fatores como a interação das nanopartículas com a solução recirculante, o comportamento em ambiente de alta umidade e a resposta em outras cultivares ainda são pontos de interrogação. Se a ideia der certo, o ambiente controlado, do tipo descrito no nosso guia de CEA (agricultura em ambiente controlado), seria um dos primeiros nichos naturais para o produto, pela precisão de aplicação e pela facilidade de repetir a dose. Mas isso é um "se", não um "quando".
Limitações, riscos e o que ainda não se sabe
Uma notícia científica bem contada deixa claro onde termina a evidência. Estas são as principais ressalvas que separam a manchete da realidade.
A primeira e mais importante é a diferença entre casa de vegetação e campo. Os próprios autores e o comunicado da universidade são explícitos: ensaios de campo em escala real ainda são necessários antes de qualquer recomendação comercial. Casa de vegetação tem temperatura, umidade e irrigação controladas, o que superestima o desempenho que a mesma tecnologia teria numa lavoura exposta a vento, variação térmica, radiação intensa e microbiota do solo real.
A segunda é a ausência de dado de produtividade de frutos. O estudo mediu biomassa vegetativa e marcadores bioquímicos, não quilos de tomate colhido. Uma planta com mais folhas e raízes maiores é um bom indício, mas não é garantia de mais frutos comercializáveis, especialmente porque o balanço entre crescimento vegetativo e frutificação depende de muitos outros fatores de manejo.
A terceira é a segurança ambiental de longo prazo. Nanopartículas de óxido de manganês são um material manufaturado, sujeito às mesmas dúvidas de outras nanotecnologias agrícolas: persistência no ambiente, possível acúmulo no solo e interação com microrganismos benéficos. Os autores citam essa avaliação como próximo passo de pesquisa, o que significa que ainda não há resposta definitiva.
A quarta é o vácuo regulatório brasileiro. A Lei nº 15.070/2024 criou o marco legal dos bioinsumos e define bioestimulante como produto de substância natural aplicável para responder a estresses, categoria em que a quitosana, por ser biopolímero natural, poderia se enquadrar. Nanopartículas metálicas de manganês, porém, não têm enquadramento claro nesse marco, focado em insumos de origem biológica. O registro de bioinsumos no Brasil envolve MAPA, Ministério da Saúde e Ibama, mas não existe regulamentação brasileira específica para nanotecnologia em insumos agrícolas. É um vácuo real, e um produto nano teria que percorrer um caminho regulatório ainda não pavimentado.
Por fim, não há previsão de disponibilidade comercial. O que existe hoje é um artigo científico publicado, não um produto na prateleira. Tratar o achado como algo pronto para comprar é o erro mais comum na cobertura de imprensa, e o que este artigo mais quer evitar.
Quem pesquisa nanotecnologia agrícola no Brasil
Embora o estudo do tomate tenha sido feito por equipes do Irã e dos Estados Unidos, o Brasil tem um ecossistema de pesquisa em nanotecnologia agrícola mais robusto do que a cobertura de imprensa deixa transparecer, e vale conhecê-lo. A Embrapa Instrumentação, em São Carlos (SP), sedia o Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA), criado em 2006 e um dos primeiros da América Latina dedicados ao tema. Em Campinas (SP), o LNLS/CNPEM, laboratório nacional de luz síncrotron, mantém linha de pesquisa em nanotecnologia na fertilização de plantas, estudando nanomateriais para liberação controlada de nutrientes.
A comunidade científica brasileira já acompanha inclusive a linha específica do manganês nano: o Documentos 297 da Embrapa Algodão, em Campina Grande (PB), cita literatura internacional sobre nanomateriais de ferrita de manganês. E a Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), com o pesquisador Wagner Bettiol, trabalha alternativas biológicas para o tomateiro sob estresse salino.
O detalhe mais bonito, e totalmente ignorado pela cobertura internacional, está na cadeia da quitosana. O Brasil produz quitosana industrialmente a partir de resíduo de camarão, caranguejo e lagosta, como faz a empresa Polymar, de Fortaleza (CE), incubada na Universidade Federal do Ceará e beneficiada com aporte do BNDES, conforme relatou a Revista Pesquisa FAPESP. O detalhe é que o Ceará, com cerca de 25,5% da área salinizada, é um dos estados mais afetados pelo problema que a quitosana ajudaria a combater. Ou seja: o insumo de economia circular a partir de resíduo pesqueiro pode nascer exatamente na região que mais precisa dele, fechando um ciclo regional que nenhuma cobertura sobre esse estudo apontou.
Perguntas frequentes
O que é o spray de nanopartículas que ajuda o tomate a resistir ao sal?
É um tratamento foliar, aplicado nas folhas e não no solo, que combina nanopartículas de óxido de manganês com quitosana, um biopolímero natural extraído da casca de crustáceos. Em ensaio de casa de vegetação publicado em maio de 2026 na revista International Journal of Phytoremediation, o spray dobrou a biomassa da parte aérea e aumentou o peso das raízes em mais de 55% em tomateiros sob estresse salino severo.
Como o manganês e a quitosana funcionam juntos para proteger a planta do sal?
Segundo o autor correspondente do estudo, as nanopartículas de manganês ativam enzimas antioxidantes próprias da planta, que neutralizam o dano causado pelo excesso de sal, enquanto a quitosana age como uma camada protetora que ajuda a planta a reter água e a estabilizar suas membranas celulares. Os dois mecanismos juntos funcionam melhor do que cada um isolado, porque atacam ao mesmo tempo o dano oxidativo e a falta de água provocados pela salinidade.
Esse spray já foi testado em campo ou apenas em casa de vegetação?
Até o momento, apenas em casa de vegetação, com condições controladas de temperatura, umidade e irrigação. Os próprios pesquisadores afirmam explicitamente que ensaios de campo em escala real ainda são necessários antes de qualquer recomendação de uso comercial, porque o desempenho em lavoura aberta costuma ser inferior ao obtido em ambiente protegido.
Quanto a salinização do solo afeta a agricultura no Brasil?
Segundo dados da Embrapa, cerca de 25% da área irrigada brasileira está salinizada ou em processo de salinização, concentrada principalmente em perímetros irrigados do Nordeste, região com aproximadamente 9 milhões de hectares afetados por problemas de salinidade ou alcalinidade. Alguns perímetros chegam a extremos, como Custódia (PE), com cerca de 97% da área com problemas.
Essa tecnologia poderia ser usada em hidroponia?
Em teoria, sim, porque é um tratamento foliar e não uma correção de solo, então não há barreira técnica óbvia para testar o princípio em cultivo protegido ou hidropônico, onde a salinidade aparece como elevação da condutividade elétrica da água ou da solução nutritiva. Porém, isso é uma hipótese lógica, não um resultado testado: o estudo original avaliou apenas tomateiro em substrato com sal adicionado ao meio, e nenhuma fonte relata ensaio em sistema hidropônico.
Já existem alternativas para lidar com estresse salino no tomate no Brasil?
Sim. Produtores e pesquisadores brasileiros já usam ou estudam nanopartículas de cobre e de silício, aplicação foliar de silício convencional, ácido salicílico, biofertilizantes, bactérias promotoras de crescimento (linha da Embrapa Meio Ambiente) e o manejo cuidadoso da condutividade elétrica em hidroponia com água salobra, especialmente em sistemas NFT no semiárido nordestino.
Quando esse spray pode chegar ao mercado?
Não há previsão de disponibilidade comercial. O estudo está em estágio de publicação científica, e os próprios autores apontam a necessidade de validação em campo e de avaliação dos efeitos ambientais de longo prazo antes de qualquer etapa de comercialização. Além disso, o Brasil ainda não tem marco regulatório específico para nanoinsumos agrícolas.
A quitosana usada nesse tipo de tratamento pode ter origem brasileira?
Tecnicamente sim. O Brasil já tem produção industrial de quitosana a partir de resíduo de camarão e caranguejo, como a empresa cearense Polymar, incubada na Universidade Federal do Ceará, justamente na região do país mais afetada pela salinização do solo. Isso cria uma conexão de cadeia produtiva local, de economia circular, ainda não explorada por nenhuma cobertura de imprensa sobre esse estudo.
Quais os riscos ambientais do uso de nanopartículas na agricultura?
Os próprios pesquisadores citam a necessidade de avaliar, em pesquisas futuras, os efeitos de longo prazo sobre a saúde do solo e a segurança ambiental, incluindo a persistência das nanopartículas, o possível acúmulo no solo e a interação com microrganismos benéficos. Essas questões ainda não têm resposta definitiva na literatura científica.
Esse spray substitui a correção de solo salino, como drenagem e gessagem?
Não. O mecanismo do spray é dar à planta ferramentas bioquímicas para tolerar melhor o sal já presente, e não remover ou neutralizar o sal do solo. Práticas de correção do ambiente de cultivo, como drenagem, lavagem de sais e gessagem, continuam sendo abordagens complementares e distintas, voltadas ao solo, enquanto o spray atua sobre a fisiologia da planta.