Pesquisadores suecos descobriram que o morango silvestre carrega, em suas flores e frutos, fungos que atuam como guardas microbianos naturais, bloqueando o mofo cinzento antes que ele destrua a colheita. A descoberta, publicada pela Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU) em junho de 2026, abre uma nova fronteira na fitossanidade do morango, potencialmente sem fungicidas químicos.
Três fatos que o produtor brasileiro precisa conhecer:
| Dado | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Perda máxima por mofo cinzento no morango | até 90% | Agrolink / Embrapa |
| Redução de B. cinerea com A. pullulans no campo | 45% | Iqbal et al. 2022 |
| Mercado global de biofungicidas em 2030 | US$ 8,7 bilhões | GlobeNewswire, 2024 |
O fungo protagonista chama-se Aureobasidium pullulans, uma levedura melanizada que habita naturalmente as flores do morango silvestre (Fragaria vesca). Enquanto o Brasil movimenta R$ 735 milhões em biofungicidas por ano (safra 2024/25, crescimento de 41% em relação à safra anterior, segundo a Forbes Agro / ANPII Bio), nenhum produto à base dessa levedura tem registro confirmado no MAPA. Este artigo explica o mecanismo de ação, o que existe hoje para o produtor e o que esperar dos próximos anos.
O maior inimigo do morangueiro brasileiro
Botrytis cinerea Pers. é o patógeno mais economicamente destrutivo da cultura do morango no Brasil. Esse fungo necrotrófico invade tecidos em senescência, especialmente pétalas e estigmas florais, e se alastra rapidamente quando as condições ambientais favorecem o seu desenvolvimento.

A janela climática preferida do patógeno é específica: temperatura entre 14 °C e 16 °C combinada com alta umidade relativa. Essas condições ocorrem no inverno do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do sul de Minas Gerais, regiões que concentram a maior parte da produção nacional de morango. Segundo dados da Embrapa compilados pelo Agrolink, o mofo cinzento pode causar perdas de até 90% da produção, desde a lavoura até o ponto de venda.
"Botrytis cinerea é um fungo que pode causar perdas de até 90% na cultura do morango, tornando-se o principal gargalo fitossanitário da cadeia." Agrolink / Embrapa (s.d.)
Minas Gerais lidera a produção nacional com cerca de 55% do volume total: 184.900 toneladas em 3.600 hectares na safra de 2024, com produtividade de 51.300 kg/ha, segundo o Conecta Agro Brasil (2024). São Paulo (Atibaia e Campos do Jordão), Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Vacaria e Caxias do Sul) completam os polos mais expostos ao mofo cinzento no inverno.
Três fatores tornam o problema ainda mais urgente para quem busca alternativas ao controle químico:
| Fator | Detalhe |
|---|---|
| Resistência a fungicidas | B. cinerea desenvolve resistência múltipla com rapidez: grupos SDHI, anilinopirimidinas e benzimidazóis já têm resistência documentada em populações brasileiras |
| Custo do controle químico | Produtores convencionais aplicam fungicidas a cada 7 a 10 dias durante floração e frutificação, com residualidade que afeta o fruto fresco |
| Pressão orgânica | A produção orgânica de morango cresce em MG, SP, SC e RS, criando demanda por biofungicidas aprovados pela IN 17/2014 do MAPA |
Para quem cultiva morango em vaso, solo ou sistema protegido, o guia completo de plantio de morango apresenta as etapas de condução da cultura desde a escolha de cultivar. A fitossanidade começa no planejamento.
O que o morango silvestre guarda dentro de si
Fragaria vesca é o morango silvestre europeu e ancestral das cultivares comerciais modernas. Ao longo de milênios de coevolução com fungos, bactérias e insetos, essa espécie desenvolveu uma comunidade microbiana protetora extremamente diversa, que o morango cultivado perdeu em grande parte por conta da domesticação e do uso intensivo de agroquímicos.
Estudos comparativos de microbioma revelam a diferença com clareza. F. vesca silvestre abriga 61 OTUs (unidades taxonômicas operacionais) fúngicas distintas, sendo 12 comuns a todas as populações e 49 raras, adaptadas a condições locais específicas (Yokoya et al. 2017, PeerJ; Wang et al. 2024, Frontiers in Microbiology). O morango cultivado (F. × ananassa) apresenta comunidade muito mais uniforme e com menor proporção de fungos antagonistas capazes de inibir ou competir com patógenos.
Essa diferença tem consequência direta no campo. Um estudo publicado na PeerJ em 2025 comparou cultivares de morango com microbiomas endofíticos distintos: a 'White Elves', cultivar branca com comunidade mais rica em Trichoderma e Talaromyces, apresentou apenas 20% de incidência de Colletotrichum (antracnose). A cultivar 'Akihime', com microbioma menos diverso, atingiu 70% de incidência (Yang et al. 2025). O genótipo da planta hospedeira molda ativamente o microbioma protetor que ela é capaz de recrutar.
A lógica evolutiva é direta: plantas que sobreviveram séculos sem fungicidas o fizeram, em parte, porque selecionaram naturalmente fungos epifíticos e endofíticos com capacidade de defesa. O morango silvestre não é apenas um ancestral comestível. É um banco genético de defesa biológica que a agricultura moderna precisa redescobrir, e esse princípio fundamenta o Projeto WildCrop, detalhado adiante.
Aureobasidium pullulans: o guarda microbiano que a ciência redescobriu
Aureobasidium pullulans é uma levedura basidiomiceto melanizada, de coloração negra a olivácea, capaz de colonizar folhas, flores e frutos de diversas espécies vegetais. Já era conhecida como agente de biocontrole pós-colheita de uvas e maçãs na Europa. A novidade das pesquisas recentes é identificá-la como estratégia efetiva de proteção pré-colheita, aplicada diretamente no campo, nas flores do morangueiro.

O mecanismo de ação contra Botrytis cinerea opera em três frentes simultâneas, documentadas por Iqbal et al. (2022) e Iqbal et al. (2023):
1. Exclusão competitiva por espaço e nutrientes A levedura coloniza pétalas e estigmas antes que B. cinerea chegue, ocupando os nichos de infecção naturais do patógeno, especialmente as flores em senescência.
2. Produção de compostos antifúngicos Cepas silvestres produzem exofilinas e liamocinas, peptídeos lipídicos que rompem a membrana celular do fungo patogênico. Filtrados de A. pullulans reduziram a biomassa de B. cinerea em até 90% em ensaios in vitro (Iqbal et al. 2023).
3. Indução de resistência sistêmica localizada A interação levedura-planta estimula a produção de fenólicos e enzimas antifúngicas na epiderme do fruto, tornando o tecido naturalmente mais resistente à penetração.
Em ensaios de campo com vetorização por abelhas (sistema Flying Doctors da Biobest, em parceria com a SLU), a taxa de mofo cinzento caiu 45% e a vida pós-colheita dos frutos dobrou em relação ao controle sem inoculação (Iqbal et al. 2022). O sistema usa mamangavas (Bombus terrestris) que passam por um tabuleiro com pó de bioagente antes de entrar na estufa, depositando a levedura nas flores durante a polinização.
Na Europa, esse conhecimento já se traduz em produto. O Botector® (Bio-Ferm GmbH, distribuído pela Nufarm) é um biofungicida granulado com cepas DSM14940 e DSM14941 de A. pullulans, registrado para B. cinerea em uva, morango e tomate na União Europeia e no Canadá. No Brasil, nenhum produto com essa base tem confirmação de registro no AGROFIT/MAPA até julho de 2026.
O Projeto WildCrop: 200 populações, 3 países, 1 objetivo
O Projeto WildCrop (abril de 2025 a março de 2028) é uma pesquisa multi-institucional financiada pela rede BioDivErsa+, dentro do programa Horizon Europe, com orçamento de 880 mil euros. O consórcio é liderado pela SLU (campus Alnarp), sob coordenação do Prof. Johan Stenberg do Departamento de Proteção Integrada de Plantas, com participação da Universidade de Udine (Itália) e da Universidade de Málaga (Espanha).
A metodologia parte de uma premissa central: a variabilidade genética entre populações silvestres de Fragaria vesca contém uma biblioteca de soluções microbianas desenvolvidas ao longo de milênios. O projeto coleta morangos silvestres em mais de 200 populações europeias, abrangendo os climas escandinavo, mediterrâneo e alpino, para isolar as cepas de A. pullulans com a melhor combinação de colonização rápida e produção de compostos antifúngicos. Um segundo objetivo é identificar quais características genéticas das variedades comerciais modernas tornam as plantas boas hospedeiras para esses fungos.
"O objetivo é encontrar, entre as populações silvestres europeias, os fungos com as melhores estratégias de defesa e entender o que torna uma planta boa hospedeira para eles." SLU, Projeto WildCrop, junho de 2026
O contexto regulatório sueco deu urgência ao projeto: em 2025, a Agência Sueca de Químicos (KemI) restringiu pesticidas contendo PFAS (compostos per- e polifluoralquil), compostos persistentes no ambiente. Isso criou pressão imediata por alternativas biológicas na produção sueca de morango. O Brasil ainda não tem regulação equivalente para PFAS, mas a tendência global aponta na mesma direção, especialmente com a pressão crescente de mercados exportadores sobre resíduos em alimentos frescos.
Estado atual (junho de 2026): ensaios de campo em andamento no campus Alnarp, sem resultados quantitativos definitivos publicados em periódico revisado por pares até a data de produção deste artigo. O prazo de conclusão é março de 2028.
A ponte com o Brasil é relevante: as regiões frias de RS e SC têm invernos com temperatura e umidade similares aos da Suécia, onde B. cinerea causa as maiores perdas. Os resultados do WildCrop são potencialmente aplicáveis a esses polos brasileiros, ainda que a replicabilidade nos climas quentes de MG e SP exija ensaios adicionais.
O que há disponível agora para o produtor brasileiro
A pergunta mais prática para quem cultiva morango no Brasil hoje é: o que funciona contra B. cinerea sem fungicidas convencionais? A resposta é que há ferramentas disponíveis, mas ainda não a derivada de morangos silvestres.

Os produtos com registro no MAPA para B. cinerea em morango incluem formulações à base de Bacillus subtilis QST 713 (Serenade®) e Trichoderma spp. com múltiplos registros ativos. O dado de campo mais recente e relevante para o contexto brasileiro vem de Vacaria-RS: Minuzzo et al. (2020) testaram Bacillus amyloliquefaciens D747 (DoubleNickel®) a 1,0 kg/ha em morango semi-hidropônico e obtiveram controle efetivo de mofo cinzento, com desempenho superior ao B. subtilis QST 713. É o único paper em português com resultado quantitativo de campo publicado para o Brasil no período recente.
Na pesquisa laboratorial global, outras leveduras mostram potencial contra B. cinerea em morango, mas ainda sem produto comercial registrado no Brasil:
| Levedura | Eficácia (B. cinerea) | Mecanismo | Status no BR |
|---|---|---|---|
| Pichia kluyveri | 79% de inibição | VOCs antifúngicos (Zomerdijk et al. 2025) | Pré-comercial |
| Scheffersomyces spartinae | 77,8% inibição micelial; 67,4% redução de lesão | VOCs (Zou et al. 2023) | Laboratório |
| Suhomyces pyralidae | 56% de inibição | VOCs (Zomerdijk et al. 2025) | Pré-comercial |
| A. pullulans (Botector®) | 45% (campo, bee vectoring) | Exclusão + exofilinas + resistência | Registrado Europa/Canadá; sem registro BR confirmado |
Para o produtor que precisa de solução agora, o caminho é usar os biológicos registrados integrados a um protocolo de manejo consistente. O guia de pragas e doenças em hidroponia e cultivo protegido detalha o MIP aplicável a sistemas semi-hidropônicos, incluindo estratégias de controle biológico disponíveis no Brasil.
Quanto ao horizonte para A. pullulans chegar ao Brasil: o WildCrop termina em março de 2028. A trajetória regulatória europeia leva 2 a 4 anos adicionais. O processo de registro no MAPA acrescenta pelo menos mais 1 a 2 anos. Estimativa conservadora: um produto com base em cepas silvestres poderia chegar ao mercado nacional entre 2030 e 2033, dependendo do interesse de empresas como Koppert, Biobest ou Lallemand Plant Care em conduzirem o registro.
Implicações para o morangueiro orgânico brasileiro
O morango é uma das principais culturas onde a transição agroecológica esbarra em fitossanidade. Em MG, SP, SC e RS, produtores que buscam certificação orgânica encontram no mofo cinzento o obstáculo mais difícil de superar: o produtor convencional resolve o problema com rotação de fungicidas a cada 7 a 10 dias; o orgânico precisa de soluções preventivas efetivas aprovadas pela Instrução Normativa 17/2014 do MAPA.
Bacillus spp. e Trichoderma spp. já constam nessa lista e são o ponto de partida para qualquer protocolo biológico de controle do mofo cinzento. Quando um produto com A. pullulans for registrado no Brasil, o histórico regulatório europeu (status GRAS-equivalente na UE, LMR zero no fruto comercializável) sugere que ele também será aprovável para orgânicos.
Para os sistemas semi-hidropônicos de morango, comuns no RS e em SC, há uma oportunidade específica: a inoculação do substrato (fibra de coco ou espuma fenólica) com consortia microbianos protetores antes do transplante. Essa técnica, ainda experimental, permite estabelecer a comunidade protetora na rizosfera desde o início do ciclo. Aliada ao monitoramento de temperatura e umidade via sensores de precisão para agricultura, ela integra fitossanidade biológica com gestão de dados em tempo real.
Quatro erros críticos a evitar ao adotar biofungicidas no morango:
- Aplicar como resgate: A. pullulans e equivalentes são essencialmente preventivos. Aplicar depois que o fungo está estabelecido reduz drasticamente a eficácia.
- Ignorar a janela da flor: o ponto crítico de infecção de B. cinerea é a flor em senescência. A proteção precisa ocorrer nessa fase, antes dos frutos formados.
- Misturar com fungicidas de amplo espectro: fungicidas sistêmicos convencionais eliminam os bioprotetores aplicados junto; o intervalo mínimo entre aplicações é de 5 a 7 dias.
- Desconsiderar a temperatura: A. pullulans tolera variações térmicas, mas temperaturas acima de 35 °C, comuns em MG no verão, exigem formulações especiais ou aplicações nos períodos mais frios do dia.
"O segmento de biofungicidas movimentou R$ 735 milhões na safra 2024/25 no Brasil, crescimento de 41% em relação à safra anterior, representando 38% do volume total de biodefensivos entregues." Forbes Agro / ANPII Bio (2025)
Esse crescimento reflete tanto a pressão sobre os fungicidas convencionais quanto a maturação dos produtos biológicos registrados. Para a pesquisa brasileira nessa área, as principais instituições são a Embrapa Clima Temperado (Pelotas-RS), a UFLA (Lavras-MG) e a ESALQ-USP (Piracicaba-SP), cada uma com programas de fitossanidade em morango com capacidade de conduzir validações brasileiras de cepas de A. pullulans.
Tendências: bioproteção de morango até 2030
O mercado global de biofungicidas deve chegar a US$ 5 a 8,7 bilhões em 2030, com CAGR de 13 a 16% ao ano, segundo projeções da GlobeNewswire / Business Research Company (2024). No Brasil, o segmento de biopesticidas microbianos registrou 515 produtos no MAPA até dezembro de 2024, crescimento de 49,38% ao ano desde 2017 (Andreata et al. 2025, Frontiers in Microbiology).
| Tendência | O que esperar | Quando |
|---|---|---|
| Produto com cepas de A. pullulans silvestres (WildCrop) | Conclusão do projeto em 2028; registro BR dependente de interesse comercial | Brasil: 2030-2033 |
| Bee vectoring como serviço em estufas de morango | Bombus terrestris como vetor; chegada ao BR depende de registro no MAPA | 2027-2029 |
| Consortia microbianos (A. pullulans + Bacillus + Trichoderma) | Sinergismo em laboratório; produto único multi-mecanismo | 2 a 4 anos |
| Registro simplificado de micro-organismos de baixo risco | Lei nº 14.785/2023 abre caminho mais ágil para leveduras como A. pullulans | Imediato |
| Variedades de morango amigáveis ao microbioma | Melhoramento orientado para recrutar A. pullulans (IAC, Embrapa, UFLA) | 10+ anos |
A Lei nº 14.785/2023 é o ponto de maior impacto imediato: ela simplifica o registro de biopesticidas de baixo risco, criando uma faixa de aprovação mais ágil para micro-organismos cujo histórico de segurança alimentar na Europa já é extenso. Empresas de biológicos que acompanham o pipeline do WildCrop têm janela para iniciar o processo de registro nacional antes mesmo dos resultados finais do projeto.
Perguntas frequentes
O que é Aureobasidium pullulans e por que ele é importante para o morango?
Aureobasidium pullulans é uma levedura tipo fungo naturalmente presente nas flores e frutos de morangos silvestres (Fragaria vesca). Ela atua como guarda microbiana natural, colonizando os tecidos da planta antes que o mofo cinzento (Botrytis cinerea) se instale. Produz compostos antifúngicos (exofilinas e liamocinas) e compete por nutrientes e espaço com o patógeno. Em ensaios europeus, reduziu a incidência de mofo cinzento em 45% quando aplicada via vetorização por abelhas (Iqbal et al. 2022).
Essa pesquisa já tem aplicação prática no Brasil?
Ainda não de forma direta. O produto europeu Botector® (base de A. pullulans) não tem registro confirmado no AGROFIT-MAPA até julho de 2026. No Brasil, os biofungicidas disponíveis para B. cinerea em morango são à base de Bacillus amyloliquefaciens e Trichoderma spp. O projeto WildCrop da SLU vai até 2028 e um produto comercial baseado em cepas silvestres deve chegar ao mercado a partir de 2030.
O que é o Projeto WildCrop e como ele se relaciona com o morango brasileiro?
WildCrop é um projeto europeu (SLU + Univ. de Udine + Univ. de Málaga), financiado com 880 mil euros pela rede BioDivErsa+, que coleta morangos silvestres de mais de 200 populações para isolar fungos bioprotetores de alta variabilidade genética. As regiões frias de RS e SC têm invernos similares ao da Suécia, onde B. cinerea causa as maiores perdas, tornando os resultados potencialmente aplicáveis ao contexto brasileiro.
Quais produtos biológicos já estão disponíveis no Brasil para combater mofo cinzento em morango?
Produtos à base de Bacillus subtilis (Serenade®) e Bacillus amyloliquefaciens D747 (DoubleNickel®) estão disponíveis e foram testados no Brasil: o D747 mostrou controle efetivo em cultivo semi-hidropônico em Vacaria-RS (Minuzzo et al. 2020). Trichoderma spp. também tem múltiplos produtos registrados. Para o registro atualizado, consulte o AGROFIT em sistemasweb.agricultura.gov.br.
O morango orgânico pode usar esses fungos bioprotetores?
Sim, com a ressalva de que o produto precisa constar na lista de aprovados para agricultura orgânica (IN 17/2014, MAPA). Bacillus spp. e Trichoderma spp. já constam. A. pullulans ainda não tem produto registrado no Brasil, mas o histórico regulatório europeu é favorável: status GRAS-equivalente na UE e LMR zero no fruto comercializável.
Por que o morango silvestre tem mais fungos protetores do que o morango cultivado?
Séculos de domesticação e uso intensivo de agroquímicos empobreceram o microbioma do morango cultivado. A seleção artificial priorizou tamanho e sabor, não resistência microbiana. Fragaria vesca silvestre tem 61 OTUs fúngicas diversas contra uma comunidade muito mais uniforme no morango comercial (Yokoya et al. 2017; Wang et al. 2024).
Qual é o principal polo produtor de morango no Brasil e por que B. cinerea é especialmente grave lá?
Minas Gerais lidera com cerca de 55% da produção nacional (184.900 t em 3.600 ha, safra 2024), seguido de SP (Atibaia, Campos do Jordão), SC e RS. Nas regiões Sul e no sul de MG, o inverno com temperaturas de 14 a 16 °C e alta umidade é exatamente a faixa ótima para B. cinerea prosperar, coincidindo com o período de maior floração e frutificação do morangueiro.
Quando pode existir um produto comercial à base de fungos de morango silvestre no Brasil?
O projeto WildCrop vai até março de 2028. A trajetória regulatória europeia leva de 2 a 4 anos após a conclusão da pesquisa. O processo de registro no MAPA acrescenta pelo menos mais 1 a 2 anos. Estimativa conservadora: um produto com base em cepas silvestres de A. pullulans poderia chegar ao mercado nacional entre 2030 e 2033.
O fungo A. pullulans faz mal à saúde humana?
Não há evidência de risco. A. pullulans tem histórico de segurança extenso: é usado na produção de pullulana (polissacarídeo alimentar) e tem status equivalente ao GRAS (Generally Recognized as Safe) na União Europeia. Reguladores europeus e canadenses aprovaram o Botector® para morango, uva e tomate com LMR zero, o que é vantagem sobre fungicidas sintéticos.
Como funciona o sistema de bee vectoring para entrega do bioprotetor?
O sistema usa mamangavas (Bombus terrestris) como vetoras: as abelhas passam por um tabuleiro com pó de bioagente antes de entrar na estufa e depositam a levedura diretamente nas flores durante a polinização. A cobertura é precisa exatamente no ponto crítico de infecção de B. cinerea, sem gasto adicional de mão-de-obra. O sistema é comercializado pela Biobest (Flying Doctors®) na Europa e aguarda regulamentação de B. terrestris pelo MAPA para uso no Brasil.