Agro

    Greening dos Citros: Como o HLB Avança na Planta [2026]

    Um atlas microscópico de 2026 revela como o greening dos citros ataca folhas e raízes de formas distintas, com dados da safra e o manejo brasileiro.

    Sistema radicular reduzido e folhas amareladas de laranjeira com greening dos citros nas mãos de um agrônomo
    O greening destrói a raiz por fome de carbono enquanto amarela a folha, dois danos que nem sempre aparecem juntos.
    Agro17 min de leitura

    Um atlas microscópico publicado em julho de 2026 mudou a forma como pesquisadores entendem o greening dos citros, a doença mais destrutiva da citricultura mundial. O trabalho, assinado por Diann Achor, Camila Ribeiro, Jinyun Li e Nian Wang na revista Phytopathology, revelou que a bactéria causadora não ataca a planta de maneira uniforme: ela funciona como duas doenças simultâneas dentro da mesma laranjeira. Uma sufoca folhas e frutos por bloqueio da seiva, outra mata as raízes por falta de energia. Entender essa divisão é o que agora abre caminho para tratamentos desenhados tecido a tecido. Antes de detalhar essa descoberta, três números explicam por que ela importa tanto para o Brasil: a incidência da doença chegou a 47,63% das laranjeiras no cinturão citrícola paulista em 2025, a safra 2026/27 foi projetada com queda de 12,9% pela pressão do greening, e o país responde por cerca de 75% de todo o suco de laranja exportado no planeta.

    O que o atlas microscópico de 2026 revelou

    O greening dos citros, tecnicamente chamado de Huanglongbing (HLB), é uma doença bacteriana sistêmica que afeta o floema, o tecido que conduz a seiva elaborada, de todas as espécies e híbridos comerciais de citros. No Brasil, é causada principalmente pela bactéria Candidatus Liberibacter asiaticus (CLas) e, em menor grau, por Candidatus Liberibacter americanus, ambas transmitidas pelo inseto vetor psilídeo asiático dos citros (Diaphorina citri), segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Nenhuma das duas bactérias pode ser cultivada em laboratório, uma barreira histórica que tornou lento e caro qualquer teste de tratamento, já que só se podia observar seus efeitos em árvores adultas, ao longo de anos.

    O estudo de Achor e colaboradores (2026) atacou justamente esse ponto cego. Usando microscopia eletrônica de transmissão combinada com microscopia de luz, a equipe fotografou a ultraestrutura de múltiplos tecidos da planta em quatro momentos ao longo de um ano de infecção. O resultado é o que os autores chamam de "atlas", um mapa de referência de como cada parte da planta reage à presença da bactéria. E a conclusão central quebrou a ideia de que o HLB é uma doença única e homogênea.

    "O CLas desencadeia a morte de células do floema e a deposição de calose nos tecidos fotossintéticos, mas não, ou em grau muito menor, nos tecidos não fotossintéticos." Achor, Ribeiro, Li e Wang, Phytopathology (2026)

    Em outras palavras: nas folhas, na casca de ramos e no albedo do fruto, ou seja, onde há fotossíntese, a bactéria provoca morte de células e depósito de calose, uma substância que entope os canais de transporte de seiva. Já nas raízes e no tegumento da semente, onde não há fotossíntese, esse dano de floema quase não aparece. Ali o problema é outro: a raiz simplesmente fica sem açúcar para se sustentar.

    É importante registrar o que o estudo não é. Trata-se de pesquisa básica, um mapeamento de mecanismo biológico, e não de um tratamento pronto nem de uma cura. Os próprios autores deixam isso claro. O valor prático está em oferecer, pela primeira vez, um guia detalhado de referência que ajuda melhoristas a buscar variedades tolerantes e pesquisadores a desenhar terapias específicas para cada tipo de tecido, em vez de tratar a árvore como um bloco único. Para o produtor, a lição imediata é mais simples e desconfortável: a ausência de folha amarela não significa ausência de doença.

    Por que o greening é a maior ameaça da citricultura brasileira

    O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de suco de laranja, respondendo por aproximadamente 75% de todo o suco comercializado no planeta, um dado da Citrus Industry Magazine baseado em números do USDA e da CitrusBR. Isso transforma a saúde dos pomares paulistas e mineiros em questão de segurança econômica nacional, e faz do greening muito mais do que um problema agronômico regional.

    A doença não é nova por aqui. Foi detectada pela primeira vez no Brasil em 2004, na região de Araraquara, coração do cinturão citrícola de São Paulo. De lá para cá, avançou de forma persistente. Segundo o Fundecitrus, o Fundo de Defesa da Citricultura, a combinação de alta capacidade de contágio, ausência de cura e poder destrutivo sobre a longevidade produtiva dos pomares faz do HLB "a doença mais grave que afeta a citricultura em escala mundial".

    O avanço geográfico preocupa tanto quanto a incidência. Além de São Paulo, há ocorrência confirmada em Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Goiás. Em 2026, o marco mais simbólico foi a confirmação do primeiro caso de greening no Rio Grande do Sul, em um pomar doméstico no município de Palmitinho, que mobilizou o MAPA e a Secretaria da Agricultura estadual para vigilância e erradicação. Esse episódio ilustra um risco frequentemente subestimado: plantas cítricas de quintal e a murta ornamental (Murraya paniculata), comum em cercas-vivas e jardins, são hospedeiras do psilídeo vetor e funcionam como fontes de inóculo silenciosas perto de pomares comerciais.

    Diante da pressão crescente, parte da citricultura tem migrado de áreas de alta incidência para regiões onde a doença ainda pressiona menos, como Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. É uma fuga geográfica que, na prática, redesenha o mapa produtivo brasileiro e reforça por que o controle precisa ser coordenado, e não planta a planta.

    Como a doença avança dentro da planta, tecido a tecido

    Aqui está o cerne da descoberta de 2026, traduzido para linguagem prática. A planta doente segue dois roteiros de destruição que correm em paralelo, e é por isso que sintomas de copa e declínio de raiz nem sempre aparecem sincronizados no campo.

    Sistema radicular reduzido e folhas amareladas de laranjeira com greening dos citros nas mãos de um agrônomo
    O greening destrói a raiz por fome de carbono enquanto amarela a folha, dois danos que nem sempre aparecem juntos.
    Tipo de tecidoOnde fica na plantaO que a bactéria causaConsequênciaSintoma visível
    FotossintéticoFolhas, casca de ramos e tronco, albedo do fruto, pediceloMorte de células do floema e deposição de calose, que bloqueia o transporte de seivaAcúmulo de amido na folha e degradação dos cloroplastosMosqueamento amarelo assimétrico, frutos pequenos e deformados, queda prematura
    Não fotossintéticoRaízes, tegumento da sementePouco ou nenhum dano de floema e caloseFome de carbono, com esgotamento das reservas de amidoPerda de raízes finas, definhamento geral e morte da árvore

    No primeiro roteiro, a bactéria mata células do floema das folhas e provoca a deposição de calose, que age como uma rolha nos canais de seiva. Com o transporte bloqueado, o açúcar produzido na fotossíntese não consegue descer para o resto da planta e se acumula na própria folha, sob a forma de amido. Esse excesso de amido degrada os cloroplastos, as estruturas responsáveis pela cor verde e pela fotossíntese, e o resultado visível é o mosqueamento amarelo assimétrico tão característico do greening, além de frutos pequenos, tortos e de sabor comprometido.

    No segundo roteiro, a raiz sofre por um motivo oposto e cruel: como o açúcar ficou preso lá em cima, na copa, ele nunca chega em quantidade suficiente à raiz. O sistema radicular passa fome de carbono, esgota suas reservas de amido e começa a apodrecer, perdendo primeiro as raízes finas responsáveis pela absorção de água e nutrientes. Referências internacionais de manejo, como o guia de produção da Universidade da Flórida, indicam perdas de 30% a 50% do sistema radicular nas fases iniciais, chegando a mais de 70% no declínio avançado. Uma árvore com raiz comprometida definha mesmo que receba adubação, porque não consegue absorver o que está no solo.

    Esse é o insight prático mais valioso do atlas: quem inspeciona só a copa pode subestimar gravemente o estágio real da infecção, porque o dano na raiz por fome de carbono pode preceder ou acompanhar os sintomas foliares. Combater o greening exige olhar a planta inteira, e não apenas as folhas.

    Os números da safra 2025/26 e 2026/27

    O impacto econômico do greening ficou explícito na sequência de revisões da estimativa de safra feita pelo Fundecitrus para o cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro. Mesmo em um ano de clima favorável, os números só caíram, revisão após revisão, à medida que a doença cobrava seu preço.

    Momento da estimativaVolume (caixas de 40,8 kg)O que puxou o número
    Estimativa inicial (mai/2025)314,60 milhõesClima favorável e novo censo de árvores produtivas
    Reestimativa306,74 milhõesMaior severidade do greening associada ao clima
    Fechamento da safra 2025/26292,94 milhõesConsolidação dos efeitos do greening e do clima
    Previsão da safra 2026/27255,20 milhõesMaior pressão do greening

    A previsão para 2026/27, de 255,20 milhões de caixas, representa queda de 12,9% em relação à safra anterior e de 14,7% em relação à média das dez safras anteriores. A atribuição é direta, segundo o diretor-executivo do Fundecitrus, Juliano Ayres: a maior pressão do greening. Os dados de incidência da própria entidade sustentam o diagnóstico.

    Segundo o Fundecitrus, no Levantamento de Doenças 2025, a incidência de greening chegou a 47,63% das laranjeiras no cinturão citrícola em 2025, alta em relação aos 44,35% de 2024, com severidade média de 22,7%, esta última no quarto ano consecutivo de alta.

    O levantamento, feito com amostragem em 1.777 talhões entre maio e julho de 2025, estima que cerca de 100 milhões de árvores, de um total de 209 milhões no cinturão, já estejam infectadas. Alguns municípios beiram a saturação: Limeira registrou 79,9% de incidência, Porto Ferreira 70,6% e Avaré 69,2%. A queda de frutos atribuída ao greening saltou de 3,1% na safra 2021/22 para 9,1% na safra 2024/25, respondendo hoje por mais da metade de toda a queda pré-colheita.

    Vale uma ressalva de leitura de dados. O USDA, em relatório de janeiro de 2026, projeta uma safra brasileira maior, em torno de 330 milhões de caixas. A diferença não é contradição, é escopo: o USDA estima a produção nacional inteira, enquanto o Fundecitrus mede apenas o cinturão de São Paulo e Triângulo Mineiro, que concentra a maior parte da área. Ambas as fontes são confiáveis dentro dos seus recortes. Do lado da receita, apesar de o volume de suco exportado ter se mantido praticamente estável na safra 2025/26, a receita das exportações caiu cerca de 30%, pela retração da demanda global e pelo recuo de 10,9% nas compras europeias.

    O tripé de manejo que funciona no Brasil

    Como não existe cura, o combate ao greening se apoia em um tripé validado cientificamente por Bassanezi e colaboradores (2020): mudas certificadas livres da doença, controle rigoroso e regional do psilídeo vetor, e inspeção sistemática com eliminação de plantas sintomáticas. A boa notícia é que esse tripé funciona, e o Brasil é a prova viva disso.

    Técnico agrícola inspecionando folhas de laranjeira em pomar comercial para detectar greening dos citros
    A inspeção sistemática e a eliminação de plantas doentes são a espinha dorsal do manejo brasileiro do HLB.

    Uma revisão publicada na Annual Review of Phytopathology (2024) comparou diretamente as duas maiores citriculturas do mundo e chegou a uma conclusão contundente.

    "São Paulo teve relativamente pouca perda geral de produção ao aplicar rigorosamente o manejo integrado, enquanto a Flórida, que adotou as mesmas recomendações de forma menos disciplinada, sofreu redução de aproximadamente 80% na produção anual." Graham, Bassanezi, Dawson e Dantzler, Annual Review of Phytopathology (2024)

    A diferença, segundo os autores, não estava nas ferramentas disponíveis, que eram praticamente as mesmas, mas na disciplina e na coordenação regional com que foram aplicadas. Veja como funciona cada perna do tripé na prática:

    PráticaQuando aplicarComo executar
    Inspeção de pomarA partir do 2º ano, no mínimo 4 vezes por anoVistoria de todas as plantas e eliminação imediata das sintomáticas, sem indenização
    Controle químico do psilídeoNos fluxos de brotação, com pico entre fim de inverno e primaveraRotação de grupos químicos para evitar resistência e aplicação bem calibrada, com boa cobertura foliar
    Controle biológicoEm pomares abandonados, quintais e plantas de murtaLiberação do parasitoide Tamarixia radiata, de 200 a 3.200 vespas por hectare
    Manejo regionalEm toda a microrregião, de forma coordenadaRedução simultânea de fontes de inóculo em raio de até 5 km

    O erro mais caro é o controle isolado. Um produtor que combate o psilídeo sozinho, sem sincronia com os vizinhos, colhe eficiência muito inferior à do manejo coordenado, porque o inseto simplesmente volta das áreas não tratadas ao redor. O controle biológico com a vespa Tamarixia radiata, descrito em estudo de 2023 na Neotropical Entomology, é justamente uma resposta a esses focos que escapam do controle químico, como pomares abandonados, quintais e a murta ornamental. Muitos desses princípios de monitoramento contínuo e ação preventiva se estendem a qualquer sistema produtivo, um tema que também abordamos no guia sobre pragas e doenças em cultivo protegido.

    Genética e biotecnologia: a busca por tolerância

    Se não há cura, a ciência aposta em outra frente: fazer a planta conviver melhor com a bactéria. Hoje, a principal ferramenta genética disponível é a tolerância diferencial por porta-enxerto, a parte da planta que forma a raiz. Ela não elimina a bactéria, mas reduz a severidade dos danos e prolonga a vida produtiva do pomar.

    Porta-enxertoOrigemTolerância ao HLBDestaque
    Limão 'Cravo'Tradicional, dominante nos plantiosBaixa a moderadaVigoroso, mas hoje considerado sub-ótimo frente ao HLB
    Citrandarin 'Índio'Híbrido de Citrus sunki com Poncirus trifoliata, da EmbrapaMaior tolerância relativaResistente à gomose e tolerante a seca e frio
    Citrandarins 'Riverside' e 'San Diego'Híbridos similaresAvaliada em campoInduzem porte menor, o que favorece o adensamento
    Citrumelo 'Swingle'Híbrido de pomelo com PoncirusModeradaReferência frequente em ensaios comparativos

    Os citrandarins, híbridos de tangerina Sunki com Poncirus trifoliata desenvolvidos pelo Instituto Agronômico (IAC) e pela Embrapa, são a aposta mais consolidada. A cultivar 'Índio', por exemplo, combina maior tolerância relativa com resistência à gomose de Phytophthora e boa adaptação a seca e frio, segundo a Embrapa. Nenhum deles confere resistência total, é importante frisar, mas atrasar o declínio já muda a conta do produtor.

    No horizonte de médio prazo estão ferramentas mais ousadas. O CCD-CROP, sediado no IAC de Campinas, trabalha em três linhas simultâneas: avaliação de citros geneticamente modificados em campo, edição genômica via CRISPR para reduzir a resposta imune excessiva da planta à bactéria, e seleção de porta-enxertos que induzam porte menor para pomares mais adensados. O Fundecitrus, por sua vez, mantém desde cerca de 2013 uma parceria com o pesquisador Leandro Peña, do Instituto Valenciano de Investigaciones Agrárias, na Espanha, para transgenia, e opera uma estufa de biotecnologia com laboratório credenciado pela CTNBio.

    O músculo financeiro dessa pesquisa é considerável. O CPA Citros, convênio entre a Fapesp, a ESALQ/USP e o Fundecitrus, recebeu aporte de R$ 90 milhões para cinco anos e reúne pesquisadores de USP, UFSCar, Unicamp, Unesp, IAC, Embrapa e Instituto Biológico, além de parceiros internacionais da França, Espanha, Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Portugal. A comercialização de plantas editadas por CRISPR ainda está distante, pois depende de aprovação regulatória de organismos geneticamente modificados, mas os porta-enxertos citrandarins de nova geração já entram em uso comercial parcial.

    Novas tecnologias de diagnóstico e triagem

    O gargalo histórico da pesquisa contra o HLB sempre foi o tempo. Como a bactéria não cresce em laboratório e a árvore de citros leva anos para revelar sintomas, testar um novo composto terapêutico era um processo lento e caríssimo. Três inovações recentes atacam exatamente essa lentidão.

    Drone agrícola sobrevoando pomar de laranja para detecção remota do greening dos citros
    Drones com sensores multiespectrais e inteligência artificial já mapeiam focos de HLB com até 89% de acurácia.

    A primeira é brasileira e saiu do Fundecitrus. Descrita em artigo de 2026 na Scientific Reports, a plataforma de estaca de cidra (Citrus medica) permite enraizar estacas infectadas e testar candidatos a tratamento em escala reduzida, em semanas ou meses, em vez de esperar anos por uma árvore adulta. Foi usada, como prova de conceito, para avaliar o antibiótico oxitetraciclina. Vale a ressalva dos próprios autores: é uma ferramenta para acelerar a triagem pré-clínica de compostos, não um produto para o produtor aplicar na safra atual.

    A segunda frente é a detecção por drones com inteligência artificial. Modelos de redes neurais convolucionais, treinados para reconhecer assinaturas do HLB em imagens aéreas, já atingem até 89% de acurácia em estudos recentes na classificação de árvores infectadas. No Brasil, a startup de agricultura de precisão VetorGEO, em parceria com a israelense Agrowing, desenvolve sensores multiespectrais para detectar precocemente essas assinaturas em pomares cítricos. Essa lógica de monitorar plantas com sensores e dados em tempo real é a mesma que orienta a agricultura de precisão em qualquer cultivo, um assunto que aprofundamos no guia de automação e sensores com ESP32. Ainda assim, a literatura reconhece que a detecção remota do HLB continua sendo um desafio, porque a variação de manejo e de severidade entre pomares confunde os modelos.

    A terceira novidade é a injeção de baixo volume no tronco. A tecnologia "Trecise", da Invaio Sciences, ganhou uma parceria com o Fundecitrus anunciada em janeiro de 2026 e promete reduzir as taxas de aplicação de defensivos em até 90% ao entregar o produto diretamente no sistema vascular da planta. Está em fase de avaliação e lançamento no Brasil.

    O elo de tudo isso com o universo do cultivee é o viveiro telado. A produção de mudas certificadas em ambiente protegido, com tela antiafídica que impede o contato do psilídeo com as plantinhas, é a primeira e mais eficaz barreira contra a entrada do greening em novos plantios. Na prática, é uma aplicação de agricultura em ambiente controlado à fitossanidade de citros, o mesmo princípio de isolar o cultivo das ameaças externas que sustenta a hidroponia e as fazendas verticais.

    O que ainda não sabemos: limites da ciência atual

    A honestidade sobre o que a ciência ainda não resolve é parte da credibilidade deste tema. Três ressalvas merecem destaque para quem lê sobre o assunto em 2026.

    Primeiro, o atlas microscópico de 2026 é pesquisa básica, não um remédio. Ele descreve com precisão inédita como a doença avança, mas não apresenta cura nem tratamento comercial pronto. Seu valor é orientar o desenvolvimento futuro de terapias e variedades, um passo intermediário e não o desfecho.

    Segundo, a detecção remota por drones e sensores ainda tropeça na variabilidade do campo real. Os 89% de acurácia citados vêm de condições de estudo, e a própria literatura admite que reconhecer o HLB à distância continua difícil quando manejo, idade das plantas e severidade da infecção variam de pomar para pomar.

    Terceiro, os grandes números de mercado global de laranja, como as projeções de crescimento anual em torno de 4,35% até 2031 divulgadas por consultorias privadas, devem ser lidos com cautela. São estimativas produzidas com metodologias proprietárias, que não são auditáveis publicamente, e servem como sinalização de tendência, não como estatística oficial. Já os dados de safra do Fundecitrus, do USDA e do IBGE, esses sim baseados em amostragem e censo transparentes, são a referência sólida para dimensionar o problema. Uma nota final de leitura: o IBGE mede a produção por ano-calendário, enquanto Conab e Fundecitrus usam o ano-safra, o que exige atenção antes de comparar números das três fontes diretamente.

    O quadro geral é claro. O greening segue sem cura, avançando ano a ano, mas o Brasil demonstrou que manejo disciplinado e coordenado mantém a citricultura de pé onde outros países sucumbiram. E, com o atlas de 2026, a ciência ganhou pela primeira vez um mapa detalhado do inimigo dentro da planta, um ponto de partida para as soluções que ainda virão.

    Perguntas frequentes

    O que é o greening dos citros e qual bactéria causa a doença?

    O greening, ou HLB (Huanglongbing), é uma doença bacteriana sistêmica dos citros causada no Brasil principalmente pela bactéria Candidatus Liberibacter asiaticus, transmitida pelo psilídeo Diaphorina citri. Não há cura, e a única resposta possível é o manejo integrado, segundo o MAPA e o Fundecitrus.

    Como o novo atlas microscópico de 2026 muda o que sabemos sobre o HLB?

    O estudo de Achor e colaboradores, publicado na revista Phytopathology em 2026, mapeou por microscopia como a bactéria afeta de formas distintas os tecidos fotossintéticos (folha, casca e fruto, com dano de floema e calose) e os não fotossintéticos (raiz e semente, com fome de carbono). Isso esclarece a ordem dos danos e pode orientar tratamentos e melhoramento genético direcionados por tecido.

    O greening tem cura?

    Não. Nem o atlas de 2026 nem qualquer pesquisa disponível apresenta cura comercial. O manejo se baseia em prevenção com mudas certificadas, controle do inseto vetor e eliminação de plantas doentes.

    Qual a incidência atual do greening no Brasil?

    No cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro, a incidência chegou a 47,63% das laranjeiras em 2025, com severidade média de 22,7%, o quarto ano consecutivo de alta, segundo o Levantamento de Doenças do Fundecitrus.

    Como o greening afeta a produção de laranja e suco no Brasil?

    A previsão da safra 2026/27 no cinturão paulista e mineiro caiu 12,9% em relação à safra anterior, para 255,20 milhões de caixas, atribuída pelo Fundecitrus à maior pressão do greening. O custo de controle da doença já representa de 5% a 15% do custo total de produção, dependendo da região.

    Existem variedades de citros resistentes ao greening?

    Não há resistência total comprovada em variedades comerciais, mas existem porta-enxertos com tolerância relativa, como os citrandarins (híbridos de tangerina Sunki com Poncirus trifoliata, a exemplo da cultivar 'Índio'), desenvolvidos pelo IAC e pela Embrapa, que reduzem a severidade dos danos sem eliminar a infecção.

    O que é o psilídeo e por que ele é o alvo principal do controle?

    O Diaphorina citri é o inseto vetor que transmite a bactéria do greening entre plantas ao se alimentar da seiva do floema. Como não há cura para a planta infectada, controlar a população do psilídeo por meios químicos, biológicos e culturais é a principal forma de frear a disseminação da doença.

    Como funciona o controle biológico do greening?

    O parasitoide Tamarixia radiata é liberado principalmente em pomares abandonados, quintais e plantas de murta ornamental, onde o controle químico normalmente não é feito, reduzindo os focos de multiplicação do psilídeo que reinfestam pomares comerciais vizinhos.

    O Brasil está lidando melhor com o greening do que outros países?

    Comparativamente, sim. Segundo revisão de 2024 na Annual Review of Phytopathology, São Paulo manteve pouca perda geral de produção ao aplicar com rigor o tripé de manejo, enquanto a Flórida, que adotou as mesmas recomendações de forma menos disciplinada, sofreu queda de cerca de 80% na produção anual.

    Quais tecnologias novas estão sendo testadas contra o greening?

    Entre elas estão a detecção por drones com inteligência artificial (até 89% de acurácia em estudos recentes), uma plataforma brasileira de triagem rápida de tratamentos com estacas de cidra desenvolvida pelo Fundecitrus em 2026, a edição genômica CRISPR para reduzir a resposta imune excessiva da planta e sistemas de injeção de baixo volume no tronco.

    O greening já chegou a outros estados além de São Paulo?

    Sim. Além de São Paulo, há ocorrência confirmada em Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Goiás, e em 2026 foi confirmado o primeiro caso em um pomar doméstico no Rio Grande do Sul, no município de Palmitinho.

    Qual a relação entre viveiros telados e a prevenção do greening?

    A produção de mudas certificadas em ambiente protegido, com tela antiafídica, é a principal barreira contra a entrada do HLB em novos plantios, pois impede o contato do material de propagação com o psilídeo vetor. É, na prática, uma forma de agricultura de ambiente controlado aplicada à fitossanidade de citros.

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