Um peptídeo que a pele de um sapo do Cerrado usa há milhões de anos para se defender de bactérias e fungos acaba de ser testado, pela primeira vez, como conservante de morango. Cientistas da UNESP e da Universidade de Brasília (UnB), com apoio da FAPESP, mostraram que cinco minutos de imersão nesse peptídeo mantiveram morangos orgânicos firmes, doces e maduros por 5 dias sob refrigeração a 5 °C, prazo longo para uma fruta que costuma estragar em pouquíssimos dias. A descoberta virou notícia no Brasil inteiro, mas quase nenhuma reportagem explicou o que realmente foi feito, como a molécula age ou o que ainda falta para ela sair do laboratório.
Este artigo faz esse trabalho. Vamos destrinchar o experimento, a origem da molécula na ciência brasileira de peptídeos, o mecanismo que a torna diferente de um conservante químico, o tamanho real do problema que ela ataca (as perdas pós-colheita de frutas e hortaliças chegam a 40% a 50% no Brasil, segundo a FAO) e como essa novidade se compara às tecnologias que produtores e pesquisadores já usam. Também deixamos claro, com transparência, o que ainda é incerto: trata-se de um teste de bancada, com poucas amostras, longe ainda de um produto de prateleira.
A descoberta: o que os cientistas realmente fizeram
O estudo aplicou um peptídeo antimicrobiano sintético, batizado de Ctx(Ile21)-Ha, em morangos orgânicos da variedade Oso Grande para avaliar se ele preservava a qualidade da fruta durante o armazenamento pós-colheita. A metodologia foi direta: amostras de cerca de 300 gramas de morango foram imersas por 5 minutos em uma solução do peptídeo e depois levadas à refrigeração a 5 °C, com avaliações feitas em triplicata ao longo de seis dias. Os resultados foram publicados por Brandão e colaboradores (2026) na revista científica Applied Food Research.

O que os pesquisadores mediram foram parâmetros físico-químicos e bioquímicos que definem a qualidade comercial do morango: firmeza da polpa, teor de açúcares (sólidos solúveis), acidez e a integridade geral do fruto. A conclusão foi que o tratamento ajudou a manter as características do morango maduro por cinco dias, um período que o coordenador do estudo classificou como longo para uma fruta tão perecível.
"Somente o peptídeo, sem nenhum outro tipo de componente, manteve as características da fruta madura após cinco dias, o que, para um morango, é um tempo longo de armazenamento. Não esperávamos tanto." Eduardo Festozo Vicente, UNESP campus de Tupã, à Agência FAPESP (2026)
Vale entender a escala do experimento antes de qualquer entusiasmo. Estamos falando de um ensaio de bancada com poucas centenas de gramas de fruta, conduzido em ambiente controlado, e não de um teste em galpão de embalagem, câmara fria comercial ou gôndola de supermercado. A imersão testada se encaixaria como um tratamento adicional na etapa de pós-colheita, feito antes do resfriamento, e não substitui a cadeia de frio: ela a complementaria. É por isso que o próprio grupo de pesquisa trata o resultado como um ponto de partida promissor, não como uma solução pronta.
O morango foi escolhido justamente por ser um caso extremo. Delicado, de casca fina e alta taxa de respiração, ele concentra os piores gargalos da conservação de frutas frescas. Quem cultiva a fruta em casa já conhece o dilema de colher no ponto certo e ver o excedente amolecer em dois ou três dias, tema que exploramos no guia como plantar morango em casa e em vaso. Se uma tecnologia funciona no morango, há boa chance de funcionar em frutas mais resistentes.
A rã do Cerrado e a ciência brasileira de peptídeos
Para entender de onde veio o Ctx(Ile21)-Ha, é preciso voltar a 2008 e a um sapo arborícola do Cerrado brasileiro, o Boana albopunctata (antes classificado como Hypsiboas albopunctatus), conhecido popularmente como perereca-manteiga. Como todo anfíbio, ele vive em ambiente úmido e cheio de micro-organismos, e sua pele secreta moléculas de defesa que funcionam como uma primeira barreira imune. Foi dessa pele que pesquisadores da UnB isolaram a Hylin a1, descrita por Castro e colaboradores (2008) na revista Peptides como a primeira molécula citolítica identificada nessa espécie.
A Hylin a1 é um peptídeo antimicrobiano, ou seja, uma cadeia curta de aminoácidos que ataca bactérias e fungos. A partir dela, químicos e bioquímicos brasileiros passaram anos produzindo versões modificadas em laboratório, buscando moléculas mais estáveis e mais ativas. O Ctx(Ile21)-Ha é justamente uma dessas versões: um análogo sintético em que o aminoácido da posição 21 foi trocado por isoleucina, alteração feita para melhorar a atividade biológica da molécula original. Essa estratégia de substituir aminoácidos ponto a ponto é rotina na bioquímica de peptídeos.
Essa linha de pesquisa não é obra de um único laboratório nem de um único projeto. Ela reúne três núcleos brasileiros que trabalham em rede há mais de quinze anos:
| Instituição | Papel na cadeia de pesquisa | Pesquisador(a) de referência |
|---|---|---|
| UnB, Centro Brasileiro de Pesquisa em Proteínas / Toxinologia | Isolamento e caracterização original do peptídeo da pele do sapo | Mariana S. Castro |
| UNESP Araraquara, Instituto de Química | Síntese química e estudos de estrutura e mecanismo | Eduardo M. Cilli |
| UNESP Tupã, Escola de Engenharia e Ciências | Coordenação do estudo de aplicação no morango | Eduardo Festozo Vicente |
A construção da molécula pode ser acompanhada como uma linha do tempo. Em 2008 veio o isolamento da Hylin a1 na UnB. Em 2012, o grupo detalhou o mecanismo de ação do derivado Ctx-Ha. Entre 2013 e 2022, vieram estudos estruturais aprofundados e testes em aplicações bem diferentes, de ração animal a nanomedicina. Só em 2026 a molécula chegou ao morango. Reconhecer essa trajetória importa porque mostra que a aplicação na fruta não é um achado isolado de sorte, mas o desdobramento de uma plataforma científica madura, financiada de forma continuada pela FAPESP por meio de quatro processos distintos entre 2016 e 2022.
Como o peptídeo age contra a deterioração
Peptídeos antimicrobianos de pele de anfíbio compartilham duas propriedades que explicam seu poder: são catiônicos (têm carga elétrica positiva) e anfipáticos (possuem uma face que gosta de gordura e outra que gosta de água). Essa combinação faz com que a molécula seja atraída pela membrana de bactérias e fungos, que costuma ter carga negativa na superfície, e consiga se encaixar nessa membrana rompendo-a. O resultado é a lise, ou seja, o esvaziamento e a morte da célula microbiana. Esse mecanismo foi descrito para o Ctx-Ha por Cespedes e colaboradores (2012) na Protein & Peptide Letters.
A diferença em relação a um antibiótico tradicional é fundamental. A maioria dos antibióticos age por uma via bioquímica específica, bloqueando uma enzima ou uma etapa do metabolismo do micro-organismo. Como esse alvo é único e definido, a bactéria pode acumular uma mutação que o modifica e, assim, desenvolver resistência. O peptídeo age de outro jeito: ele ataca fisicamente a membrana, uma estrutura que o micro-organismo não consegue redesenhar com facilidade sem comprometer sua própria sobrevivência. Por isso peptídeos antimicrobianos são estudados no mundo todo como uma alternativa promissora justamente em cenários de resistência aos remédios convencionais.
No caso do morango, o raciocínio é o seguinte: boa parte da deterioração da fruta vem da ação de fungos e bactérias que se instalam na superfície e avançam para a polpa, causando podridão e mofo (o Botrytis cinerea, o famoso mofo cinzento, é o vilão clássico). Ao cobrir o fruto com uma solução que rompe a membrana desses micro-organismos, o peptídeo reduz a carga microbiana que dispara o apodrecimento, dando à fruta mais tempo de prateleira. Ele atua, portanto, na frente microbiológica da conservação, complementando o efeito do frio, que reduz a respiração e o metabolismo da própria fruta.
É importante frisar que o estudo mediu a manutenção da qualidade físico-química ao longo do tempo, e a ação sobre micro-organismos é o mecanismo esperado com base na literatura sobre esse tipo de molécula. Traduzir esse mecanismo em números de redução de contaminação específica no morango é parte do trabalho de validação que ainda precisa avançar.
O tamanho do problema: perdas pós-colheita no Brasil
Nenhuma reportagem sobre o peptídeo dimensionou o problema que ele tenta atacar, e ele é gigantesco. O Brasil desperdiça uma parcela enorme das frutas e hortaliças que produz justamente na etapa entre a colheita e o consumo. Segundo a FAO, citada pela Embrapa, as perdas pós-colheita de frutas e hortaliças no país ficam na faixa de 40% a 50%. Um estudo clássico publicado na Horticultura Brasileira por Vilela e colaboradores (2003), disponível no SciELO, estimou perdas médias de 35% a 40% em hortaliças no Brasil, contra cerca de 10% nos Estados Unidos.

Segundo Vilela e colaboradores (2003), na Horticultura Brasileira, disponível no SciELO, a safra de 2001 perdeu mais de 5 milhões de toneladas de frutas e hortaliças no Brasil, um prejuízo estimado em cerca de US$ 1,026 bilhão, refletindo o desperdício de recursos naturais, trabalho e renda ao longo da cadeia.
Traduzir isso em consequências práticas ajuda a entender por que o tema é urgente. Quando quase metade de uma safra de fruta se perde antes de chegar ao prato, todo o custo embutido na produção vai junto: a água, o adubo, a mão de obra, o combustível do transporte e a energia da refrigeração. Do ponto de vista da segurança alimentar, é comida que poderia alimentar pessoas e simplesmente vira lixo. Do ponto de vista ambiental, é emissão e uso de recursos sem contrapartida. Por isso reduzir perdas pós-colheita virou pauta de política pública, com o MAPA e a ONU/FAO no Brasil tratando o desperdício de frutas e hortaliças como problema estratégico.
O morango é o retrato ampliado desse gargalo. Por ser uma fruta não climatérica, ele não amadurece depois de colhido, e sua casca fina e alta taxa metabólica o tornam extremamente vulnerável a machucados, desidratação e ataque de fungos. Na prática, o produtor tem uma janela de poucos dias para colher, resfriar, transportar e vender. Qualquer atraso na cadeia de frio ou qualquer excesso de manuseio se traduz em fruta amolecida, mofada e invendável. É esse gargalo curto e caro que uma tecnologia como o peptídeo tenta alargar, ganhando alguns dias preciosos que podem representar a diferença entre lucro e prejuízo em cada safra.
Para o produtor, reduzir perdas não é detalhe: é margem. Todo morango perdido depois da colheita já consumiu 100% do custo de produção sem gerar nenhuma receita, o que torna a conservação um dos fatores mais sensíveis da viabilidade econômica da produção comercial.
Como o peptídeo se compara às alternativas já usadas
O peptídeo de sapo não chega a um terreno vazio. Existem várias tecnologias pós-colheita para morango, algumas já consolidadas na prática comercial e outras em pesquisa, e situar a novidade entre elas é essencial para não superestimar o que ela representa hoje. A tabela abaixo reúne as principais, com o princípio de ação, o ganho reportado e o estágio de maturidade de cada uma.
| Tecnologia | Princípio de ação | Ganho reportado | Estágio |
|---|---|---|---|
| Peptídeo Ctx(Ile21)-Ha (imersão) | Ruptura da membrana de micro-organismos | Qualidade mantida por 5 dias a 5 °C (300 g, triplicata) | Bancada / laboratório |
| Revestimento de quitosana + antioxidante de romã | Barreira física somada à ação antimicrobiana | Menos 11% de perda de massa em 12 dias; mofo adiado de 4 para 6 a 8 dias | Bancada, com pedido de patente |
| Atmosfera modificada (controle de O₂ e CO₂) | Reduz respiração e crescimento de fungos | Prolonga a vida útil (número não consolidado) | Uso comercial pontual |
| Cloreto de cálcio (imersão) | Reforça a parede celular via pectina | Melhora a manutenção da massa fresca | Testado academicamente |
| Ozônio | Ação antimicrobiana por oxidação | Mantém a qualidade pós-colheita | Experimental |
| Resfriamento rápido e câmara fria | Reduz respiração e transpiração pelo frio | Prática padrão da cadeia | Comercial consolidado |
O comparativo mais interessante é com um estudo quase gêmeo. No início de 2025, um grupo do IQSC-USP, da Embrapa Instrumentação e da UFSCar desenvolveu um revestimento comestível de quitosana combinado com antioxidante de romã que, segundo divulgação da Abrafrutas (2025), reduziu a perda de massa dos morangos em 11% ao longo de 12 dias de refrigeração e adiou a contaminação por fungos de quatro para seis a oito dias, com pedido de patente já depositado. Repare que esse trabalho traz números comparativos detalhados e um insumo de custo baixo (a quitosana vem de resíduos da indústria pesqueira), enquanto o estudo do peptídeo, mais recente, ainda não apresentou nas fontes de imprensa uma comparação numérica publicada com um grupo controle sem tratamento.
Isso não diminui a pesquisa do peptídeo. Significa apenas que ela está em uma etapa mais inicial de validação e que a conservação pós-colheita é um campo movimentado, com várias frentes brasileiras trabalhando em paralelo. Vale a ressalva de transparência: para atmosfera modificada e ozônio, as fontes técnicas consultadas confirmam a eficácia qualitativa, mas os números precisos de dias ganhos ficaram em documentos de difícil extração, então esses valores devem ser tomados como indicativos, não como métricas fechadas.
O morango no Brasil: quem produz e por que a conservação importa
Para entender por que essa pesquisa mexe com o setor, é preciso olhar quem produz morango no Brasil e em que condições. A produção nacional está em franca expansão. Nos últimos dez anos, segundo o Anuário HF Morango 2025, publicado pela Embrapa via Infoteca-e, a área cultivada cresceu 38% e a produção subiu 68%. Estimativas setoriais apontam a produção nacional em torno de 200 mil toneladas para 2026, segundo a ConexãoSafra (2026).
O epicentro dessa produção é Minas Gerais. O estado responde por quase metade da área cultivada do país, segundo o Hortifruti Cepea/ESALQ (2023), com o Sul de Minas concentrando cerca de 90% da produção estadual. Municípios como Pouso Alegre viraram polos de referência, conforme reportagem da Gazeta do Povo. Além de Minas, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul completam o mapa produtivo nacional.
Dois pontos dessa cadeia ajudam a explicar por que a conservação é um tema tão sensível. O primeiro é o custo de produção: o cultivo convencional exige investimento alto por ciclo, o que significa que cada fruta perdida depois da colheita representa uma parcela relevante de dinheiro já gasto. O segundo é a dependência externa. Segundo a Confaeab (2026), cerca de 98% das mudas de morango usadas no Brasil ainda são importadas, o que já motiva a Embrapa a desenvolver cultivares nacionais para reduzir essa vulnerabilidade. Um setor que produz mais, mas continua frágil na muda e na conservação, tem tudo a ganhar com tecnologias que estiquem a vida útil do produto final.
Cabe registrar uma limitação de dado. Ao contrário dos grãos, o morango não tem levantamento oficial de safra publicado pela CONAB, então os números nacionais vêm de Embrapa, FAOSTAT e associações setoriais, com recortes e períodos que nem sempre batem entre si. Um levantamento de julho de 2025, por exemplo, listou 92.206 toneladas em Minas, 7.772 no Espírito Santo e 4.337 em São Paulo, valores que claramente não somam ao total nacional estimado e devem ser lidos como recorte parcial. A ausência de uma estatística oficial consolidada é, em si, uma lacuna da cadeia.
Da bancada ao campo: o que ainda falta
Aqui está a parte que quase nenhuma reportagem contou: existe uma distância considerável entre um resultado de laboratório e um produto que o produtor possa comprar. Vários obstáculos concretos separam o peptídeo de sapo do galpão de embalagem.

O primeiro é a escala do experimento. Testar 300 gramas de fruta em triplicata, em ambiente controlado, é o começo correto de qualquer pesquisa, mas está muito longe de validar a tecnologia em toneladas, em câmaras frias comerciais, em diferentes cultivares e em condições reais de transporte. Faltam ensaios de escala, testes em outras variedades e a demonstração de que o efeito se sustenta ao longo de toda a cadeia logística.
O segundo obstáculo é o custo. Peptídeos sintéticos produzidos em laboratório estão entre os insumos mais caros da biotecnologia, ordens de grandeza acima de alternativas como o cloreto de cálcio (poucos centavos por litro) ou a quitosana (subproduto de baixo custo da indústria pesqueira). Para que um bioinsumo à base de peptídeo seja economicamente viável na conservação de uma fruta de valor relativamente acessível como o morango, seria preciso baixar drasticamente o custo de produção da molécula, talvez por rotas biotecnológicas de fermentação em vez de síntese química.
O terceiro é o caminho regulatório. Qualquer produto desse tipo, para chegar ao mercado, teria de passar por avaliação de segurança alimentar e por registro como bioinsumo. Desde a Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024, conhecida como Lei de Bioinsumos e disponível no portal do MAPA, o Brasil tem um marco legal específico que regula a produção, o registro e o uso de bioinsumos de origem vegetal, animal ou microbiana. Um peptídeo antimicrobiano pós-colheita se enquadraria conceitualmente nessa definição, mas não há indício, nas fontes consultadas, de que exista pedido de registro para esse peptídeo específico. E a regulamentação infralegal da lei, por meio de portarias como a Portaria SDA/MAPA nº 1.270, de abril de 2025, ainda está se consolidando.
Vale notar que peptídeos antimicrobianos não são estranhos à indústria de alimentos. A nisina, um peptídeo de origem bacteriana, é aprovada há décadas como aditivo alimentar em várias jurisdições (é o E234 na União Europeia e tem status GRAS pelo FDA nos Estados Unidos). Isso mostra que existe precedente regulatório para essa classe de moléculas, ainda que não para o peptídeo específico da pesquisa brasileira. O precedente ajuda, mas não substitui o processo próprio de avaliação.
Uma molécula, vários usos: a plataforma por trás do peptídeo
Um dos aspectos mais fascinantes dessa história é que o Ctx(Ile21)-Ha nunca foi desenvolvido para conservar morango. A aplicação na fruta é apenas o capítulo mais recente de uma linha de pesquisa que testa a mesma molécula (e variantes dela) em problemas completamente diferentes, o que reforça a solidez da plataforma científica brasileira que a produz.
Em 2021, pesquisadores encapsularam o peptídeo em microcápsulas revestidas com HPMCP e o usaram na ração de galinhas poedeiras, reduzindo a mortalidade das aves causada por Salmonella Enteritidis resistente a antibióticos, conforme estudo publicado na revista Antibiotics. No mesmo ano, o grupo avaliou filmes de amido de milho e quitosana carregados com o peptídeo como revestimento protetor, em trabalho apresentado no ECMS2021. Já em 2022, uma variante da molécula enxertada em nanoquitosana foi testada por Primo e colaboradores contra cepas de Mycobacterium tuberculosis extensivamente resistentes a medicamentos, em pesquisa apresentada no ECSOC-26.
Ração animal, filmes protetores, nanomedicina contra tuberculose e, agora, conservação de fruta. O fio que costura aplicações tão distintas é o mesmo mecanismo básico de ruptura de membrana microbiana, aplicado a alvos diferentes. Para o leitor, a lição é clara: a pesquisa do morango não é um lampejo isolado, mas um desdobramento natural de uma competência acumulada por três instituições brasileiras ao longo de mais de uma década. Esse é exatamente o tipo de contexto que a cobertura jornalística apressada deixou de fora, tratando a novidade como um fato solto quando ela é, na verdade, parte de uma agenda de ciência de peptídeos consolidada no país.
Os limites do que já se sabe
Fechar com honestidade sobre as incertezas é o que separa análise de propaganda. O estudo do peptídeo de sapo é uma boa notícia científica, mas exige cautela na leitura, e alguns pontos merecem registro explícito.
Primeiro, a escala. Todos os resultados vêm de bancada, com amostras pequenas e período de observação de poucos dias. Não há, nas fontes de imprensa consultadas, uma comparação numérica publicada entre morangos tratados e um grupo controle sem peptídeo, o que impede afirmar com precisão quantos dias de vida útil a mais a tecnologia entrega em relação a não fazer nada. Segundo, o estágio: não existe produto registrado, nem pedido conhecido de registro como bioinsumo, nem avaliação de segurança alimentar concluída para esse uso. Terceiro, o custo da síntese peptídica permanece como barreira econômica real e não resolvida.
Há ainda pequenas divergências de detalhe que circularam na cobertura, como o ano de isolamento do peptídeo original (parte da imprensa cita 2006, enquanto a publicação científica de referência é de 2008), lembrete de que vale sempre ancorar a informação na fonte primária e não na réplica de release. Nada disso invalida a pesquisa. Apenas a coloca no lugar correto: um avanço promissor da ciência brasileira, com caminho aberto e obstáculos claros, e não uma solução pronta para as perdas pós-colheita do setor. É esse equilíbrio entre entusiasmo e realismo que o produtor e o leitor merecem.
Enquanto essas tecnologias amadurecem, a melhor defesa contra perdas segue sendo o bom manejo: colher no ponto certo, resfriar rápido, manusear com cuidado e controlar a sanidade da cultura, tema que aprofundamos no guia de pragas e doenças em cultivo protegido.
Perguntas frequentes
O que é o peptídeo Ctx(Ile21)-Ha que prolonga a vida do morango?
É um peptídeo antimicrobiano sintético, análogo da molécula Hylin a1, originalmente isolada da pele do sapo Boana albopunctata, nativo do Cerrado brasileiro, pela Universidade de Brasília. Ele age rompendo a membrana de bactérias e fungos que deterioram a fruta, o que reduz a carga microbiana e ajuda a manter a qualidade do morango por mais tempo.
Como o peptídeo foi testado nos morangos?
Morangos orgânicos da variedade Oso Grande, em amostras de cerca de 300 gramas, foram imersos por 5 minutos em uma solução do peptídeo e depois refrigerados a 5 °C, com avaliações feitas em triplicata ao longo de seis dias, conforme o estudo de Brandão e colaboradores (2026) publicado na revista Applied Food Research.
Por quanto tempo o peptídeo conservou o morango?
O tratamento manteve as características do fruto maduro, como firmeza e teor de açúcares, por 5 dias sob refrigeração a 5 °C, prazo considerado longo para uma fruta tão perecível quanto o morango, segundo o pesquisador responsável, Eduardo Festozo Vicente, da UNESP campus de Tupã.
Esse peptídeo já está disponível para os produtores usarem?
Não. Trata-se de uma pesquisa em estágio de laboratório, com amostras pequenas e testes em triplicata. Não é um produto comercial e não há registro público de pedido de patente ou de registro como bioinsumo no MAPA para esse uso específico. Ainda faltam validação em escala, redução de custo e aprovação regulatória.
Quais outras tecnologias existem para conservar morango no Brasil?
Entre as estudadas estão revestimentos comestíveis de quitosana (um deles, da USP e da Embrapa Instrumentação, reduziu 11% da perda de massa em 12 dias), atmosfera modificada com controle de O₂ e CO₂, tratamento com cloreto de cálcio e uso de ozônio, além do resfriamento rápido e da câmara fria, que são a base consolidada da cadeia.
Qual é a real dimensão das perdas pós-colheita de frutas no Brasil?
Segundo a FAO, citada pela Embrapa, as perdas pós-colheita de frutas e hortaliças no Brasil ficam entre 40% e 50%. Um estudo publicado na Horticultura Brasileira estimou perdas médias de 35% a 40% em hortaliças no país, contra cerca de 10% nos Estados Unidos, o que mostra o tamanho do desperdício que soluções de conservação tentam combater.
Onde é produzido o morango no Brasil?
Minas Gerais é o principal produtor nacional, com quase metade da área cultivada do país e cerca de 90% da produção concentrada no Sul de Minas, em polos como Pouso Alegre. Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul também têm produção relevante. A produção nacional é estimada em torno de 200 mil toneladas para 2026.
Esse mesmo peptídeo tem outros usos além de conservar frutas?
Sim. O mesmo peptídeo, ou variantes dele, já foi testado para reduzir a mortalidade de galinhas poedeiras por Salmonella resistente a antibióticos, em filmes protetores de amido e quitosana e em nanopartículas contra tuberculose multirresistente. Isso mostra que a molécula faz parte de uma linha de pesquisa ampla, e não de um achado isolado.
Quem financiou essa pesquisa?
A pesquisa contou com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), por meio de quatro processos de financiamento distintos, e foi conduzida por pesquisadores da UNESP, nos campi de Tupã e Araraquara, com colaboração de pesquisadores da Universidade de Brasília, responsáveis pelo isolamento original da molécula.
Existe alguma limitação importante nesse estudo que merece atenção?
Sim. É um teste de bancada, com poucas amostras (cerca de 300 gramas por ensaio) e sem, nas fontes de imprensa consultadas, uma comparação numérica publicada com um grupo controle sem peptídeo. Também não há registro como bioinsumo nem produto comercial, e o custo da síntese peptídica ainda é alto, então é cedo para falar em impacto real sobre as perdas do setor.