Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma cápsula de celulose que resolve, ao menos em laboratório, um dos maiores gargalos dos bioinseticidas fúngicos: a perda de viabilidade durante o armazenamento. A formulação, feita de carboximetilcelulose reticulada com íons de alumínio, manteve 85% de viabilidade do fungo Beauveria bassiana após 5 meses a 18 °C negativos, contra apenas 69% do fungo puro, sem proteção. O trabalho é assinado por equipes da Uniara, do Instituto Biológico e da Unaerp, todas de São Paulo, e foi publicado na revista científica ACS Omega em março de 2026.
O detalhe que muda a conversa para quem produz: a cepa encapsulada, o isolado IBCB 66, já é o princípio ativo declarado em dezenas de bioinseticidas vendidos no Brasil. Ou seja, não é uma molécula de laboratório distante da prateleira. A notícia chega num momento em que o mercado brasileiro de bioinsumos bateu R$ 6,2 bilhões em 2025, recorde histórico.
| Fato-chave | Número |
|---|---|
| Viabilidade do fungo encapsulado (5 meses, -18 °C) | 85% |
| Viabilidade do fungo sem cápsula | 69% |
| Estágio da tecnologia | Laboratório, sem ensaio de campo |
O que aconteceu: a pesquisa por trás da manchete
O estudo que originou esta pauta se chama "Sustainable Encapsulation of Biocontrol Agents: Cross-Linker Influence on Carboxymethylcellulose-Based Microbeads" e foi publicado por Zaldivar e colaboradores na ACS Omega (2026, DOI 10.1021/acsomega.5c06970), em acesso aberto. A divulgação para o público brasileiro veio pela Agência FAPESP, que assinou a reportagem de referência sobre o trabalho.
A pesquisa não nasceu isolada. Ela integra o CEMASU (Centro de Manejo Sustentável de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas), um dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento financiados pela FAPESP e sediado no Instituto Biológico, ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo. O centro reúne o Instituto Biológico e universidades parceiras como a Uniara (Universidade de Araraquara) e a Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto), além de um conselho consultivo com pesquisadores da Turquia, Espanha e Itália.
O encapsulamento em si foi desenvolvido no Laboratório de Biopolímeros e Biomateriais (BioPolMat) da Uniara. O fungo veio do Banco de Fungos Entomopatogênicos "Oldemar Cardim Abreu", do Instituto Biológico. E a validação recebeu apoio de CNPq e CAPES, além da própria FAPESP. Essa é uma diferença importante em relação à cobertura que circulou nas redes: não se trata de um experimento pontual, mas de uma linha de trabalho estruturada dentro de um programa de pesquisa consolidado sobre controle biológico.
Vale registrar de saída o que a notícia é e o que ela não é. O resultado é uma prova de conceito de bancada, sólida em ciência de materiais, mas ainda distante da lavoura. Não houve ensaio de campo, não existe produto comercial baseado nesta formulação e o teste de armazenamento cobriu apenas a condição de congelamento a 18 °C negativos. Guardar essa ressalva desde o começo ajuda a separar o avanço real do entusiasmo prematuro que apareceu em algumas republicações.
Como funciona a cápsula: gelificação ionotrópica explicada
A gelificação ionotrópica é uma técnica de encapsulamento em que uma solução de polímero é gotejada dentro de outra solução que contém íons, formando esferas sólidas no instante do contato. É simples de descrever: imagine pingar um líquido viscoso em um banho e ver cada gota virar uma bolinha firme antes de afundar. Esse processo não usa solventes orgânicos, não exige alta temperatura e tem custo baixo, o que o torna atraente para proteger organismos vivos delicados como fungos.
No estudo, o polímero foi a carboximetilcelulose (CMC), um derivado da celulose tão seguro que já é usado como espessante na indústria alimentícia, sendo responsável, por exemplo, pela textura de sorvetes. A solução de CMC contendo blastósporos do fungo era gotejada em um banho iônico. O ponto central da investigação foi comparar dois íons diferentes nesse banho: o cálcio (Ca²⁺), padrão histórico da literatura de encapsulamento, e o alumínio (Al³⁺), muito menos explorado para essa finalidade.
A diferença entre os dois foi grande. As esferas formadas com cálcio colapsaram estruturalmente e formaram conglomerados heterogêneos, com forma irregular. Já as esferas com alumínio ficaram esféricas e uniformes, com diâmetro médio de 1,92 milímetro. Além do formato, a capacidade de intumescimento (o quanto a esfera incha ao absorver água, propriedade que ajuda na liberação controlada do princípio ativo) foi cerca de quatro vezes maior no alumínio.
| Parâmetro | CMC + Cálcio (Ca²⁺) | CMC + Alumínio (Al³⁺) |
|---|---|---|
| Forma da esfera | Colapso estrutural, conglomerados irregulares | Esférica e uniforme (1,92 mm) |
| Capacidade de intumescimento | ~200% | ~800% |
| Viabilidade após 5 meses a -18 °C | Não reportado como formulação final | 85% (vs. 69% do fungo puro) |
| Uso prévio na literatura | Padrão histórico | Pouco explorado |
Dados: Zaldivar et al. ACS Omega, 2026.
A diferença estrutural entre os dois reticulantes explica o ganho de desempenho, embora o estudo não detalhe o mecanismo químico exato por trás dela. Na prática, a rede formada com alumínio ficou mais organizada e resistente, protegendo melhor o fungo abrigado no interior da esfera. Foi essa estrutura superior que se traduziu no ganho de viabilidade após meses de armazenamento congelado.
Por que a viabilidade de armazenamento é o problema histórico dos bioinseticidas fúngicos
Para entender por que 16 pontos percentuais a mais de viabilidade importam, é preciso enxergar o gargalo que a cápsula ataca. Bioinseticidas à base de fungo têm um calcanhar de Aquiles conhecido: eles são compostos por células vivas, e essas células precisam continuar vivas e vigorosas do momento da fabricação até o instante da aplicação na lavoura.
Segundo o pesquisador Marcos Faria, em artigo técnico da revista Visão Agrícola da ESALQ/USP, dos mais de 700 bioinsumos registrados no Brasil, cerca de um terço tem como princípio ativo um ou mais fungos entomopatogênicos. E o desafio estrutural do setor está justamente aí: fungos são organismos mais complexos que as bactérias ou vírus usados em outros bioinseticidas, e só funcionam se o vigor for preservado ao longo de toda a cadeia, produção, formulação, transporte, armazenamento, preparo da calda e aplicação a campo.
Segundo Marcos Faria, pesquisador da ESALQ/USP, o vigor do fungo precisa ser preservado ao longo de toda a cadeia produtiva, da fabricação até a aplicação no campo. Em artigo na Visão Agrícola nº 15, ele defende que a métrica evoluísse da simples contagem de sobreviventes para a de conídios vigorosos por litro.
Esse ponto sobre "conídios vigorosos" toca em uma sutileza que o artigo precisa deixar clara. A viabilidade medida em laboratório costuma ser a taxa de germinação dos esporos em placa. Mas germinar não é o mesmo que matar a praga. Uma revisão acadêmica brasileira sobre métodos de encapsulamento de fungos entomopatogênicos, publicada na Research, Society and Development, resume o problema abrangente: esses microrganismos são altamente sensíveis a temperatura e radiação ultravioleta, o que compromete sua eficiência em campo, e é por isso que o encapsulamento surgiu como barreira protetora em torno do ativo.
Há, ainda, um alerta técnico sobre a distância entre viabilidade e eficácia real. Documentos técnicos da Embrapa citam que, em testes com fungo entomopatogênico contra ninfas de mosca-branca, a correlação entre viabilidade (germinação) e mortalidade da praga foi fraca. Traduzindo para o produtor: um lote com alta viabilidade pode ainda ser pouco eficaz se o vigor real do fungo estiver comprometido. Por isso os 85% do estudo devem ser lidos como 85% de germinação, não como 85% de eficácia garantida contra insetos.
Erros de manejo agravam esse problema no dia a dia. Misturar o bioinseticida em tanque com agrotóxicos incompatíveis, aplicar sob sol forte e baixa umidade, ou usar doses insuficientes reduzem drasticamente o desempenho de qualquer produto fúngico, encapsulado ou não. A cápsula ajuda no armazenamento, mas não substitui o bom manejo na aplicação.
A cepa que já está no mercado: IBCB 66 em produtos brasileiros
Aqui está o diferencial que separa esta análise da cobertura genérica. O fungo encapsulado no estudo não é uma cepa experimental qualquer. Trata-se do isolado IBCB 66 de Beauveria bassiana, originalmente isolado da broca-do-café (Hypothenemus hampei) em São José do Rio Pardo, São Paulo, e mantido no banco de entomopatógenos do Instituto Biológico.

Consultando a base pública de produtos fitossanitários do MAPA (Agrofit) e as listas de produtos aprovados para agricultura orgânica, o IBCB 66 aparece como princípio ativo declarado em uma série de bioinseticidas comerciais registrados por diferentes empresas. Isso muda completamente a leitura prática da notícia: se a tecnologia de encapsulamento amadurecer em escala industrial, ela poderia, em tese, ser aplicada a formulações de produtos que já estão na prateleira, sem trocar a cepa nem refazer todo o dossiê de eficácia agronômica.
| Produto | Empresa titular |
|---|---|
| Boveril / Boveril Evo / Boveril Cana | Koppert do Brasil |
| Bovemip | Promip Manejo Integrado de Pragas |
| BOVEnat | Bionat Soluções Biológicas |
| Boveria-Turbo / Bovéria-Guard | Biovalens |
| Exterminador Bio | Simbiose |
| Ecobass / Ecometa Power | Toyobo do Brasil / Vital Brasil |
Fonte: Relações de Produtos Fitossanitários com Uso Aprovado para Agricultura Orgânica, MAPA/gov.br (edições 2019 a 2021), consulta ao Agrofit. As datas dos registros individuais variam de 2012 a 2021; confira o Agrofit atualizado para o status corrente de cada registro.
Os alvos declarados desses produtos com IBCB 66 incluem mosca-branca (Bemisia tabaci raça B), ácaro-rajado (Tetranychus urticae), cigarrinha-do-milho, moleque-da-bananeira, bicudo-da-cana e a própria broca-do-café. Note que várias dessas pragas, especialmente mosca-branca e ácaro-rajado, são as mesmas que assombram o cultivo protegido e o hortifrúti, o que abre a ponte natural para o público da hidroponia.
Um dado de contexto ajuda a dimensionar o peso desses nomes. A Koppert, titular da linha Boveril, ampliou sua posição no controle biológico brasileiro com a aquisição da BUG Agentes Biológicos em 2017, um movimento que sinaliza como o setor privado enxerga o futuro dos bioinsumos. O fato de uma cepa amplamente comercializada estar no centro de um avanço acadêmico de formulação é raro e valioso, porque encurta enormemente o caminho da bancada para o campo.
Isso vale para hidroponia e cultivo protegido?
O estudo não testou aplicação em hidroponia, e é honesto dizer isso com todas as letras. Mas a lógica do problema que a cápsula ataca conversa diretamente com o produtor de ambiente controlado, e por dois motivos concretos.

O primeiro é que os fungos entomopatogênicos como o Beauveria bassiana já são ferramentas usadas contra as pragas típicas de estufa e casa de vegetação, como mosca-branca, ácaros e tripes. O controle biológico, aliás, tende a ter maior taxa de sucesso justamente em ambiente controlado, onde temperatura e umidade favorecem o fungo e onde a ausência de vento facilita a permanência do produto sobre a planta. Se você quer entender o quadro completo de fitossanidade em ambiente fechado, o manejo integrado de pragas em cultivo protegido é o guia canônico do cultivee sobre Pythium, Fusarium, mosca-branca em estufa e defensivos registrados no Agrofit. Este artigo não repete aquele conteúdo, apenas se conecta a ele.
O segundo motivo é econômico e logístico, e é onde a cápsula pode fazer diferença real. O pequeno e médio produtor hidropônico raramente tem uma cadeia de frio robusta. Um freezer doméstico, uma geladeira compartilhada com alimentos, um galpão sem climatização adequada, essa é a realidade da maioria. Bioinseticida fúngico que perde vigor rápido no armazenamento inviabiliza a adoção para quem compra em pequena quantidade e não roda o estoque em poucos dias. Uma formulação que estende a vida útil ataca exatamente esse ponto de fricção.
Os números de adoção reforçam o argumento. Segundo dados da CropLife Brasil, hortifrúti, algodão, café e citros somados respondem por apenas 6% do uso de bioinsumos no país, enquanto soja, milho e cana concentram os outros 94%. Isso não é sinal de que a tecnologia não serve para hortaliças, e sim de que existe um espaço enorme para crescer. Formulações mais estáveis e baratas são precisamente o tipo de avanço que pode destravar esse mercado. O ambiente controlado, tema que o cultivee aprofunda no guia sobre agricultura em ambiente controlado no Brasil, é o terreno mais fértil para essa transição.
Vale a mesma ressalva das seções anteriores: nenhum dos produtos com IBCB 66 foi testado, no estudo, sob a forma encapsulada em cultivo de hortaliças. O que existe hoje são bioinseticidas convencionais já aplicáveis, e uma promessa de formulação melhor no futuro. Pragas de folhosas como a couve, por exemplo, cuja cultura o cultivee detalha no guia de como plantar couve, estão entre os alvos que se beneficiariam de bioinseticidas mais estáveis.
O mercado de bioinsumos no Brasil: por que isso importa agora
Uma inovação de formulação só ganha relevância comercial dentro de um mercado em movimento, e o mercado brasileiro de bioinsumos está acelerando. Segundo o CropData, portal da CropLife Brasil, o setor movimentou R$ 6,2 bilhões em 2025, recorde histórico, tratando 194 milhões de hectares, um crescimento de 28% em área. Os bioinseticidas responderam por 35% desse valor total, e os biofungicidas foram o segmento que mais cresceu, com alta de 41% no valor, chegando a R$ 1,4 bilhão.
Segundo projeção da CropLife Brasil e da S&P Global, o mercado de bioinsumos deve chegar a R$ 17 bilhões até 2030, quase o triplo do volume atual de 2025. O MAPA estima um crescimento anual próximo de 30% para o setor.
O ritmo se manteve em 2026. No primeiro quadrimestre do ano, o setor movimentou R$ 1,3 bilhão, com os bioinseticidas puxando o crescimento, boa parte concentrada no milho safrinha, no controle de cigarrinhas e lagartas. O país já tem mais de 900 produtos biológicos registrados no MAPA, e o número cresce a cada safra.
No cenário global, as consultorias convergem para um mercado de biopesticidas na faixa de USD 7 a 9 bilhões em 2024 e 2025, com projeções de USD 14 a 18 bilhões até 2030. A tabela abaixo mostra a dispersão entre as fontes, que vem sobretudo do escopo considerado por cada uma.
| Fonte | Valor atual | Projeção 2030 | CAGR |
|---|---|---|---|
| MarketsandMarkets | USD 8,94 bi (2025) | USD 17,68 bi | 14,6% |
| MarkNtel Advisors | USD 7,89 bi (2024) | USD 18,24 bi | 15,1% |
| ResearchAndMarkets | USD 7,1 bi (2024) | USD 14,7 bi | 12,7% |
| Mordor (Brasil, biológicos agrícolas) | USD 833 mi (2025) | USD 1,25 bi | 8,4% |
Consolidado de consultorias de mercado, 2024 a 2026.
Onde a cápsula de celulose entra nessa conta? A tecnologia de micro e nanoencapsulamento é apontada por consultorias como a Mordor Intelligence como um dos motores de crescimento do segmento, porque, segundo a análise, esse tipo de formulação "dobra a vida útil e reduz custos de cadeia de frio". Reduzir desperdício e ampliar o prazo de validade não é detalhe: é o que permite levar o bioinseticida a mercados hoje mal atendidos, como o hortifrúti e o pequeno produtor. Quem quer entender como esses custos entram na conta de uma operação comercial encontra o raciocínio no guia de viabilidade econômica e ROI da hidroponia comercial.
Métodos de encapsulamento: a cápsula de celulose no contexto
A gelificação ionotrópica não é a única técnica disputando esse mercado, e comparar as opções ajuda a situar o avanço brasileiro. Cada método tem trade-offs de custo, escala e proteção do fungo.
| Técnica | Como funciona | Vantagens | Limitações |
|---|---|---|---|
| Gelificação ionotrópica | Gotejamento de polímero em banho iônico | Simples, barata, sem solventes | Escala industrial ainda pouco testada para CMC com alumínio |
| Spray drying | Atomização e secagem rápida em ar quente | Rápida, longo prazo de validade | Calor pode reduzir sobrevivência do fungo |
| Coacervação complexa | Separação de fases de dois polímeros de cargas opostas | Boa proteção físico-química | Processo complexo, custo maior |
| Nanoencapsulamento | Partículas em escala nanométrica | Liberação de precisão | Tecnologia emergente, custo alto |
Fontes: revisão Research, Society and Development (2023) e literatura técnica agrícola.
A técnica concorrente mais consolidada academicamente é o alginato de cálcio, tema de uma revisão publicada na revista Molecules (Salgado et al. 2022) que já acumula mais de uma centena de citações. O mérito específico do estudo brasileiro foi mostrar que trocar tanto o polímero (celulose no lugar do alginato) quanto o reticulante (alumínio no lugar do cálcio) pode gerar uma estrutura superior para a proteção do fungo, um caminho ainda pouco explorado.
O que ainda falta provar: limitações e próximos passos
Esta é a seção que separa jornalismo responsável de propaganda. A cápsula de celulose é um avanço de bancada promissor, mas há um conjunto claro de coisas que ainda não se sabe.

O teste de armazenamento cobriu apenas a condição de 18 °C negativos, ou seja, congelamento. Não há dados publicados sobre o desempenho em geladeira comum, a 4 °C, ou em temperatura ambiente, que são justamente as condições mais realistas para o produtor médio brasileiro. Não adianta um bioinseticida durar meses no freezer se o pequeno hidroponista vai guardá-lo em um armário de galpão.
Também não houve nenhum ensaio de campo. Toda a eficácia relatada é de germinação em laboratório, não de mortalidade de praga real em cultivo. Como visto na seção sobre viabilidade, germinar em placa não garante matar inseto na planta. Não existe, ainda, produto comercial baseado nesta formulação, tampouco dados públicos sobre custo de produção, escala industrial ou data provável de lançamento. Não há sequer confirmação, nas fontes consultadas, de pedido de patente para a formulação de carboximetilcelulose com alumínio.
A boa notícia é que o próprio grupo já anunciou a linha de continuidade. Os próximos passos incluem testar o armazenamento em condições mais realistas, geladeira e temperatura ambiente, e avaliar o encapsulamento de outros fungos para outras culturas, com menção inclusive a um possível uso na pecuária, no controle de carrapatos. É um roteiro de pesquisa sério, não uma promessa vazia, mas ainda é roteiro.
Framework regulatório: como um bioinsumo chega ao mercado no Brasil
Mesmo que a cápsula avance para produto, ela terá de percorrer um caminho regulatório que, hoje, está em plena transição institucional. Vale conhecer o terreno.
O marco inicial foi o Decreto nº 10.375, de 26 de maio de 2020, que instituiu o Programa Nacional de Bioinsumos e seu Conselho Estratégico. Em 2024, o Decreto nº 11.940 ajustou a composição desse conselho e as competências de coordenação dentro do MAPA. No mesmo ano, um decreto de registro acelerado reduziu em 50% os prazos de aprovação de biopesticidas, segundo análise da Mordor Intelligence.
O passo mais importante foi a Lei nº 15.070, a Lei dos Bioinsumos, sancionada em dezembro de 2024. Ela define legalmente o que é um bioinsumo, atribui ao MAPA o registro de biofábricas, importadores e comerciantes, e, o ponto mais relevante para uma inovação de formulação, prevê registro simplificado quando já existir produto similar registrado no país. Como o IBCB 66 já tem produtos registrados, uma futura versão encapsulada poderia, em tese, se beneficiar dessa via mais rápida.
| Marco | Data | Conteúdo |
|---|---|---|
| Decreto nº 10.375 | 2020 | Cria o Programa Nacional de Bioinsumos |
| Decreto nº 11.940 | 2024 | Ajusta o Conselho Estratégico |
| Lei nº 15.070 | Dez/2024 | Lei dos Bioinsumos, prevê registro simplificado |
| Regulamentação | Em curso | Grupo de trabalho, decreto final pendente |
Há um porém: segundo reportagem de O Joio e o Trigo (outubro de 2025), mesmo com a lei sancionada, o decreto regulamentador ainda não foi publicado. Um grupo de trabalho de 29 integrantes, nomeado por portarias do MAPA em 2025, seguia em reuniões quinzenais para elaborar o texto. Ou seja, o arcabouço legal existe, mas os detalhes operacionais ainda estão sendo definidos, o que adiciona uma camada de incerteza ao tempo que qualquer nova formulação levaria para chegar ao mercado.
Perguntas frequentes
O que é a cápsula de celulose que virou notícia sobre bioinseticida?
É uma microesfera feita de carboximetilcelulose, um derivado da celulose usado até na indústria alimentícia, reticulada com íons de alumínio. Foi desenvolvida por pesquisadores da Uniara, do Instituto Biológico e da Unaerp, em São Paulo, para encapsular e proteger o fungo Beauveria bassiana, usado como bioinseticida. O estudo foi publicado na revista ACS Omega em março de 2026.
Como funciona o processo de encapsulamento por gelificação ionotrópica?
Uma solução de carboximetilcelulose contendo o fungo é gotejada em uma solução com íons, cálcio ou alumínio no estudo. O contato entre o polímero e os íons forma, instantaneamente, microesferas sólidas que envolvem e protegem as células do fungo, funcionando como uma barreira física contra temperatura e radiação.
Por que os pesquisadores trocaram o cálcio pelo alumínio?
Nos testes, as esferas feitas com cálcio colapsaram e formaram conglomerados irregulares. As esferas com alumínio mantiveram formato esférico uniforme, com 1,92 milímetro de diâmetro médio, maior capacidade de intumescimento, cerca de 800% contra 200%, e melhor proteção do fungo. O estudo não detalha o mecanismo químico exato por trás dessa diferença, mas atribui o resultado à estrutura mais organizada da rede formada com alumínio.
Qual fungo foi encapsulado e quais pragas ele controla?
Beauveria bassiana, isolado IBCB 66, mantido no banco de entomopatógenos do Instituto Biológico. Esse mesmo isolado já é princípio ativo de dezenas de bioinseticidas comerciais registrados no MAPA, usados contra mosca-branca, ácaro-rajado, cigarrinha-do-milho, moleque-da-bananeira e broca-do-café, entre outras pragas.
A cápsula de celulose já está disponível para o produtor comprar?
Não. É resultado de pesquisa de laboratório, sem ensaio de campo e sem registro ou comercialização até a publicação do estudo, em março de 2026. Os pesquisadores planejam testes de campo e testes em condições de armazenamento mais realistas, como geladeira comum e temperatura ambiente, como próximos passos.
Como essa tecnologia se compara aos bioinseticidas de Beauveria bassiana já vendidos no Brasil?
A cepa usada no estudo, o IBCB 66, é a mesma de produtos comerciais como Boveril, Bovemip e Exterminador Bio. A diferença está na formulação. Se a tecnologia de cápsula avançar para escala industrial, ela poderia, em tese, estender a vida útil e a estabilidade desses produtos, mas isso ainda não foi testado nem validado comercialmente.
Bioinseticida encapsulado pode ser usado em hidroponia e cultivo protegido?
O estudo não testou aplicação em hidroponia. Mas fungos como Beauveria bassiana já são usados contra pragas de cultivo protegido, como mosca-branca, ácaros e tripes, e a estabilidade de armazenamento é fator crítico para o pequeno e médio produtor hidropônico, que geralmente não tem cadeia de frio robusta. É justamente um dos problemas que a cápsula tenta resolver.
Quais são as limitações e o que ainda não se sabe?
O resultado de 85% de viabilidade vale apenas para armazenamento a 18 °C negativos. Não há dados publicados sobre desempenho em geladeira comum, a 4 °C, ou em temperatura ambiente. Também não houve ensaio de campo nem dados de eficácia da cápsula contra pragas reais em condições de cultivo, apenas germinação em laboratório.
Qual o potencial de mercado para bioinsumos encapsulados no Brasil?
O mercado brasileiro de bioinsumos movimentou R$ 6,2 bilhões em 2025, recorde histórico, e deve chegar a R$ 17 bilhões até 2030, segundo a CropLife Brasil. Bioinseticidas já representam 35% desse valor. Tecnologias de encapsulamento que resolvam a perda de viabilidade têm potencial de reduzir desperdício e ampliar a adoção, especialmente fora das grandes culturas de soja, milho e cana, que hoje concentram 94% do uso (o restante inclui hortifrúti, algodão, café e citros somados).
O que é o CEMASU e quem financiou a pesquisa?
O CEMASU, Centro de Manejo Sustentável de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas, é um Centro de Ciência para o Desenvolvimento financiado pela FAPESP e sediado no Instituto Biológico, que reúne pesquisadores de várias instituições parceiras. O estudo também recebeu financiamento do CNPq e da CAPES.