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    Monilíase do cacau: emulsão natural trava o fungo [2026]

    Pesquisa da ESPOL criou emulsão de fengicina e óleo de canela que inibiu 100% do fungo da monilíase do cacau em laboratório. Veja o que muda no Brasil.

    Vagem de cacau com podridão e cobertura branca de esporos, sintoma da monilíase do cacaueiro
    Sintoma típico da monilíase: mancha escura e camada esbranquiçada de esporos sobre o fruto
    Agro16 min de leitura

    Uma emulsão feita de composto bacteriano e óleo de canela travou 100% do crescimento do fungo mais temido do cacau em testes de laboratório. A notícia veio do Equador, mas o recado é para o Brasil: a monilíase, doença que a pesquisa combate, já tem foco confirmado e sob erradicação na fronteira amazônica do país, e o Ministério da Agricultura (MAPA) acaba de renovar pela quinta vez consecutiva a emergência fitossanitária contra ela.

    Antes de você guardar essa informação como "novo remédio para o cacau", três esclarecimentos que a cobertura da imprensa costuma embaralhar:

    FatoO que é verdade
    A emulsão funciona?Sim, em placa de laboratório: 100% de inibição a 250 ppm com fengicina e óleo de canela
    A praga está no Brasil?Sim, em foco isolado e sob erradicação no Acre e no Amazonas desde julho de 2021
    Já dá para comprar e aplicar?Não. O estudo é totalmente in vitro; faltam testes de campo, custo e segurança

    Este artigo separa a ciência do exagero, desfaz a confusão entre monilíase e vassoura-de-bruxa, mostra o que a lei brasileira já prevê para produtos assim e explica por que mais de 100 mil famílias produtoras de cacau têm motivo para acompanhar o assunto de perto.

    O que a pesquisa da ESPOL descobriu

    A monilíase do cacaueiro é uma doença fúngica causada por Moniliophthora roreri, que ataca exclusivamente os frutos do cacau (Theobroma cacao) e de espécies próximas, como o cupuaçuzeiro, apodrecendo por completo a amêndoa por dentro antes mesmo de os sintomas ficarem evidentes por fora. Sem controle, ela pode zerar de 70% a 100% da produção de uma lavoura, o que a coloca, junto com a vassoura-de-bruxa, entre as duas doenças mais destrutivas do cacau nas Américas.

    Foi contra esse fungo que a equipe de Villavicencio-Vásquez e colaboradores, do Centro de Investigaciones Biotecnológicas del Ecuador (CIBE) da ESPOL, testou uma nova formulação natural. O trabalho saiu em 2026 na revista Frontiers in Plant Science e está disponível de forma aberta (DOI 10.3389/fpls.2025.1731535). A repercussão internacional partiu de um comunicado da própria universidade, divulgado pela EurekAlert em 29/07/2026, com a manchete de que a emulsão trava um fungo capaz de causar perdas de até 70-80% da safra na América Latina, uma das doenças mais devastadoras do cacau na região.

    Os pesquisadores combinaram três ingredientes de origem biológica:

    • Fengicina, um lipopeptídeo produzido pela bactéria Bacillus subtilis (cepa DS03), purificado em laboratório e confirmado por espectrometria de massas.
    • Óleo essencial de canela (Cinnamomum zeylanicum), rico em cinamaldeído (quase 70% da composição).
    • Óleo essencial de hortelã-pimenta (Mentha piperita), rico em mentol.

    Cada ingrediente foi avaliado isoladamente e em emulsões contra oito isolados de M. roreri de diferentes regiões do Equador, pelo método do alimento envenenado em meio de cultura, a 25 °C, com repetições e tratamento estatístico. O resultado mais forte veio da mistura de fengicina com óleo de canela: na proporção de 25% de fengicina e 75% de óleo de canela, a concentração de apenas 250 ppm inibiu 100% do crescimento do fungo em todos os isolados testados, e também bloqueou 100% da germinação de esporos.

    O ponto tecnicamente relevante não é só o número, é a sinergia. As emulsões alcançaram um Índice de Concentração Inibitória Fracionária (FIC) igual ou menor que 0,5, o valor que a literatura usa para caracterizar sinergia real entre dois compostos, ou seja, o conjunto rende mais do que a soma das partes. Isso permite usar menos ingrediente ativo para o mesmo efeito, o que importa quando se pensa em custo e escala.

    Monilíase e vassoura-de-bruxa: duas doenças, um gênero

    Aqui mora o erro mais comum da cobertura sobre o tema. Monilíase e vassoura-de-bruxa não são a mesma doença. São causadas por duas espécies irmãs do mesmo gênero, Moniliophthora, com biologia, sintomas e situação regulatória completamente diferentes no Brasil.

    Vagem de cacau com podridão e cobertura branca de esporos, sintoma da monilíase do cacaueiro
    Sintoma típico da monilíase: mancha escura e camada esbranquiçada de esporos sobre o fruto

    A vassoura-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa) é a doença que derrubou a cacauicultura baiana no fim dos anos 1980 e está endêmica na Bahia desde 1989 e no Espírito Santo desde 2001. A monilíase (Moniliophthora roreri), por outro lado, não está nas regiões produtoras comerciais brasileiras: ela existe apenas em focos isolados e vigiados na fronteira amazônica.

    A tabela abaixo resume as diferenças que separam as duas ameaças:

    CaracterísticaMonilíase (M. roreri)Vassoura-de-bruxa (M. perniciosa)
    Nome popularMonilíase / podridão gelada do frutoVassoura-de-bruxa
    Órgão atacadoSó os frutosRamos, flores e frutos
    Tipo de fungoNão forma cogumelo; reproduz por conídiosForma cogumelos (basidiomiceto)
    Status no BrasilPraga quarentenária ausente, com focos sob erradicação no AC e AM desde 2021Endêmica na Bahia desde 1989
    Perdas potenciais70% a 100% da produção50% a 90% da produção
    OrigemColômbia e Equador; hoje em 12 países tropicais das AméricasBacia amazônica; chegou à Bahia via mudas contaminadas
    Biofungicida registrado no BrasilNenhum (é o tema desta pesquisa)Tricovab (Trichoderma stromaticum)

    A distinção prática é simples: se você vê uma foto de galho seco com brotações deformadas parecendo uma vassoura, é vassoura-de-bruxa. Se vê uma vagem com mancha marrom-chocolate e uma cobertura branca aveludada de esporos por cima, é monilíase. A monilíase é frequentemente descrita como a "prima mais agressiva" da vassoura-de-bruxa justamente porque destrói o fruto por inteiro e produz bilhões de esporos por vagem infectada.

    A monilíase no Brasil: o que já aconteceu e o que vale agora

    Ao contrário do que sugere a manchete internacional, a monilíase não "chegou ao Brasil" em 2026. O primeiro foco no país foi confirmado em julho de 2021, em uma área residencial urbana de Cruzeiro do Sul, no Acre, por análise laboratorial oficial do Laboratório Federal de Defesa Agropecuária. Desde então, novos focos apareceram no Amazonas em 2022 e 2023, sempre em municípios da fronteira com Peru e Colômbia.

    O que faz da pauta uma notícia de agora não é a praga, é a resposta regulatória. Em 24 de julho de 2026, o MAPA publicou a Portaria nº 939/2026, que prorroga pela quinta vez consecutiva a emergência fitossanitária, agora incluindo formalmente o Pará, com vigência a partir de 05 de agosto de 2026. O anúncio foi noticiado pelo G1 Acre em 25/07/2026. A linha do tempo completa mostra a estratégia brasileira de contenção:

    DataMarco regulatório
    11/12/2020IN SDA/MAPA nº 112 institui o Plano Nacional de Prevenção e Vigilância da monilíase
    Julho/2021Primeiro foco confirmado no Brasil, em Cruzeiro do Sul (AC)
    04/08/2021Portaria nº 249 declara emergência fitossanitária no AC, AM e RO
    2022 e 2023Novos focos confirmados em municípios do Amazonas
    21/11/2022Portaria nº 703 define área sob quarentena: 5 municípios do AC e todo o AM
    22/05/2025Portaria nº 1.291 inclui a espécie na Lista Oficial de Pragas Quarentenárias Ausentes
    24/07/2026Portaria nº 939 prorroga a emergência pela 5ª vez, incluindo o Pará

    Um detalhe regulatório costuma confundir: mesmo com focos confirmados desde 2021, o MAPA mantém M. roreri classificada oficialmente como "praga quarentenária ausente". Isso não é contradição. Na terminologia fitossanitária, a categoria "ausente" cobre também focos isolados, geograficamente contidos e sob erradicação ativa, distintos de uma praga já estabelecida e disseminada. E os números sustentam a classificação: em cinco anos de emergência, o foco no Acre segue restrito às mesmas quatro ou cinco localidades desde 2022, e nenhum caso foi relatado até hoje na Bahia, no Pará produtor, no Espírito Santo ou nas áreas produtoras de Rondônia. O detalhamento do arcabouço está no Plano de Contingência da Monilíase do Cacaueiro, do MAPA.

    Por trás da papelada há trabalho de campo pesado. Entre 2016 e 2021, cerca de 5.000 ações de monitoramento foram realizadas em oito estados, e mais de 580 árvores foram cortadas no Acre como parte da força-tarefa de erradicação. Em dezembro de 2025, o estado firmou um convênio de R$ 2,33 milhões com o MAPA para reforçar a vigilância até abril de 2027. A urgência tem endereço: a Associação Nacional de Produtores de Cacau alertou a Câmara dos Deputados, em 20/05/2025, que a doença ameaça mais de 100 mil famílias que vivem da cacauicultura no país.

    Como funciona a emulsão de fengicina e óleo essencial

    Para entender por que a combinação funcionou, vale olhar o que cada ingrediente faz na membrana do fungo. A fengicina é um lipopeptídeo, uma molécula com uma "cabeça" que gosta de água e uma "cauda" que gosta de gordura. Ela se encaixa na bicamada lipídica que forma a membrana das células fúngicas, abre poros e desestabiliza a estrutura, o que leva à morte celular. Ao mesmo tempo, essa mesma estrutura anfifílica faz da fengicina um biossurfatante natural: ela reduz a tensão superficial e ajuda a dispersar os óleos essenciais, que são hidrofóbicos e, sozinhos, não se misturam bem à água.

    É essa dupla função (fungicida e emulsificante ao mesmo tempo) que os autores apontam como a chave da sinergia. O cinamaldeído do óleo de canela entra pela membrana já enfraquecida, rompe sua integridade e interfere em enzimas essenciais do fungo. O resultado combinado é maior do que qualquer um dos dois isolados conseguiria.

    Os dados por concentração deixam a diferença clara:

    Tratamento100 ppm250 ppm500 ppm1000 ppm2000 ppm
    Fengicina isolada43,6%63,3%75,0%84,6%não avaliado
    Óleo de canela5,2%84,9%100%100%100%
    Óleo de hortelã-pimenta9,1%12,0%23,4%78,0%100%

    A leitura importante da tabela: a fengicina sozinha nunca chega a 100%, e o óleo de canela sozinho só zera o fungo a partir de 500 ppm. Combinados na emulsão certa, chegam a 100% já a 250 ppm, com metade da carga de canela. A versão com hortelã-pimenta ficou para trás em dois aspectos: o efeito foi apenas aditivo, não sinérgico, e a emulsão se mostrou fisicamente instável, com agregação de partículas acima de 5.000 nanômetros já na sétima semana de armazenamento, contra a estabilidade mantida da emulsão de canela no mesmo período. Estabilidade de prateleira não é um detalhe: um bioinsumo que se separa no galão antes de ser usado não serve ao produtor.

    O Brasil já tem experiência com biocontrole no cacau

    Um ponto que a cobertura internacional ignora: o Brasil não está começando do zero em biocontrole cacaueiro. O país tem o único biofungicida registrado no Brasil para vassoura-de-bruxa e décadas de pesquisa acadêmica na área.

    Mãos com luvas manipulando placa de cultura e frascos de emulsão em laboratório de biocontrole agrícola
    Bancada de pesquisa em biocontrole, etapa que antecede qualquer aplicação em campo

    O produto de referência é o Tricovab, à base do fungo Trichoderma stromaticum, desenvolvido pela CEPLAC a partir de pesquisas iniciadas nos anos 1970 no Pará e consolidadas na Bahia. Ele recebeu registro do MAPA e teve a produção comercial licenciada para a empresa BioFungi, de Eunápolis (BA), em 2023. Segundo dados de campo divulgados pela Notícias Agrícolas em 31/07/2026, o Tricovab elimina até 97% do fungo em tecido morto (as vassouras removidas por poda) e cerca de 56% em tecido vivo. É o único bioproduto registrado no país para a doença, contra 23 defensivos químicos, um desequilíbrio que mostra o quanto o mercado de bioinsumos cacaueiros ainda tem para crescer.

    A pesquisa brasileira com óleos essenciais também já existe, sempre voltada ao fungo irmão, a vassoura-de-bruxa:

    • A Embrapa avaliou o óleo essencial de Piper tuberculatum contra M. perniciosa em cupuaçuzeiro, com registro no repositório institucional Alice.
    • A UFSB conduz pesquisa pioneira com óleo de amescla, espécie amazônica, contra fitopatógenos do cacau.
    • A UESC, em Ilhéus (BA), sequenciou o genoma de M. perniciosa, abrindo caminho para alvos moleculares de novos biocontroles.

    Ou seja, quando (e se) a formulação equatoriana chegar à fase de campo, ela encontrará no Brasil um ecossistema de pesquisa e um mercado receptivo. O país é hoje o que mais adota controle biológico no mundo em área tratada, com mais de 50 milhões de hectares. Se você cultiva em ambiente protegido e quer entender como o controle biológico e o manejo integrado funcionam nesse contexto, o tema tem tratamento dedicado no nosso guia de referência.

    O que ainda falta provar

    Aqui entra o ceticismo saudável que quase nenhuma cobertura fez. O estudo da ESPOL é rigoroso, mas é inteiramente in vitro, feito em placa de Petri. Entre o resultado de laboratório e um produto no galão do produtor há uma distância grande, e os próprios autores são explícitos sobre isso. Os principais pontos em aberto:

    1. Falta o teste em planta. Inibir o fungo em meio de cultura não garante o mesmo efeito na superfície de uma vagem, sob sol, chuva e a diversidade microbiana de uma lavoura real. São necessários ensaios em casa de vegetação e depois no campo.
    2. Falta o dossiê de segurança. Nenhum dado sobre toxicidade para o aplicador, para polinizadores ou para o consumidor foi apresentado. Óleo essencial de canela é natural, mas "natural" não é sinônimo de "inofensivo" em qualquer concentração.
    3. Falta a conta de custo e escala. A canela não é cultura relevante no Brasil e é majoritariamente importada. O óleo de hortelã-pimenta, testado no mesmo estudo com resultado inferior, também é hoje importado pelo país, que já foi exportador do produto no passado. Produzir a formulação em escala nacional teria um custo de insumo que ninguém ainda calculou.
    4. Falta avaliar resistência. Populações de fungos variam. Isolados mais tolerantes podem exigir doses maiores, e o uso repetido de qualquer princípio ativo pressiona a seleção de linhagens resistentes.

    Nada disso invalida a descoberta. Apenas a coloca no lugar certo: um resultado promissor em estágio pré-campo, não um produto pronto. Tratar como "cura já disponível" seria repetir o erro que este artigo se propôs a evitar.

    Por que isso importa para o produtor brasileiro agora

    Mesmo com foco contido, a monilíase importa por causa do que ela representa em um momento de alto valor para o cacau. Três forças de mercado explicam por que a prevenção deixou de ser custo e virou investimento estratégico.

    Produtor entre cacaueiros carregados de frutos amarelos e vermelhos saudáveis em lavoura sombreada
    Lavoura de cacau saudável na Bahia, região que a vigilância fitossanitária busca manter livre da monilíase

    Preço em patamar historicamente elevado. Depois do boom que levou o cacau ao pico histórico de US$ 10.710/tonelada em janeiro de 2025, o preço recuou, mas seguia bem acima da média pré-2023, com contratos futuros em Nova York na casa dos US$ 5.400 a US$ 5.500/tonelada em agosto de 2026. No mercado interno, a arroba na Bahia chegou a R$ 318 em julho de 2026, com alta de quase 10% no mês. Cada vagem perdida para uma doença vale mais do que nunca.

    Produção nacional em recuperação e com meta ambiciosa. O Brasil produziu cerca de 292 mil toneladas de amêndoa em 2025 (estimativa do IBGE), com Pará e Bahia respondendo juntos por aproximadamente 95% do total. A CEPLAC tem a meta oficial de levar a produção a 400 mil toneladas até 2030, o que recolocaria o país perto da terceira posição mundial. O histórico pesa: foi justamente uma doença de Moniliophthora, a vassoura-de-bruxa, que derrubou a produção nacional pela metade em menos de dez anos na década de 1990, conforme documenta o Plano Inova Cacau 2030. Ninguém quer repetir a história com a espécie irmã.

    Pressão internacional e novas fronteiras. O regulamento europeu antidesmatamento (EUDR) encareceu o cacau da África Ocidental, que concentra cerca de 60% da produção mundial, e pressiona a diversificação de origem, uma janela para o Brasil. Ao mesmo tempo, a cacauicultura se expande para áreas novas, como o Cerrado baiano, com produtores aplicando tecnologia de grãos ao cacau. Mais área plantada significa mais superfície a monitorar contra pragas exóticas.

    O elo entre esses dados e a monilíase é direto: quanto mais valiosa e mais espalhada a lavoura, maior o prejuízo potencial de uma introdução da praga nas regiões produtoras. E é por isso que qualquer avanço em biocontrole, mesmo em estágio inicial, merece atenção. Se e quando a formulação equatoriana amadurecer, o Brasil já tem o caminho regulatório pavimentado: a Lei nº 15.070/2024, o novo marco dos bioinsumos, criou uma categoria própria de registro para produtos exatamente como esse, com fiscalização de biofábricas, importadores e comerciantes a cargo do MAPA. É a mesma via que o Tricovab já percorreu. Para quem pensa a decisão de investir em prevenção pela ótica financeira, os conceitos de custo, retorno e viabilidade estão detalhados em nosso material sobre o assunto.

    Perguntas frequentes

    A monilíase do cacau já chegou ao Brasil?

    Sim, mas de forma contida. O primeiro foco foi confirmado em julho de 2021 em Cruzeiro do Sul (AC), e novos focos isolados surgiram no Amazonas entre 2022 e 2023. Todos estão sob erradicação ativa e restritos a municípios da fronteira amazônica. As regiões produtoras comerciais, como Bahia, Pará e Espírito Santo, seguem livres da doença.

    Monilíase é a mesma coisa que vassoura-de-bruxa?

    Não. São causadas por fungos irmãos do mesmo gênero, Moniliophthora roreri e Moniliophthora perniciosa, mas com biologia e sintomas diferentes. A monilíase ataca só os frutos; a vassoura-de-bruxa ataca ramos, flores e frutos e já é endêmica na Bahia desde 1989.

    O que a nova pesquisa equatoriana descobriu?

    Que uma emulsão combinando fengicina (composto natural da bactéria Bacillus subtilis) com óleo essencial de canela inibiu 100% do crescimento do fungo M. roreri em laboratório a apenas 250 ppm, com efeito sinérgico comprovado estatisticamente. O estudo saiu na revista Frontiers in Plant Science (DOI 10.3389/fpls.2025.1731535).

    Esse produto já pode ser usado por produtores?

    Não. O estudo é inteiramente in vitro, feito em placa de laboratório. Os próprios autores afirmam que são necessários testes em casa de vegetação, ensaios de campo e avaliação de segurança antes de qualquer uso comercial.

    O Brasil já tem algum biofungicida parecido para o cacau?

    Sim, para a vassoura-de-bruxa, que é um fungo diferente. O Tricovab, à base de Trichoderma stromaticum, foi desenvolvido pela CEPLAC e teve a produção comercial licenciada em 2023, com eficácia de até 97% na eliminação do fungo em tecido morto e cerca de 56% em tecido vivo, em condições de campo.

    Por que o Brasil ainda classifica a monilíase como praga ausente se já houve focos confirmados?

    Porque, na classificação fitossanitária oficial do MAPA, focos isolados e geograficamente contidos sob erradicação ativa não mudam automaticamente o status de "ausente" para "presente". A categoria "presente" é reservada a pragas já estabelecidas e disseminadas. Após cinco anos de emergência, o foco no Acre segue restrito às mesmas localidades desde 2022.

    Quais estados brasileiros estão sob vigilância reforçada hoje?

    Acre, Amazonas, Pará e Rondônia, conforme a Portaria MAPA nº 939/2026, publicada em 24 de julho de 2026, que prorroga a emergência fitossanitária por mais um ano a partir de 05 de agosto de 2026.

    Que impacto econômico a monilíase teria se chegasse às regiões produtoras?

    Seria grave. Sem controle, a doença pode causar perdas de 70% a 100% da produção de uma lavoura. Historicamente, surtos de monilíase levaram ao abandono de extensas áreas em países como a Costa Rica. No Brasil, mais de 100 mil famílias dependem da cacauicultura, segundo a Associação Nacional de Produtores de Cacau.

    Existe uma via legal no Brasil para registrar um produto como esse, se ele avançar?

    Sim. A Lei nº 15.070/2024 criou um marco regulatório específico para bioinsumos agrícolas, com registro de biofábricas, importadores e produtos sob fiscalização do MAPA. É o mesmo caminho já percorrido pelo Tricovab.

    O óleo essencial de canela usado no estudo é fácil de produzir no Brasil?

    Não. A canela não é uma cultura relevante no país e é majoritariamente importada. O óleo de hortelã-pimenta, também testado no estudo com resultado inferior ao da canela, é hoje importado pelo Brasil, que já foi exportador do produto no passado. É um fator de custo e logística a considerar para uma eventual produção nacional da formulação.

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