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    Controle Orgânico de Pragas: Manual dos Produtos [2026]

    Guia prático de controle orgânico de pragas com doses, horários e compatibilidade de neem, Bt, Trichoderma, Beauveria e calda bordalesa.

    Insumos de controle orgânico de pragas, borrifador e copo medidor sobre bancada de horta
    O kit básico de aplicação: borrifador, copo medidor e balança de precisão para acertar a dose
    Agro15 min de leitura

    Este artigo é o manual dos produtos. Se você ainda está tentando descobrir qual praga atacou a sua horta, ou como montar uma rotina de monitoramento e níveis de dano, comece pelos guias canônicos: pragas e doenças em hidroponia e cultivo protegido cobre o diagnóstico em estufa e sistema fechado, e o manejo integrado de pragas a céu aberto cobre a horta e o campo sem estufa. Aqui, o pressuposto é outro: você já sabe o que tem, e precisa saber qual insumo comprar, em que concentração diluir, a que horas pulverizar, o que pode misturar com o quê e o que anula a aplicação.

    O que é um biodefensivo e por que a dose importa tanto

    Biodefensivo é um produto de origem vegetal, animal ou microbiana registrado para proteger a lavoura, conforme a definição do Programa Nacional de Bioinsumos (Decreto nº 10.375/2020) do MAPA. Ele se divide em três classes: microbianos (Bacillus thuringiensis, Beauveria, Trichoderma, Metarhizium), bioquímicos vegetais (óleo de neem/azadiractina) e macrobiológicos (parasitoides e ácaros predadores).

    A diferença prática em relação ao agrotóxico sintético é que o biodefensivo não é um veneno mais fraco, é uma tecnologia com janela de uso estreita. Um inseticida piretroide funciona a qualquer hora, com qualquer umidade, misturado com quase tudo. Já o conídio de Beauveria precisa germinar antes de matar, e não germina com umidade relativa abaixo de 60%. O cristal proteico do Bt precisa ser ingerido por uma lagarta pequena, e se degrada sob radiação ultravioleta. É por isso que a maioria dos relatos de "não funcionou" na horta caseira não é falha do produto, e sim erro de dose, de horário ou de mistura.

    O mercado brasileiro validou essa tecnologia em escala. Segundo a CropLife Brasil, o setor de bioinsumos faturou R$ 6,2 bilhões em 2025, um crescimento de 15% sobre 2024, com 194 milhões de hectares tratados. Os biofungicidas foram o segmento que mais cresceu em valor, com alta de 41%, chegando a R$ 1,4 bilhão.

    "O MAPA concedeu 162 registros de bioinsumos em 2025, o maior número da série histórica, dentro de um total de 912 registros de defensivos no ano." MAPA, Balanço anual de registros (2026)

    A regra jurídica mudou recentemente. A Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024, criou o marco legal específico dos bioinsumos, unificando produção, registro, rotulagem, transporte e armazenamento para os sistemas convencional, orgânico e agroecológico. Ela convive com a Lei nº 14.785/2023, que substituiu a antiga lei de agrotóxicos de 1989 e manteve o registro tripartite MAPA, ANVISA e IBAMA.

    Tabela mestre: os cinco insumos lado a lado

    InsumoPrincípio ativoAlvos principaisDose caseiraIntervaloHorárioValidadeCusto BR
    Óleo de neemAzadiractina A (3.000-12.000 ppm)Mosca-branca, pulgão, tripes, lagarta pequena, ácaro-rajado, cochonilha5-15 mL/L (0,5-1,5%) + 1 mL/L espalhante7-10 diasApós 16h2 anos lacrado; 6-12 meses abertoR$ 80-150/L
    Bacillus thuringiensisCristais Cry/CytLagartas (Plutella, Spodoptera, Trichoplusia, Helicoverpa); sciarídeos (var. israelensis)1-2 g/L (WG) ou 1-2 mL/L (SC)7 diasApós 16h2-3 anos a 25°CR$ 35-60/100 g
    TrichodermaConídios ≥10⁸ UFC/gPythium, Rhizoctonia, Fusarium, Sclerotinia2-5 g/L em rega; 1% em imersão de raizMensalManhã ou fim de tarde6 meses a 2-8°CR$ 50-90/kg
    Beauveria bassianaConídios ≥10⁸ UFC/gMosca-branca, tripes, ácaro-rajado, pulgão2-5 g/L + espalhante adesivo5-7 dias, 3-4 vezesApós 16h, UR ≥70%6 meses a 2-8°CR$ 40-80/250 g
    Calda bordalesaSulfato de cobre + calMíldio, requeima, antracnose, ferrugem0,5% (25 g + 25 g em 5 L)7-15 diasManhã, folha secaUsar no mesmo diaR$ 15-25 por preparo
    Insumos de controle orgânico de pragas, borrifador e copo medidor sobre bancada de horta
    O kit básico de aplicação: borrifador, copo medidor e balança de precisão para acertar a dose

    Óleo de neem: dose, espalhante e o erro que queima a folha

    O óleo de neem é extraído das sementes de Azadirachta indica, e o ativo que interessa é a azadiractina A, presente em concentrações de 3.000 a 12.000 ppm nos produtos comerciais. Ele não mata por choque. Age por quatro mecanismos: inibe a ecdise (a troca de cutícula do inseto, que morre travado na muda), funciona como antialimentar (o inseto para de se alimentar), tem efeito ovicida sobre posturas recentes e ainda apresenta ação sistêmica parcial quando absorvido pela raiz.

    A receita para borrifador de 1 litro é 10 mL de óleo de neem, 1 mL de detergente neutro e 989 mL de água morna. O detergente não é opcional: sem espalhante, o óleo se separa da água em segundos e a calda não cobre a folha. Use água morna (não quente) porque o óleo emulsiona melhor. Agite o borrifador a cada 30 segundos durante a aplicação, porque a emulsão volta a separar.

    A faixa de concentração vai de 0,5% (5 mL/L, uso preventivo e manutenção quinzenal) a 1,5% (15 mL/L, infestação instalada de pulgão ou cochonilha). Pulverize o verso da folha, que é onde mosca-branca, pulgão e ácaro se instalam. Reaplique a cada 7-10 dias enquanto houver praga.

    O erro que estraga a aplicação é o horário. Óleo sobre folha sob sol forte funciona como lente e provoca queima. Aplique depois das 16h, quando a radiação já caiu, e a planta tem a noite inteira para o produto agir antes do próximo pico solar. Em hortaliças de folha fina como manjericão, rúcula e alface jovem, reduza a dose pela metade (0,5%) e teste em duas ou três folhas antes de pulverizar o canteiro inteiro. Se em 48 horas aparecerem manchas necróticas nas bordas, a dose está alta para aquela cultura.

    Sobre carência e polinizadores: a azadiractina tem baixa persistência, e fabricantes costumam descrevê-la como produto de baixo resíduo, sem uma carência numérica fixa em dias para boa parte das formulações , a bula do Fitoneem, por exemplo, não define um número de dias de carência. Consulte sempre o registro do produto no AGROFIT e a bula específica, porque isso varia por formulação. Não pulverize plantas em plena floração visitada por abelhas durante o forrageio, que ocorre de manhã e no início da tarde. A aplicação vespertina já reduz muito esse risco.

    Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica no Brasil incluem Fitoneem, Azact CE, Agroneem e Base Nim, todos registrados via PFAU, o procedimento simplificado da IN Conjunta nº 1/2011.

    Bacillus thuringiensis: a janela de 5 milímetros

    O Bt é uma bactéria que produz cristais proteicos (toxinas Cry e Cyt) durante a esporulação. Quando a lagarta ingere folha tratada, o pH alcalino do intestino médio dissolve o cristal, a toxina se liga a receptores específicos do epitélio intestinal e rompe as células. A lagarta para de se alimentar em 1 a 3 horas, mas só morre em 2 a 5 dias.

    Essa defasagem é a origem do mal-entendido mais comum. O horticultor pulveriza, volta no dia seguinte, vê a lagarta ainda pendurada na folha e conclui que o produto falhou. Não falhou: a lagarta está paralisada e não come mais. O sinal de sucesso é a lagarta parada e murcha, não o cadáver imediato.

    A janela crítica é o tamanho da lagarta. O Bt é eficaz em lagartas de até cerca de 5 mm, ou até quatro dias após a eclosão, segundo material técnico da Codevasf sobre uso em hortaliças. Lagarta grande de terceiro ínstar em diante ingere proporcionalmente menos toxina em relação à massa corporal e sobrevive. Isso torna a inspeção duas vezes por semana obrigatória: você precisa detectar a postura ou a eclosão, não o estrago.

    As três variedades não são intercambiáveis:

    VariedadeAlvoQuando escolher
    kurstaki (HD-1)Trichoplusia ni, Helicoverpa, Ascia monustePadrão para lagartas de folhosas e brássicas
    aizawaiPlutella xylostella, SpodopteraTraça-das-crucíferas e quando há suspeita de resistência a kurstaki
    israelensisLarvas de sciarídeos e mosquitosMosca-do-substrato em bandeja, fibra de coco e turfa; inócuo para lagartas

    Comprar israelensis achando que controla lagarta é dinheiro jogado fora, e é um erro frequente porque o rótulo diz "Bt" em destaque e a variedade vem em letra pequena.

    Dose e aplicação: 1-2 g/L nas formulações WG (grânulo dispersível) ou 1-2 mL/L nas SC (suspensão concentrada), com espalhante. Aplique após as 16h, porque o cristal proteico degrada sob UV e a meia-vida no campo cai drasticamente sob sol pleno. Repita a cada 7 dias enquanto houver lagartas ativas. Como o Bt age por ingestão, a cobertura precisa alcançar a superfície que a lagarta come, incluindo o interior do cartucho em couve e repolho.

    Resistência é risco real. Plutella xylostella desenvolveu resistência a Cry1Ac em várias regiões do mundo. O estudo de eficácia de campo de Legwaila et al. (2015), sobre Bacillus thuringiensis var. kurstaki contra a traça-das-crucíferas em repolho, registra populações resistentes documentadas no Havaí, em agrião-d'água e repolho. A prática padrão é o rodízio entre kurstaki e aizawai, alternando também com neem e com controle biológico por Trichogramma. Trabalhos brasileiros da revista Horticultura Brasileira avaliaram formulações de Bt em repolho no Distrito Federal e confirmam a eficácia quando a aplicação respeita o estágio larval.

    Produtos disponíveis: DiPel WG e XenTari (Sumitomo), Agree, BT-Turbo Max (Vittia) e BtControl (Simbiose).

    Trichoderma: o único que se aplica antes do problema

    Trichoderma harzianum e T. asperellum são fungos de solo que atuam contra patógenos de raiz: Pythium spp., Rhizoctonia solani, Fusarium oxysporum, Sclerotinia e Sclerotium. O mecanismo é triplo. Faz micoparasitismo, enrolando a hifa do patógeno e secretando quitinases e glucanases que dissolvem a parede celular dele. Faz competição por espaço e nutrientes na rizosfera, ocupando o nicho antes do patógeno chegar. E induz resistência sistêmica na planta, além de estimular crescimento radicular.

    Mãos imergindo raízes de muda de alface em suspensão de Trichoderma antes do transplante
    Imersão da raiz por 15 minutos antes do transplante coloniza a rizosfera na hora certa

    A consequência prática é que Trichoderma é preventivo, não curativo. Muda com raiz já podre por Pythium não se recupera com aplicação de Trichoderma. Aplique antes, e há quatro momentos:

    1. Tratamento de semente, suspensão a 1%, deixando a semente secar à sombra antes de semear.
    2. Imersão da raiz no transplante, 5 a 15 minutos em suspensão de 2-5 g/L. É o método de maior custo-benefício, porque coloniza a rizosfera exatamente quando ela está exposta.
    3. Incorporação ao substrato, 2-5 g/L de substrato antes de encher bandejas ou vasos.
    4. Rega mensal, 2-5 g/L, 100-200 mL por vaso, reaplicando após chuva forte que lave o perfil.

    Em hidroponia, a aplicação muda de forma. Adicione 1-2 g por metro cúbico de solução nutritiva a cada 15-30 dias, ou a cada troca completa de solução. O Trichoderma tolera bem a faixa de pH 5,5 a 6,5 usada em folhosas e não interfere na condutividade elétrica, então não é preciso recalcular a solução nutritiva. A imersão de raiz antes do transplante para a bancada NFT é especialmente eficiente, porque na hidroponia a raiz fica permanentemente úmida e o Pythium tem via livre sem um competidor instalado.

    Armazenamento é o ponto que a maioria erra. Trichoderma é um organismo vivo. Refrigerado entre 2 e 8°C, mantém viabilidade por cerca de 6 meses, com perda gradual. Acima de 30°C, os conídios morrem rápido, e deixar a embalagem no porta-malas do carro ao sol depois de comprar já inutiliza o lote. Compre em loja que mantenha cadeia fria, transporte em bolsa térmica e refrigere ao chegar.

    O teste caseiro de viabilidade resolve a dúvida: coloque 1 g do produto em uma placa com ágar batata-dextrose (ou, na versão improvisada, sobre uma fatia de batata cozida em pote fechado), mantenha em ambiente úmido e morno por 48 a 72 horas. Se aparecer micélio esverdeado tendendo a verde-oliva, o lote está vivo. Se nada crescer ou surgir apenas contaminação marrom, descarte. A Embrapa publicou material técnico sobre o uso de Trichoderma no controle de fungos fitopatogênicos, e o Instituto Biológico de São Paulo mantém comunicado técnico sobre patógenos de solo.

    Produtos: Trianum DS (Koppert, cepa T-22), Quality e Trichodermil.

    Beauveria bassiana: umidade é o interruptor

    Beauveria bassiana é um fungo entomopatogênico. O conídio adere à cutícula do inseto, germina, forma um apressório e penetra a cutícula por pressão mecânica combinada com enzimas. Uma vez dentro do hemoceloma, prolifera e mata o hospedeiro em 2 a 7 dias. O cadáver fica recoberto por micélio branco pulverulento, a "múmia" que é o sinal visual de que o produto pegou.

    Os alvos são sugadores de corpo mole: mosca-branca (Bemisia tabaci), tripes (Frankliniella), ácaro-rajado (Tetranychus urticae), pulgões e percevejos.

    A condição que decide tudo é a umidade relativa. Como o mecanismo depende de germinação do conídio sobre a cutícula, a UR precisa ficar em 65-70% ou mais nas 12 a 24 horas seguintes à aplicação, com temperatura na faixa de 25 a 30°C. Material técnico da Revista Cultivar sobre fungos entomopatogênicos contra a mosca-branca registra essas condições ótimas e menciona dezenas de produtos microbianos registrados no MAPA para o alvo.

    Em clima seco, três táticas melhoram o desempenho: pulverizar logo após a irrigação, aplicar no fim da tarde para aproveitar a subida natural da UR noturna, e usar óleo emulsionável (mineral ou vegetal) como adjuvante, que retarda a dessecação do conídio. Em estufa e cultivo protegido, desligar exaustores por 30 minutos após a aplicação segura a umidade no momento crítico. Se você opera em ambiente controlado, a UR é um parâmetro que você já monitora, e vale programar a aplicação para a janela em que ela está mais alta.

    Dose: 2-5 g/L de formulação WP ou WG, sempre com espalhante adesivo. Aplique a cada 5-7 dias, em série de 3 a 4 aplicações consecutivas. Aplicação única raramente resolve, porque o ciclo da mosca-branca sobrepõe gerações e você precisa alcançar as ninfas que eclodiram depois da primeira pulverização.

    Compatibilidade com fungicidas é o ponto crítico. Beauveria é um fungo, e fungicida mata fungo, inclusive o seu. Estudo publicado nos Arquivos do Instituto Biológico sobre compatibilidade de isolados de Beauveria bassiana mostra redução de germinação de conídios frente a diversos produtos. Na horta orgânica, isso significa que calda bordalesa e Beauveria não convivem no mesmo tanque nem no mesmo dia.

    Armazenamento segue a mesma regra do Trichoderma: 2-8°C, cerca de 6 meses, com teste de viabilidade em ágar batata-dextrose (o micélio de Beauveria cresce branco e pulverulento, diferente do verde-oliva do Trichoderma).

    Produtos: Boveril Evo (Koppert) e BB-Protec (Andermatt do Brasil, isolado R444).

    Calda bordalesa, óleo mineral e sabão potássico

    Calda bordalesa 0,5%, receita para 5 litros

    A calda bordalesa é sulfato de cobre com cal hidratada, formulada em Bordeaux em 1885 contra o míldio da videira, e segue sendo o fungicida cúprico de contato mais usado em produção orgânica. Age preventivamente contra requeima (Phytophthora), míldio (Peronospora), antracnose (Colletotrichum) e ferrugens.

    Preparo para borrifador de 5 L:

    1. Dissolva 25 g de sulfato de cobre em 4 L de água, em recipiente plástico, vidro ou madeira, nunca metálico (o cobre reage com o metal).
    2. Em separado, dissolva 25 g de cal hidratada em 1 L de água, formando o leite de cal.
    3. Despeje a solução de sulfato sobre o leite de cal, mexendo continuamente. A ordem importa: invertida, a calda precipita.
    4. Teste o pH com fita. O alvo é 6,5 a 7,0. Se estiver ácida, acrescente cal aos poucos até neutralizar. Calda ácida queima folha.
    5. Use no mesmo dia. Calda guardada perde a estabidade da suspensão e entope o bico.

    Aplique com a folha seca, preferencialmente de manhã, a cada 7-15 dias em regime preventivo. Cobre é protetor de superfície, não erradicante: aplicado sobre lesão já instalada, faz pouco.

    O limite de cobre é regulatório, não conselho. As IFOAM Family of Standards limitam a 6 kg de cobre por hectare por ano, porque o metal acumula no solo e afeta a microbiota. Em horta caseira dificilmente se chega perto disso, mas o produtor certificado precisa registrar as aplicações. A base legal brasileira do sistema orgânico está na Lei nº 10.831/2003 e no Decreto nº 6.323/2007.

    Calda sulfocálcica

    Sulfato de cálcio polissulfetado, eficaz contra ácaros, cochonilhas e oídio. O preparo doméstico é desaconselhável pela necessidade de fervura prolongada e pelo pH extremamente alcalino, que é corrosivo. Compre pronta, use na concentração de 2-3°Bé em período vegetativo e não misture com nada. Não aplique em dias quentes: queima folha com facilidade.

    Óleo mineral e óleo vegetal emulsionável

    Agem por asfixia física, obstruindo os espiráculos de cochonilhas, ácaros e ovos de várias espécies. Concentração usual de 0,5-1% (5-10 mL/L). Como não têm modo de ação bioquímico, não geram resistência, o que os torna bons parceiros de rodízio. Nunca aplique óleo em dia de sol forte nem em planta sob estresse hídrico, e respeite intervalo mínimo de 20 dias (podendo chegar a 30, dependendo da ordem de aplicação) entre uma aplicação de óleo e uma de calda sulfocálcica, porque a combinação é fitotóxica.

    Sabão potássico

    Sais potássicos de ácidos graxos, que rompem a membrana celular de insetos de corpo mole por contato. Dose de 10-20 g/L. Só funciona molhado: seco, não tem efeito residual algum, o que significa cobertura total obrigatória, incluindo o verso da folha. É o insumo mais barato e o mais seguro para colher no dia seguinte, mas exige reaplicação frequente. Bom para pulgão em pequena escala e para lavar fumagina antes de outra aplicação.

    Matriz de compatibilidade no tanque

    NeemBtTrichodermaBeauveriaBordalesaÓleo mineral
    Neemn/d⏱ 3 dias⏱ 3 dias⏱ 7 dias❌ (excesso de óleo)
    Btn/d⏱ 3 dias
    Trichoderma⏱ 3 diasn/d⏱ separar❌ 7-10 dias⏱ 3 dias
    Beauveria⏱ 3 dias⏱ separarn/d❌ 7-10 dias✅ (adjuvante)
    Bordalesa⏱ 7 dias❌ 7-10 dias❌ 7-10 diasn/d
    Óleo mineral⏱ 3 dias⏱ 3 diasn/d

    ✅ = pode misturar no mesmo tanque · ⏱ = aplicações separadas, respeitando o intervalo · ❌ = incompatível

    A regra que explica quase toda a tabela: o cobre da calda bordalesa é biocida de amplo espectro. Ele eleva o pH da calda, o que inativa as proteínas Cry do Bt, e mata diretamente os conídios de Trichoderma e Beauveria, que são fungos. Cobre nunca entra no mesmo tanque que microbiano, e aplicações antagônicas devem ser espaçadas em 7 a 10 dias.

    A combinação neem + Bt, ao contrário, é sinérgica e comprovadamente útil: o neem repele adultos e age sobre a postura, o Bt mata as lagartas que eclodem. Use 1 mL/L de espalhante para os dois.

    Cronograma operacional de 90 dias

    MomentoAçãoInsumo e dose
    Dia 0 (transplante)Imersão da raiz 15 minTrichoderma 2-5 g/L
    Dias 1-90Inspeção visual 2×/semana + armadilhas cromotrópicas amarelasn/d
    QuinzenalManutenção preventiva, após 16hNeem 0,5% (5 mL/L)
    MensalRega de reforço radicularTrichoderma 2-5 g/L
    Ao detectar lagarta <5 mmPulverizar após 16h, repetir a cada 7 diasBt kurstaki ou aizawai 1-2 g/L
    Ao detectar mosca-branca ou tripes3-4 aplicações a cada 5-7 dias, após 16hBeauveria 2-5 g/L + espalhante
    Sintoma fúngico foliarPreventivo a cada 7-15 dias, folha secaBordalesa 0,5% (não no mesmo dia de microbiano)
    Pré-colheitaRespeitar carência da bula de cada produton/d
    Produtor inspecionando verso de folha ao lado de armadilha amarela em horta de folhosas
    Inspeção duas vezes por semana é o que permite pegar a lagarta ainda com menos de 5 mm

    O que muda quando a horta é hidropônica

    Em sistema hidropônico, três coisas se alteram na aplicação dos mesmos produtos.

    Trichoderma vira insumo de rotina na solução, não tratamento de solo. A dose passa a 1-2 g/m³ de solução, reaplicada a cada 15-30 dias ou a cada troca. O alvo principal é Pythium, que se multiplica com facilidade em filme nutritivo quando a temperatura da solução passa de 24°C. O Trichoderma coloniza a superfície da raiz e ocupa o nicho, mas isso não substitui o controle térmico da solução.

    Bt israelensis assume o combate à mosca-do-substrato. Fibra de coco, turfa e espuma fenólica permanentemente úmidas são criadouro ideal para sciarídeos, cujas larvas comem radicelas e abrem porta de entrada para fungos. Aplique 2-5 g/L em drench, 100-200 mL por bandeja ou vaso. Quem cultiva microverdes em casa encontra esse problema com frequência, porque a bandeja fica coberta e úmida nos primeiros dias.

    Cobre é problema em circuito fechado. Calda bordalesa é para parte aérea; qualquer escorrimento para a calha retorna ao reservatório e o cobre acumula na solução recirculante, com risco de fitotoxicidade e de desequilíbrio de micronutrientes. Em NFT e DFT, prefira aplicar produtos cúpricos com o sistema desligado e as calhas protegidas, ou substitua por bicarbonato de potássio (5-10 g/L) para oídio e manchas foliares, que não deixa resíduo metálico.

    Comprar certo: registro, lote e cadeia fria

    Todo produto fitossanitário vendido no Brasil precisa de registro. A consulta oficial é o AGROFIT, banco do MAPA que permite buscar por marca comercial, ingrediente ativo, cultura e classe toxicológica. Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica recebem registro pela via PFAU e constam da lista de Especificações de Referência e Produtos FITORG do MAPA. Comprar produto sem registro é ilegal e invalida certificação orgânica em auditoria.

    Checklist na loja:

    • Número de registro MAPA impresso no rótulo, conferível no AGROFIT.
    • Cultura na bula. Registro é por par produto-cultura. Produto registrado só para soja não ampara uso legal em alface, mesmo com o mesmo ativo.
    • Data de fabricação e lote, principalmente em Trichoderma e Beauveria. Produto microbiano com mais de 4 meses de fabricação já vem com boa parte da validade consumida.
    • Cadeia fria. Se o Trichoderma está em prateleira à temperatura ambiente sob luz, não compre.
    • Concentração declarada. Para microbianos, ≥10⁸ UFC/g. Para neem, a concentração de azadiractina em ppm, que varia de 3.000 a 12.000 e muda a dose efetiva.

    Para quem produz para venda, os três caminhos de certificação orgânica no Brasil são o OAC (auditoria por organismo credenciado, com direito ao Selo SisOrg), o OPAC (sistema participativo de garantia, com responsabilidade solidária do grupo) e a OCS (organização de controle social, que autoriza venda direta em feira e cesta sem direito ao selo, mediante cadastro no MAPA).

    Para onde o setor caminha

    A regulamentação infralegal da Lei 15.070/2024 está em elaboração pelo MAPA ao longo de 2026 e deve destravar tanto o registro industrial quanto as regras de produção on-farm de bioinsumos. No mercado, o relatório da Mordor Intelligence projeta o mercado global de biopesticidas saindo de USD 6,72 bilhões em 2025 para USD 11,38 bilhões em 2030, um CAGR de 11,14%.

    No Brasil, o vetor de demanda é o consumo de orgânicos. A IMARC Group projeta o mercado brasileiro de alimentos orgânicos saindo de USD 3,7 bilhões em 2024 para USD 15,5 bilhões em 2033, com CAGR de 16,5%. Hoje, hortifruti soma com café, citros e algodão apenas cerca de 6% da área tratada com bioinsumos no país, contra 62% de soja, o que indica quanto espaço a horticultura especificamente ainda tem para adotar essas tecnologias.

    Do lado técnico, três frentes avançam: formulações de Beauveria com adjuvantes oleosos para operar em umidade relativa baixa, combinações de Bt com baculovírus para retardar resistência de Plutella, e pulverização por drone com biológicos, que ganha da altura de voo e do horário programado uma redução da exposição a UV.

    Perguntas frequentes

    Óleo de neem mata abelha?

    Em concentrações típicas de 0,5 a 1,5% e aplicação no fim do dia, o impacto sobre abelhas adultas é baixo a moderado, já que a azadiractina não age por contato em adultos, mas pode afetar larvas se houver contaminação direta da colmeia. Evite pulverizar durante o forrageio (manhã e início da tarde) e nunca aplique em plantas em plena floração visitada por polinizadores.

    Qual a diferença entre Bt kurstaki, aizawai e israelensis?

    Bt kurstaki (cepa HD-1) controla a maioria das lagartas de hortaliças, como Trichoplusia ni, Helicoverpa e Ascia monuste. Bt aizawai controla também Plutella xylostella e Spodoptera com mais eficácia, sendo a escolha quando há suspeita de resistência ao kurstaki. Bt israelensis age apenas sobre larvas de mosquitos e mosca-do-substrato (Sciaridae), e é inócuo para lagartas.

    Posso misturar óleo de neem com Bt no mesmo borrifador?

    Sim, são compatíveis e até sinérgicos: o neem repele adultos e age sobre ovos, enquanto o Bt mata as lagartas pequenas por ingestão. Acrescente 1 mL/L de espalhante para garantir a cobertura. O que não se pode é misturar Bt com calda bordalesa ou qualquer produto cúprico, porque o pH alcalino inativa as proteínas Cry.

    Trichoderma funciona em hidroponia NFT?

    Sim. Aplique 1-2 g por metro cúbico de solução nutritiva a cada 15-30 dias, ou imerja a raiz da muda em suspensão de 2-5 g/L por 10-15 minutos antes do transplante. O fungo tolera a faixa de pH 5,5-6,5 usada em folhosas e não altera a condutividade elétrica da solução, mas é preventivo: não recupera raiz já comprometida por Pythium.

    Beauveria bassiana funciona com tempo seco?

    Pouco. O conídio precisa de umidade relativa igual ou superior a 65-70% nas 12 a 24 horas seguintes à aplicação para germinar e penetrar a cutícula do inseto. Em clima seco, pulverize no fim da tarde logo após a irrigação, use óleo emulsionável como adjuvante ou aplique em ambiente protegido onde a umidade seja controlada.

    Por quanto tempo posso guardar Trichoderma e Beauveria?

    São organismos vivos e duram cerca de 6 meses refrigerados entre 2 e 8°C, com perda gradual de viabilidade. Guarde na embalagem original lacrada, não congele e nunca deixe no carro ao sol, porque acima de 30°C os conídios morrem rapidamente. Para testar, deixe 1 g em placa com ágar batata-dextrose por 48-72 horas em ambiente úmido e morno: micélio verde-oliva indica Trichoderma vivo e micélio branco pulverulento indica Beauveria viável.

    Calda bordalesa pode ser usada em horta orgânica certificada?

    Sim, é permitida pelo SisOrg e pelas IFOAM Family of Standards, mas com limite de acúmulo de cobre no solo de 6 kg por hectare por ano. Em horta caseira esse teto raramente é atingido, mas prefira sempre a concentração preventiva de 0,5% à curativa de 1 a 2% e registre as aplicações se você for produtor certificado.

    O que comprar primeiro para começar?

    Para uma horta caseira pequena, o kit inicial é óleo de neem 1 L, que é multiuso contra pulgão, tripes e mosca-branca, Bt kurstaki ou aizawai 100 g para lagartas, e Trichoderma 1 kg para tratamento de raiz no transplante. Beauveria entra na segunda fase, quando mosca-branca e tripes aparecerem de fato. O investimento inicial fica em torno de R$ 200 a R$ 300.

    Existe risco de resistência a biodefensivos?

    Sim, sobretudo ao Bt: Plutella xylostella já desenvolveu resistência a Cry1Ac em várias regiões do mundo. Por isso o rodízio entre Bt kurstaki e Bt aizawai é doutrina padrão, idealmente alternando também com neem e com parasitoides. Resistência a Beauveria e Trichoderma é rara porque ambos atuam por vários mecanismos simultâneos.

    Como saber se o produto está registrado no MAPA?

    Consulte o AGROFIT em agrofit.agricultura.gov.br buscando por marca comercial, ingrediente ativo ou cultura. Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica recebem registro PFAU pela IN Conjunta nº 1/2011 e aparecem na lista FITORG do MAPA. Comprar produto sem registro é ilegal e pode invalidar a certificação orgânica em auditoria.

    Quanto tempo leva para o Bt matar a lagarta?

    A lagarta para de se alimentar em 1 a 3 horas após ingerir a folha tratada, mas a morte só ocorre em 2 a 5 dias. O sinal de sucesso é a lagarta parada e murcha, não o cadáver imediato, e é por isso que muita gente conclui erradamente que o produto falhou. A eficácia exige aplicar em lagartas de até 5 mm, ou até quatro dias após a eclosão.

    Posso usar bicarbonato de potássio na horta?

    Sim, na concentração de 0,5 a 1% (5 a 10 g/L) é um fungicida de contato eficaz contra oídio e manchas foliares, autorizado pelas normas IFOAM e pelo USDA NOP. Ele não substitui o Trichoderma para fungos de raiz, mas complementa bem na parte aérea sem deixar resíduo cúprico, o que o torna especialmente útil em sistemas hidropônicos recirculantes.

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