Este artigo é o manual dos produtos. Se você ainda está tentando descobrir qual praga atacou a sua horta, ou como montar uma rotina de monitoramento e níveis de dano, comece pelos guias canônicos: pragas e doenças em hidroponia e cultivo protegido cobre o diagnóstico em estufa e sistema fechado, e o manejo integrado de pragas a céu aberto cobre a horta e o campo sem estufa. Aqui, o pressuposto é outro: você já sabe o que tem, e precisa saber qual insumo comprar, em que concentração diluir, a que horas pulverizar, o que pode misturar com o quê e o que anula a aplicação.
O que é um biodefensivo e por que a dose importa tanto
Biodefensivo é um produto de origem vegetal, animal ou microbiana registrado para proteger a lavoura, conforme a definição do Programa Nacional de Bioinsumos (Decreto nº 10.375/2020) do MAPA. Ele se divide em três classes: microbianos (Bacillus thuringiensis, Beauveria, Trichoderma, Metarhizium), bioquímicos vegetais (óleo de neem/azadiractina) e macrobiológicos (parasitoides e ácaros predadores).
A diferença prática em relação ao agrotóxico sintético é que o biodefensivo não é um veneno mais fraco, é uma tecnologia com janela de uso estreita. Um inseticida piretroide funciona a qualquer hora, com qualquer umidade, misturado com quase tudo. Já o conídio de Beauveria precisa germinar antes de matar, e não germina com umidade relativa abaixo de 60%. O cristal proteico do Bt precisa ser ingerido por uma lagarta pequena, e se degrada sob radiação ultravioleta. É por isso que a maioria dos relatos de "não funcionou" na horta caseira não é falha do produto, e sim erro de dose, de horário ou de mistura.
O mercado brasileiro validou essa tecnologia em escala. Segundo a CropLife Brasil, o setor de bioinsumos faturou R$ 6,2 bilhões em 2025, um crescimento de 15% sobre 2024, com 194 milhões de hectares tratados. Os biofungicidas foram o segmento que mais cresceu em valor, com alta de 41%, chegando a R$ 1,4 bilhão.
"O MAPA concedeu 162 registros de bioinsumos em 2025, o maior número da série histórica, dentro de um total de 912 registros de defensivos no ano." MAPA, Balanço anual de registros (2026)
A regra jurídica mudou recentemente. A Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024, criou o marco legal específico dos bioinsumos, unificando produção, registro, rotulagem, transporte e armazenamento para os sistemas convencional, orgânico e agroecológico. Ela convive com a Lei nº 14.785/2023, que substituiu a antiga lei de agrotóxicos de 1989 e manteve o registro tripartite MAPA, ANVISA e IBAMA.
Tabela mestre: os cinco insumos lado a lado
| Insumo | Princípio ativo | Alvos principais | Dose caseira | Intervalo | Horário | Validade | Custo BR |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Óleo de neem | Azadiractina A (3.000-12.000 ppm) | Mosca-branca, pulgão, tripes, lagarta pequena, ácaro-rajado, cochonilha | 5-15 mL/L (0,5-1,5%) + 1 mL/L espalhante | 7-10 dias | Após 16h | 2 anos lacrado; 6-12 meses aberto | R$ 80-150/L |
| Bacillus thuringiensis | Cristais Cry/Cyt | Lagartas (Plutella, Spodoptera, Trichoplusia, Helicoverpa); sciarídeos (var. israelensis) | 1-2 g/L (WG) ou 1-2 mL/L (SC) | 7 dias | Após 16h | 2-3 anos a 25°C | R$ 35-60/100 g |
| Trichoderma | Conídios ≥10⁸ UFC/g | Pythium, Rhizoctonia, Fusarium, Sclerotinia | 2-5 g/L em rega; 1% em imersão de raiz | Mensal | Manhã ou fim de tarde | 6 meses a 2-8°C | R$ 50-90/kg |
| Beauveria bassiana | Conídios ≥10⁸ UFC/g | Mosca-branca, tripes, ácaro-rajado, pulgão | 2-5 g/L + espalhante adesivo | 5-7 dias, 3-4 vezes | Após 16h, UR ≥70% | 6 meses a 2-8°C | R$ 40-80/250 g |
| Calda bordalesa | Sulfato de cobre + cal | Míldio, requeima, antracnose, ferrugem | 0,5% (25 g + 25 g em 5 L) | 7-15 dias | Manhã, folha seca | Usar no mesmo dia | R$ 15-25 por preparo |

Óleo de neem: dose, espalhante e o erro que queima a folha
O óleo de neem é extraído das sementes de Azadirachta indica, e o ativo que interessa é a azadiractina A, presente em concentrações de 3.000 a 12.000 ppm nos produtos comerciais. Ele não mata por choque. Age por quatro mecanismos: inibe a ecdise (a troca de cutícula do inseto, que morre travado na muda), funciona como antialimentar (o inseto para de se alimentar), tem efeito ovicida sobre posturas recentes e ainda apresenta ação sistêmica parcial quando absorvido pela raiz.
A receita para borrifador de 1 litro é 10 mL de óleo de neem, 1 mL de detergente neutro e 989 mL de água morna. O detergente não é opcional: sem espalhante, o óleo se separa da água em segundos e a calda não cobre a folha. Use água morna (não quente) porque o óleo emulsiona melhor. Agite o borrifador a cada 30 segundos durante a aplicação, porque a emulsão volta a separar.
A faixa de concentração vai de 0,5% (5 mL/L, uso preventivo e manutenção quinzenal) a 1,5% (15 mL/L, infestação instalada de pulgão ou cochonilha). Pulverize o verso da folha, que é onde mosca-branca, pulgão e ácaro se instalam. Reaplique a cada 7-10 dias enquanto houver praga.
O erro que estraga a aplicação é o horário. Óleo sobre folha sob sol forte funciona como lente e provoca queima. Aplique depois das 16h, quando a radiação já caiu, e a planta tem a noite inteira para o produto agir antes do próximo pico solar. Em hortaliças de folha fina como manjericão, rúcula e alface jovem, reduza a dose pela metade (0,5%) e teste em duas ou três folhas antes de pulverizar o canteiro inteiro. Se em 48 horas aparecerem manchas necróticas nas bordas, a dose está alta para aquela cultura.
Sobre carência e polinizadores: a azadiractina tem baixa persistência, e fabricantes costumam descrevê-la como produto de baixo resíduo, sem uma carência numérica fixa em dias para boa parte das formulações , a bula do Fitoneem, por exemplo, não define um número de dias de carência. Consulte sempre o registro do produto no AGROFIT e a bula específica, porque isso varia por formulação. Não pulverize plantas em plena floração visitada por abelhas durante o forrageio, que ocorre de manhã e no início da tarde. A aplicação vespertina já reduz muito esse risco.
Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica no Brasil incluem Fitoneem, Azact CE, Agroneem e Base Nim, todos registrados via PFAU, o procedimento simplificado da IN Conjunta nº 1/2011.
Bacillus thuringiensis: a janela de 5 milímetros
O Bt é uma bactéria que produz cristais proteicos (toxinas Cry e Cyt) durante a esporulação. Quando a lagarta ingere folha tratada, o pH alcalino do intestino médio dissolve o cristal, a toxina se liga a receptores específicos do epitélio intestinal e rompe as células. A lagarta para de se alimentar em 1 a 3 horas, mas só morre em 2 a 5 dias.
Essa defasagem é a origem do mal-entendido mais comum. O horticultor pulveriza, volta no dia seguinte, vê a lagarta ainda pendurada na folha e conclui que o produto falhou. Não falhou: a lagarta está paralisada e não come mais. O sinal de sucesso é a lagarta parada e murcha, não o cadáver imediato.
A janela crítica é o tamanho da lagarta. O Bt é eficaz em lagartas de até cerca de 5 mm, ou até quatro dias após a eclosão, segundo material técnico da Codevasf sobre uso em hortaliças. Lagarta grande de terceiro ínstar em diante ingere proporcionalmente menos toxina em relação à massa corporal e sobrevive. Isso torna a inspeção duas vezes por semana obrigatória: você precisa detectar a postura ou a eclosão, não o estrago.
As três variedades não são intercambiáveis:
| Variedade | Alvo | Quando escolher |
|---|---|---|
| kurstaki (HD-1) | Trichoplusia ni, Helicoverpa, Ascia monuste | Padrão para lagartas de folhosas e brássicas |
| aizawai | Plutella xylostella, Spodoptera | Traça-das-crucíferas e quando há suspeita de resistência a kurstaki |
| israelensis | Larvas de sciarídeos e mosquitos | Mosca-do-substrato em bandeja, fibra de coco e turfa; inócuo para lagartas |
Comprar israelensis achando que controla lagarta é dinheiro jogado fora, e é um erro frequente porque o rótulo diz "Bt" em destaque e a variedade vem em letra pequena.
Dose e aplicação: 1-2 g/L nas formulações WG (grânulo dispersível) ou 1-2 mL/L nas SC (suspensão concentrada), com espalhante. Aplique após as 16h, porque o cristal proteico degrada sob UV e a meia-vida no campo cai drasticamente sob sol pleno. Repita a cada 7 dias enquanto houver lagartas ativas. Como o Bt age por ingestão, a cobertura precisa alcançar a superfície que a lagarta come, incluindo o interior do cartucho em couve e repolho.
Resistência é risco real. Plutella xylostella desenvolveu resistência a Cry1Ac em várias regiões do mundo. O estudo de eficácia de campo de Legwaila et al. (2015), sobre Bacillus thuringiensis var. kurstaki contra a traça-das-crucíferas em repolho, registra populações resistentes documentadas no Havaí, em agrião-d'água e repolho. A prática padrão é o rodízio entre kurstaki e aizawai, alternando também com neem e com controle biológico por Trichogramma. Trabalhos brasileiros da revista Horticultura Brasileira avaliaram formulações de Bt em repolho no Distrito Federal e confirmam a eficácia quando a aplicação respeita o estágio larval.
Produtos disponíveis: DiPel WG e XenTari (Sumitomo), Agree, BT-Turbo Max (Vittia) e BtControl (Simbiose).
Trichoderma: o único que se aplica antes do problema
Trichoderma harzianum e T. asperellum são fungos de solo que atuam contra patógenos de raiz: Pythium spp., Rhizoctonia solani, Fusarium oxysporum, Sclerotinia e Sclerotium. O mecanismo é triplo. Faz micoparasitismo, enrolando a hifa do patógeno e secretando quitinases e glucanases que dissolvem a parede celular dele. Faz competição por espaço e nutrientes na rizosfera, ocupando o nicho antes do patógeno chegar. E induz resistência sistêmica na planta, além de estimular crescimento radicular.

A consequência prática é que Trichoderma é preventivo, não curativo. Muda com raiz já podre por Pythium não se recupera com aplicação de Trichoderma. Aplique antes, e há quatro momentos:
- Tratamento de semente, suspensão a 1%, deixando a semente secar à sombra antes de semear.
- Imersão da raiz no transplante, 5 a 15 minutos em suspensão de 2-5 g/L. É o método de maior custo-benefício, porque coloniza a rizosfera exatamente quando ela está exposta.
- Incorporação ao substrato, 2-5 g/L de substrato antes de encher bandejas ou vasos.
- Rega mensal, 2-5 g/L, 100-200 mL por vaso, reaplicando após chuva forte que lave o perfil.
Em hidroponia, a aplicação muda de forma. Adicione 1-2 g por metro cúbico de solução nutritiva a cada 15-30 dias, ou a cada troca completa de solução. O Trichoderma tolera bem a faixa de pH 5,5 a 6,5 usada em folhosas e não interfere na condutividade elétrica, então não é preciso recalcular a solução nutritiva. A imersão de raiz antes do transplante para a bancada NFT é especialmente eficiente, porque na hidroponia a raiz fica permanentemente úmida e o Pythium tem via livre sem um competidor instalado.
Armazenamento é o ponto que a maioria erra. Trichoderma é um organismo vivo. Refrigerado entre 2 e 8°C, mantém viabilidade por cerca de 6 meses, com perda gradual. Acima de 30°C, os conídios morrem rápido, e deixar a embalagem no porta-malas do carro ao sol depois de comprar já inutiliza o lote. Compre em loja que mantenha cadeia fria, transporte em bolsa térmica e refrigere ao chegar.
O teste caseiro de viabilidade resolve a dúvida: coloque 1 g do produto em uma placa com ágar batata-dextrose (ou, na versão improvisada, sobre uma fatia de batata cozida em pote fechado), mantenha em ambiente úmido e morno por 48 a 72 horas. Se aparecer micélio esverdeado tendendo a verde-oliva, o lote está vivo. Se nada crescer ou surgir apenas contaminação marrom, descarte. A Embrapa publicou material técnico sobre o uso de Trichoderma no controle de fungos fitopatogênicos, e o Instituto Biológico de São Paulo mantém comunicado técnico sobre patógenos de solo.
Produtos: Trianum DS (Koppert, cepa T-22), Quality e Trichodermil.
Beauveria bassiana: umidade é o interruptor
Beauveria bassiana é um fungo entomopatogênico. O conídio adere à cutícula do inseto, germina, forma um apressório e penetra a cutícula por pressão mecânica combinada com enzimas. Uma vez dentro do hemoceloma, prolifera e mata o hospedeiro em 2 a 7 dias. O cadáver fica recoberto por micélio branco pulverulento, a "múmia" que é o sinal visual de que o produto pegou.
Os alvos são sugadores de corpo mole: mosca-branca (Bemisia tabaci), tripes (Frankliniella), ácaro-rajado (Tetranychus urticae), pulgões e percevejos.
A condição que decide tudo é a umidade relativa. Como o mecanismo depende de germinação do conídio sobre a cutícula, a UR precisa ficar em 65-70% ou mais nas 12 a 24 horas seguintes à aplicação, com temperatura na faixa de 25 a 30°C. Material técnico da Revista Cultivar sobre fungos entomopatogênicos contra a mosca-branca registra essas condições ótimas e menciona dezenas de produtos microbianos registrados no MAPA para o alvo.
Em clima seco, três táticas melhoram o desempenho: pulverizar logo após a irrigação, aplicar no fim da tarde para aproveitar a subida natural da UR noturna, e usar óleo emulsionável (mineral ou vegetal) como adjuvante, que retarda a dessecação do conídio. Em estufa e cultivo protegido, desligar exaustores por 30 minutos após a aplicação segura a umidade no momento crítico. Se você opera em ambiente controlado, a UR é um parâmetro que você já monitora, e vale programar a aplicação para a janela em que ela está mais alta.
Dose: 2-5 g/L de formulação WP ou WG, sempre com espalhante adesivo. Aplique a cada 5-7 dias, em série de 3 a 4 aplicações consecutivas. Aplicação única raramente resolve, porque o ciclo da mosca-branca sobrepõe gerações e você precisa alcançar as ninfas que eclodiram depois da primeira pulverização.
Compatibilidade com fungicidas é o ponto crítico. Beauveria é um fungo, e fungicida mata fungo, inclusive o seu. Estudo publicado nos Arquivos do Instituto Biológico sobre compatibilidade de isolados de Beauveria bassiana mostra redução de germinação de conídios frente a diversos produtos. Na horta orgânica, isso significa que calda bordalesa e Beauveria não convivem no mesmo tanque nem no mesmo dia.
Armazenamento segue a mesma regra do Trichoderma: 2-8°C, cerca de 6 meses, com teste de viabilidade em ágar batata-dextrose (o micélio de Beauveria cresce branco e pulverulento, diferente do verde-oliva do Trichoderma).
Produtos: Boveril Evo (Koppert) e BB-Protec (Andermatt do Brasil, isolado R444).
Calda bordalesa, óleo mineral e sabão potássico
Calda bordalesa 0,5%, receita para 5 litros
A calda bordalesa é sulfato de cobre com cal hidratada, formulada em Bordeaux em 1885 contra o míldio da videira, e segue sendo o fungicida cúprico de contato mais usado em produção orgânica. Age preventivamente contra requeima (Phytophthora), míldio (Peronospora), antracnose (Colletotrichum) e ferrugens.
Preparo para borrifador de 5 L:
- Dissolva 25 g de sulfato de cobre em 4 L de água, em recipiente plástico, vidro ou madeira, nunca metálico (o cobre reage com o metal).
- Em separado, dissolva 25 g de cal hidratada em 1 L de água, formando o leite de cal.
- Despeje a solução de sulfato sobre o leite de cal, mexendo continuamente. A ordem importa: invertida, a calda precipita.
- Teste o pH com fita. O alvo é 6,5 a 7,0. Se estiver ácida, acrescente cal aos poucos até neutralizar. Calda ácida queima folha.
- Use no mesmo dia. Calda guardada perde a estabidade da suspensão e entope o bico.
Aplique com a folha seca, preferencialmente de manhã, a cada 7-15 dias em regime preventivo. Cobre é protetor de superfície, não erradicante: aplicado sobre lesão já instalada, faz pouco.
O limite de cobre é regulatório, não conselho. As IFOAM Family of Standards limitam a 6 kg de cobre por hectare por ano, porque o metal acumula no solo e afeta a microbiota. Em horta caseira dificilmente se chega perto disso, mas o produtor certificado precisa registrar as aplicações. A base legal brasileira do sistema orgânico está na Lei nº 10.831/2003 e no Decreto nº 6.323/2007.
Calda sulfocálcica
Sulfato de cálcio polissulfetado, eficaz contra ácaros, cochonilhas e oídio. O preparo doméstico é desaconselhável pela necessidade de fervura prolongada e pelo pH extremamente alcalino, que é corrosivo. Compre pronta, use na concentração de 2-3°Bé em período vegetativo e não misture com nada. Não aplique em dias quentes: queima folha com facilidade.
Óleo mineral e óleo vegetal emulsionável
Agem por asfixia física, obstruindo os espiráculos de cochonilhas, ácaros e ovos de várias espécies. Concentração usual de 0,5-1% (5-10 mL/L). Como não têm modo de ação bioquímico, não geram resistência, o que os torna bons parceiros de rodízio. Nunca aplique óleo em dia de sol forte nem em planta sob estresse hídrico, e respeite intervalo mínimo de 20 dias (podendo chegar a 30, dependendo da ordem de aplicação) entre uma aplicação de óleo e uma de calda sulfocálcica, porque a combinação é fitotóxica.
Sabão potássico
Sais potássicos de ácidos graxos, que rompem a membrana celular de insetos de corpo mole por contato. Dose de 10-20 g/L. Só funciona molhado: seco, não tem efeito residual algum, o que significa cobertura total obrigatória, incluindo o verso da folha. É o insumo mais barato e o mais seguro para colher no dia seguinte, mas exige reaplicação frequente. Bom para pulgão em pequena escala e para lavar fumagina antes de outra aplicação.
Matriz de compatibilidade no tanque
| Neem | Bt | Trichoderma | Beauveria | Bordalesa | Óleo mineral | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Neem | n/d | ✅ | ⏱ 3 dias | ⏱ 3 dias | ⏱ 7 dias | ❌ (excesso de óleo) |
| Bt | ✅ | n/d | ✅ | ✅ | ❌ | ⏱ 3 dias |
| Trichoderma | ⏱ 3 dias | ✅ | n/d | ⏱ separar | ❌ 7-10 dias | ⏱ 3 dias |
| Beauveria | ⏱ 3 dias | ✅ | ⏱ separar | n/d | ❌ 7-10 dias | ✅ (adjuvante) |
| Bordalesa | ⏱ 7 dias | ❌ | ❌ 7-10 dias | ❌ 7-10 dias | n/d | ❌ |
| Óleo mineral | ❌ | ⏱ 3 dias | ⏱ 3 dias | ✅ | ❌ | n/d |
✅ = pode misturar no mesmo tanque · ⏱ = aplicações separadas, respeitando o intervalo · ❌ = incompatível
A regra que explica quase toda a tabela: o cobre da calda bordalesa é biocida de amplo espectro. Ele eleva o pH da calda, o que inativa as proteínas Cry do Bt, e mata diretamente os conídios de Trichoderma e Beauveria, que são fungos. Cobre nunca entra no mesmo tanque que microbiano, e aplicações antagônicas devem ser espaçadas em 7 a 10 dias.
A combinação neem + Bt, ao contrário, é sinérgica e comprovadamente útil: o neem repele adultos e age sobre a postura, o Bt mata as lagartas que eclodem. Use 1 mL/L de espalhante para os dois.
Cronograma operacional de 90 dias
| Momento | Ação | Insumo e dose |
|---|---|---|
| Dia 0 (transplante) | Imersão da raiz 15 min | Trichoderma 2-5 g/L |
| Dias 1-90 | Inspeção visual 2×/semana + armadilhas cromotrópicas amarelas | n/d |
| Quinzenal | Manutenção preventiva, após 16h | Neem 0,5% (5 mL/L) |
| Mensal | Rega de reforço radicular | Trichoderma 2-5 g/L |
| Ao detectar lagarta <5 mm | Pulverizar após 16h, repetir a cada 7 dias | Bt kurstaki ou aizawai 1-2 g/L |
| Ao detectar mosca-branca ou tripes | 3-4 aplicações a cada 5-7 dias, após 16h | Beauveria 2-5 g/L + espalhante |
| Sintoma fúngico foliar | Preventivo a cada 7-15 dias, folha seca | Bordalesa 0,5% (não no mesmo dia de microbiano) |
| Pré-colheita | Respeitar carência da bula de cada produto | n/d |

O que muda quando a horta é hidropônica
Em sistema hidropônico, três coisas se alteram na aplicação dos mesmos produtos.
Trichoderma vira insumo de rotina na solução, não tratamento de solo. A dose passa a 1-2 g/m³ de solução, reaplicada a cada 15-30 dias ou a cada troca. O alvo principal é Pythium, que se multiplica com facilidade em filme nutritivo quando a temperatura da solução passa de 24°C. O Trichoderma coloniza a superfície da raiz e ocupa o nicho, mas isso não substitui o controle térmico da solução.
Bt israelensis assume o combate à mosca-do-substrato. Fibra de coco, turfa e espuma fenólica permanentemente úmidas são criadouro ideal para sciarídeos, cujas larvas comem radicelas e abrem porta de entrada para fungos. Aplique 2-5 g/L em drench, 100-200 mL por bandeja ou vaso. Quem cultiva microverdes em casa encontra esse problema com frequência, porque a bandeja fica coberta e úmida nos primeiros dias.
Cobre é problema em circuito fechado. Calda bordalesa é para parte aérea; qualquer escorrimento para a calha retorna ao reservatório e o cobre acumula na solução recirculante, com risco de fitotoxicidade e de desequilíbrio de micronutrientes. Em NFT e DFT, prefira aplicar produtos cúpricos com o sistema desligado e as calhas protegidas, ou substitua por bicarbonato de potássio (5-10 g/L) para oídio e manchas foliares, que não deixa resíduo metálico.
Comprar certo: registro, lote e cadeia fria
Todo produto fitossanitário vendido no Brasil precisa de registro. A consulta oficial é o AGROFIT, banco do MAPA que permite buscar por marca comercial, ingrediente ativo, cultura e classe toxicológica. Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica recebem registro pela via PFAU e constam da lista de Especificações de Referência e Produtos FITORG do MAPA. Comprar produto sem registro é ilegal e invalida certificação orgânica em auditoria.
Checklist na loja:
- Número de registro MAPA impresso no rótulo, conferível no AGROFIT.
- Cultura na bula. Registro é por par produto-cultura. Produto registrado só para soja não ampara uso legal em alface, mesmo com o mesmo ativo.
- Data de fabricação e lote, principalmente em Trichoderma e Beauveria. Produto microbiano com mais de 4 meses de fabricação já vem com boa parte da validade consumida.
- Cadeia fria. Se o Trichoderma está em prateleira à temperatura ambiente sob luz, não compre.
- Concentração declarada. Para microbianos, ≥10⁸ UFC/g. Para neem, a concentração de azadiractina em ppm, que varia de 3.000 a 12.000 e muda a dose efetiva.
Para quem produz para venda, os três caminhos de certificação orgânica no Brasil são o OAC (auditoria por organismo credenciado, com direito ao Selo SisOrg), o OPAC (sistema participativo de garantia, com responsabilidade solidária do grupo) e a OCS (organização de controle social, que autoriza venda direta em feira e cesta sem direito ao selo, mediante cadastro no MAPA).
Para onde o setor caminha
A regulamentação infralegal da Lei 15.070/2024 está em elaboração pelo MAPA ao longo de 2026 e deve destravar tanto o registro industrial quanto as regras de produção on-farm de bioinsumos. No mercado, o relatório da Mordor Intelligence projeta o mercado global de biopesticidas saindo de USD 6,72 bilhões em 2025 para USD 11,38 bilhões em 2030, um CAGR de 11,14%.
No Brasil, o vetor de demanda é o consumo de orgânicos. A IMARC Group projeta o mercado brasileiro de alimentos orgânicos saindo de USD 3,7 bilhões em 2024 para USD 15,5 bilhões em 2033, com CAGR de 16,5%. Hoje, hortifruti soma com café, citros e algodão apenas cerca de 6% da área tratada com bioinsumos no país, contra 62% de soja, o que indica quanto espaço a horticultura especificamente ainda tem para adotar essas tecnologias.
Do lado técnico, três frentes avançam: formulações de Beauveria com adjuvantes oleosos para operar em umidade relativa baixa, combinações de Bt com baculovírus para retardar resistência de Plutella, e pulverização por drone com biológicos, que ganha da altura de voo e do horário programado uma redução da exposição a UV.
Perguntas frequentes
Óleo de neem mata abelha?
Em concentrações típicas de 0,5 a 1,5% e aplicação no fim do dia, o impacto sobre abelhas adultas é baixo a moderado, já que a azadiractina não age por contato em adultos, mas pode afetar larvas se houver contaminação direta da colmeia. Evite pulverizar durante o forrageio (manhã e início da tarde) e nunca aplique em plantas em plena floração visitada por polinizadores.
Qual a diferença entre Bt kurstaki, aizawai e israelensis?
Bt kurstaki (cepa HD-1) controla a maioria das lagartas de hortaliças, como Trichoplusia ni, Helicoverpa e Ascia monuste. Bt aizawai controla também Plutella xylostella e Spodoptera com mais eficácia, sendo a escolha quando há suspeita de resistência ao kurstaki. Bt israelensis age apenas sobre larvas de mosquitos e mosca-do-substrato (Sciaridae), e é inócuo para lagartas.
Posso misturar óleo de neem com Bt no mesmo borrifador?
Sim, são compatíveis e até sinérgicos: o neem repele adultos e age sobre ovos, enquanto o Bt mata as lagartas pequenas por ingestão. Acrescente 1 mL/L de espalhante para garantir a cobertura. O que não se pode é misturar Bt com calda bordalesa ou qualquer produto cúprico, porque o pH alcalino inativa as proteínas Cry.
Trichoderma funciona em hidroponia NFT?
Sim. Aplique 1-2 g por metro cúbico de solução nutritiva a cada 15-30 dias, ou imerja a raiz da muda em suspensão de 2-5 g/L por 10-15 minutos antes do transplante. O fungo tolera a faixa de pH 5,5-6,5 usada em folhosas e não altera a condutividade elétrica da solução, mas é preventivo: não recupera raiz já comprometida por Pythium.
Beauveria bassiana funciona com tempo seco?
Pouco. O conídio precisa de umidade relativa igual ou superior a 65-70% nas 12 a 24 horas seguintes à aplicação para germinar e penetrar a cutícula do inseto. Em clima seco, pulverize no fim da tarde logo após a irrigação, use óleo emulsionável como adjuvante ou aplique em ambiente protegido onde a umidade seja controlada.
Por quanto tempo posso guardar Trichoderma e Beauveria?
São organismos vivos e duram cerca de 6 meses refrigerados entre 2 e 8°C, com perda gradual de viabilidade. Guarde na embalagem original lacrada, não congele e nunca deixe no carro ao sol, porque acima de 30°C os conídios morrem rapidamente. Para testar, deixe 1 g em placa com ágar batata-dextrose por 48-72 horas em ambiente úmido e morno: micélio verde-oliva indica Trichoderma vivo e micélio branco pulverulento indica Beauveria viável.
Calda bordalesa pode ser usada em horta orgânica certificada?
Sim, é permitida pelo SisOrg e pelas IFOAM Family of Standards, mas com limite de acúmulo de cobre no solo de 6 kg por hectare por ano. Em horta caseira esse teto raramente é atingido, mas prefira sempre a concentração preventiva de 0,5% à curativa de 1 a 2% e registre as aplicações se você for produtor certificado.
O que comprar primeiro para começar?
Para uma horta caseira pequena, o kit inicial é óleo de neem 1 L, que é multiuso contra pulgão, tripes e mosca-branca, Bt kurstaki ou aizawai 100 g para lagartas, e Trichoderma 1 kg para tratamento de raiz no transplante. Beauveria entra na segunda fase, quando mosca-branca e tripes aparecerem de fato. O investimento inicial fica em torno de R$ 200 a R$ 300.
Existe risco de resistência a biodefensivos?
Sim, sobretudo ao Bt: Plutella xylostella já desenvolveu resistência a Cry1Ac em várias regiões do mundo. Por isso o rodízio entre Bt kurstaki e Bt aizawai é doutrina padrão, idealmente alternando também com neem e com parasitoides. Resistência a Beauveria e Trichoderma é rara porque ambos atuam por vários mecanismos simultâneos.
Como saber se o produto está registrado no MAPA?
Consulte o AGROFIT em agrofit.agricultura.gov.br buscando por marca comercial, ingrediente ativo ou cultura. Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica recebem registro PFAU pela IN Conjunta nº 1/2011 e aparecem na lista FITORG do MAPA. Comprar produto sem registro é ilegal e pode invalidar a certificação orgânica em auditoria.
Quanto tempo leva para o Bt matar a lagarta?
A lagarta para de se alimentar em 1 a 3 horas após ingerir a folha tratada, mas a morte só ocorre em 2 a 5 dias. O sinal de sucesso é a lagarta parada e murcha, não o cadáver imediato, e é por isso que muita gente conclui erradamente que o produto falhou. A eficácia exige aplicar em lagartas de até 5 mm, ou até quatro dias após a eclosão.
Posso usar bicarbonato de potássio na horta?
Sim, na concentração de 0,5 a 1% (5 a 10 g/L) é um fungicida de contato eficaz contra oídio e manchas foliares, autorizado pelas normas IFOAM e pelo USDA NOP. Ele não substitui o Trichoderma para fungos de raiz, mas complementa bem na parte aérea sem deixar resíduo cúprico, o que o torna especialmente útil em sistemas hidropônicos recirculantes.